BRASÍLIA (DF) — A Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou na manhã desta quarta-feira (23) uma operação para desarticular um esquema criminoso que desviava recursos públicos destinados à saúde pública na capital federal. As investigações, conduzidas pela Delegacia de Combate à Corrupção (Decor), apontam que o grupo atuava há pelo menos dois anos, fraudando licitações e superfaturando contratos de fornecimento de materiais hospitalares para unidades de saúde do Distrito Federal. A reportagem apurou que o prejuízo estimado aos cofres públicos ultrapassa R$ 15 milhões.
Dados confirmados pelo Diário do Estado indicam que os investigados utilizavam empresas de fachada para vencer processos licitatórios, com a conivência de servidores públicos que atuavam na Secretaria de Saúde. A operação, batizada de “Hipócrates”, cumpre 12 mandados de busca e apreensão em endereços residenciais e comerciais de Brasília e em cidades do Entorno. A Justiça do Distrito Federal também determinou o bloqueio de bens e valores dos principais suspeitos, que somam aproximadamente R$ 8 milhões.
Fraudes em contratos de emergência são o foco das investigações
De acordo com a delegada responsável pelo caso, o esquema se aproveitava de situações de emergência na saúde pública para acelerar contratações sem a devida fiscalização. “Identificamos que os contratos eram firmados com sobrepreço de até 300% em itens como luvas, seringas e medicamentos de uso contínuo. As empresas envolvidas não possuíam capacidade operacional real para fornecer os materiais, o que gerava atrasos e desabastecimento em hospitais regionais”, detalhou a autoridade policial. A Polícia Militar auxiliou no cumprimento dos mandados em áreas de maior risco.
A investigação teve início após uma denúncia anônima recebida pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que posteriormente foi compartilhada com a Decor. Os agentes analisaram documentos fiscais, extratos bancários e comunicações eletrônicas dos suspeitos, revelando uma complexa rede de lavagem de dinheiro. O dinheiro desviado era transferido para contas no exterior e utilizado na compra de imóveis de luxo e veículos de alto padrão.
Servidores públicos são afastados e bens são bloqueados
Como parte das medidas cautelares, a Justiça determinou o afastamento imediato de três servidores públicos da Secretaria de Saúde do DF, que são investigados por participação direta no esquema. Eles são acusados de receber propina para facilitar a aprovação de contratos fraudulentos e liberar pagamentos sem a devida conferência. O Governo do Distrito Federal informou, por meio de nota, que está colaborando integralmente com as investigações e que abriu uma sindicância interna para apurar as responsabilidades administrativas.
Além dos afastamentos, a Justiça decretou a indisponibilidade de bens dos investigados, incluindo imóveis avaliados em mais de R$ 5 milhões e uma frota de veículos de luxo. A reportagem apurou que um dos alvos da operação é um empresário do setor de saúde que já havia sido condenado em primeira instância por crime contra a administração pública em 2019, mas recorria em liberdade. O Corpo de Bombeiros não foi acionado para a operação, mas a Polícia Civil destacou que não houve incidentes durante o cumprimento dos mandados.
Impacto na população e desabastecimento em unidades de saúde
As fraudes tiveram um impacto direto na população do Distrito Federal, especialmente nas regiões administrativas mais carentes. Unidades básicas de saúde (UBS) e hospitais regionais relataram, em depoimentos aos investigadores, episódios de desabastecimento de materiais essenciais, como kits de sutura e medicamentos para hipertensão e diabetes. “A população mais vulnerável foi a mais prejudicada, pois dependia exclusivamente do SUS para tratamentos contínuos”, afirmou um dos promotores que acompanha o caso.
Dados da Secretaria de Saúde, obtidos pela reportagem, mostram que, durante o período das fraudes, pelo menos quatro hospitais regionais registraram filas de espera para cirurgias eletivas devido à falta de materiais. A situação só foi normalizada após a intervenção do Ministério Público, que exigiu a readequação dos contratos. A operação desta quarta-feira é vista como um passo crucial para responsabilizar os envolvidos e evitar que novos desvios ocorram.
Próximos passos da investigação e possíveis novas fases
A Polícia Civil do DF não descarta a abertura de novas fases da operação “Hipócrates” nos próximos meses. Os investigadores agora analisam o material apreendido, incluindo computadores, celulares e documentos, para identificar outros possíveis envolvidos, como lobistas e intermediários financeiros. A expectativa é que, com a quebra dos sigilos bancário e fiscal, seja possível rastrear todo o fluxo do dinheiro desviado.
Os suspeitos presos em flagrante ou que tiveram mandados de prisão preventiva decretados serão ouvidos nos próximos dias pela Decor. Eles podem responder pelos crimes de peculato, corrupção ativa e passiva, fraude em licitação e lavagem de dinheiro, cujas penas somadas podem ultrapassar 30 anos de reclusão. O Ministério Público do DF também estuda a possibilidade de oferecer denúncia à Justiça ainda neste semestre, com base nas provas já coletadas. A reportagem continuará acompanhando o desenrolar do caso e trará novas informações assim que estiverem disponíveis.



