JUNDIAÍ (SP) — A empresária Daysi Donola, moradora de Jundiaí, interior de São Paulo, encontrou o corpo do filho Lucas Donola da Silva, de aproximadamente 20 anos, após ele tirar a própria vida. Ela atribui o desfecho trágico à dependência em apostas online, que transformou o jovem amoroso e familiar em uma pessoa agressiva, endividada e isolada. Agora, determinada a dar sentido à perda, Daysi promete transformar a dor em luta, com palestras e ações de conscientização para evitar que outras famílias sofram o mesmo.
Tudo começou em 2023, quando Lucas conheceu as apostas na casa de um amigo. Antes disso, ele era descrito como um rapaz educado, generoso, ligado à família e aos animais. Com o tempo, porém, os pais notaram mudanças profundas: Lucas deixou de dormir direito, passava madrugadas inteiras no celular, fazia apenas uma refeição por dia e perdeu o interesse pela própria aparência. A dependência financeira também escalou. Ele usava o próprio salário, pedia rescisões de contratos de trabalho e fazia empréstimos com familiares e até desconhecidos para sustentar o vício. A agressividade verbal aumentou, e o jovem se afastou completamente do convívio familiar, deixando de participar de Natal e Réveillon.
Mãe relata luta incansável para salvar o filho do vício
Daysi tentou de tudo: retirou o celular de Lucas, buscou acompanhamento psiquiátrico e psicológico, mas o filho resistia ao tratamento. “Nós sentíamos que não reconhecíamos mais o nosso filho”, desabafou a mãe, em entrevista a veículos de imprensa. A situação se agravou entre o fim de 2025 e maio de 2026, quando Lucas já não conseguia manter um emprego por mais de algumas semanas. A família acompanhou a deterioração de perto, sem conseguir reverter o quadro.
SÃO PAULO — Após a tragédia, a família decidiu se mudar para outro bairro de Jundiaí, pois não se sentia mais acolhida na casa onde tudo aconteceu. Antes de sair, Daysi montou uma caixa com pertences do filho, incluindo roupas, óculos, perfume e até lembranças do nascimento, como a pulseirinha do hospital. “Ainda foi muito difícil sair, parecia que eu estava deixando Lucas lá”, contou, com a voz embargada.
Vício em jogos online é tratado como caso de saúde pública
A neurologista Ana Paula Gomes, de Curitiba, explica que o transtorno do jogo é reconhecido como doença pela medicina, com características semelhantes à dependência química. “As apostas ativam o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina. A incerteza do resultado faz com que a pessoa busque repetir a experiência”, afirmou. Ela lista sinais de alerta, como pensar em apostas a maior parte do dia, aumentar os valores apostados, mentir sobre o comportamento, fazer dívidas e ficar irritado ou ansioso quando não pode jogar. O tratamento inclui psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico e, em alguns casos, medicação.
Dados do Banco Central indicam que, em 2024, cerca de 24 milhões de brasileiros realizaram ao menos uma transferência via Pix para casas de apostas. O perfil predominante é de jovens entre 20 e 30 anos, mas o valor médio mensal cresce com a idade, chegando a mais de R$ 3 mil para os mais velhos. Em junho de 2026, mais de 180 plataformas estavam registradas no país, ante 109 em 2025 — um crescimento que acende o alerta das autoridades de saúde.
Daysi Donola, ainda no luto, diz que trocaria qualquer luta pela chance de ter o filho de volta. Mas promete não se calar: “Se a história do Lucas puder salvar uma vida ou impedir que outra família passe pelo que a minha está vivendo, já terá valido a pena.”



