O Ministério Público Federal intimou a Caixa Econômica Federal a prestar esclarecimentos sobre o destino das poupanças abertas por pessoas escravizadas no século XIX, em uma investigação inédita que busca resgatar valores, memória histórica e responsabilização institucional. A determinação foi feita após uma representação do movimento Quilombo Raça e Classe ao MPF, levando a Caixa a ser intimada pela primeira vez sobre o tema da escravidão.
A Caixa tem até o dia 15 de setembro de 2025 para informar quais medidas adota para organizar, catalogar e digitalizar seu acervo histórico sobre as poupanças de pessoas escravizadas. A reunião entre representantes da Caixa, do movimento social e da historiadora Keila Grinberg discutiu a retenção dos valores após a Abolição e a responsabilidade do Estado e das instituições financeiras no sistema escravista.
O procurador da República Julio José Araújo Junior, responsável pelo inquérito, aponta que a investigação visa esclarecer não apenas o destino dos recursos, mas também preservar a memória histórica do processo. A historiadora Keila Grinberg destaca a importância de identificar o destino das poupanças de pessoas escravizadas, que buscavam financiar a compra da própria liberdade ou de familiares no período da escravidão no Brasil.
A Caixa reconhece a existência de um vasto acervo de documentos sobre as poupanças de escravizados, mas alega que a catalogação completa pode levar mais de 20 anos. O MPF deu prazo de 30 dias para que o banco informe oficialmente quais providências estão sendo tomadas. A apuração tem um caráter reparatório, visando a prevenção de novas violações e a responsabilização institucional.
Em nota, a Caixa afirmou que permitia a abertura de poupanças para compra de alforria antes mesmo da Lei do Ventre Livre, em 1871. A instituição destaca seu papel nas transformações sociais do país e a preservação das cadernetas de poupança, disponíveis para pesquisa. A documentação do Acervo Caixa ainda não identificou alguma conta de escravizado sacada pelo seu senhor após a abolição, mas há registros de movimentações pós-abolição em algumas contas, como a de Ismael em 1889.