Um gesto de esperança. Em Muçum (RS) — Uma moradora do município doou um terreno para que a cidade volte a ter um cemitério, após a destruição completa causada pela enchente histórica que atingiu o Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024. Passados pouco mais de dois anos da tragédia, a reconstrução começa a sair do papel, marcando um novo capítulo para centenas de famílias que perderam seus espaços de memória e descanso dos entes queridos.
As águas violentas do Rio Taquari devastaram não apenas casas e ruas, mas também lugares simbólicos da comunidade, como o antigo cemitério municipal. Segundo dados do Mapa Único do Plano Rio Grande (MUP), cerca de 66,3% da população de Muçum foi diretamente afetada, tornando a cidade o segundo município mais atingido do estado. Desde então, moradores passaram a buscar sepultamento para familiares em municípios vizinhos, enfrentando deslocamentos dolorosos e a ausência de um local para homenagear seus antepassados.
Agora, graças à doação feita pela aposentada Lorena Maria Zanetti, a cidade pode finalmente planejar a construção de um novo cemitério. “Eu tô muito feliz por ter doado aqui, feliz mesmo. Doei de coração. Se fosse hoje, eu doaria de novo”, declarou Lorena à reportagem local. A área fica em ponto estratégico da cidade, com pouca chance de ser novamente afetada por enchentes, além de já ter licença ambiental, o que era um dos grandes entraves para a reconstrução.
Por que a criação de um novo cemitério em Muçum (RS) foi tão desafiadora?
De acordo com a secretaria de Planejamento de Muçum, o principal desafio encontrado no processo foi a localização de um terreno seguro e regularizado para que o município pudesse erguer o novo espaço definitivo. Vários locais foram avaliados, mas todos apresentavam riscos ambientais ou problemas de documentação. O temor de uma nova enchente assombrava a tomada de decisão, dificultando ainda mais a escolha do endereço definitivo.
Além da segurança física, a questão documental era delicada. Conforme esclareceu o secretário Wagner Capitânio, para garantir o respeito às memórias familiares e evitar futuros litígios, foi fundamental realizar um minucioso levantamento das condições do antigo cemitério. O trabalho incluiu o contato direto com familiares das vítimas da tragédia, para o reconhecimento de túmulos, capelas e gavetas. Tanto a prefeitura, quanto os moradores e autoridades locais, ressaltam que a destruição do cemitério teve repercussão nacional e exigiu um esforço coletivo incomum para uma cidade de pouco mais de 5.000 habitantes.
O antigo terreno do cemitério, segundo divulgado, deverá se transformar em parque municipal. Lá, permanecerão alguns túmulos históricos, preservando parte da história centenária do município, mesmo após terem sobrevivido à força avassaladora das águas.
Como os moradores de Muçum (RS) lidaram com a ausência de um cemitério?
Desde que o cemitério foi destruído pelas cheias de 2024, os moradores de Muçum enfrentam uma realidade dura: peregrinar para outras cidades a fim de sepultar entes queridos. Essa situação, nunca antes vivida na região, trouxe sofrimento para famílias inteiras, já fragilizadas pelas perdas materiais e humanas impostas pela enchente. Muitos relatam a dor de não poder visitar os túmulos de familiares no próprio município, um hábito tradicional em cidades do interior do RS.
Conforme apurado pela secretaria municipal de Assistência Social, além da distância física, houve também um impacto psicológico relevante. O coveiro Alcides Liberato Pereira descreveu o cenário logo após a tragédia como algo saído de um filme de terror. “A gente foi juntando o que deu, quem a gente sabia quem era, a gente comunicou os familiares”, relembrou. Os corpos que não puderam ser identificados foram então reunidos em um ossário improvisado, agora destinado ao novo espaço a ser inaugurado.
Na cidade, familiares e lideranças locais destacam como o trauma coletivo se fortaleceu diante da ausência de um espaço de luto. Em cidades vizinhas como Roca Sales e Encantado, também atingidas pelas cheias, apenas Muçum viu o cemitério ser completamente arrasado — o que agravou sua situação no contexto regional, evidenciando o quanto a reconstrução é esperada pela população local.
Qual o próximo passo para a reconstrução do cemitério de Muçum (RS)?
Segundo a prefeitura municipal, a prioridade nesta etapa é a rápida identificação de todas as sepulturas danificadas, um processo que exige envolvimento direto de familiares e o suporte de arquivos históricos do município. “Nós vamos ter que fazer o levantamento de como era para identificar todas as capelas, todas as gavetas, chamar a população para identificar todos”, enfatizou Wagner Capitânio. A previsão inicial é que essa fase seja concluída ainda no próximo semestre, para que as obras possam começar até o fim do ano.
A expectativa é que o novo cemitério se torne referência em segurança e infraestrutura para cidades do Vale do Taquari, oferecendo tecnologia que previna danos em caso de novos eventos climáticos extremos. Ao longo da reconstrução, a prefeitura ressalta que está aberta a sugestões da comunidade e que pretende manter diálogo transparente com todos os afetados.
Para a redação do Diário do Estado, este caso evidencia o impacto das mudanças climáticas na vulnerabilidade de cidades pequenas do interior gaúcho e a importância da solidariedade para a reconstrução após tragédias ambientais. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Regional, o Rio Grande do Sul enfrenta se tornou referência nacional em políticas de resposta a desastres naturais, justamente pelo alto índice de ocorrências registradas nas últimas décadas.
Como a tragédia de Muçum (RS) pode servir de lição a outras cidades?
A equipe de jornalismo do Diário do Estado apurou que, no interior do estado, a maioria dos cemitérios municipais está em áreas suscetíveis a enchentes. No caso de Muçum, especialistas consultados pela reportagem ressaltam que a destruição total de um cemitério é considerada rara, mesmo em regiões expostas a fenômenos hídricos intensos, mostrando que a tragédia ultrapassou todas as previsões.
Para o setor de defesa civil estadual, a perda do cemitério de Muçum provocou debates sobre a necessidade urgente de revisões de planos diretores urbanos e de protocolos de zoneamento, já que além da infraestrutura básica, elementos simbólicos e identitários das cidades também estão sob risco crescente. Cidades vizinhas como Lajeado e Estrela passaram a revisar seus próprios planos após os acontecimentos de 2024, implementando obras e adaptações inspiradas pelo drama vivido em Muçum.
Além do parque previsto para ocupar o antigo cemitério, também há projetos de educação patrimonial e preservação de memória para valorizar a resistência dos túmulos históricos que sobreviveram à força da natureza. Segundo o portal da transparência do estado do RS, até R$ 850 mil já foram destinados ao apoio de municípios atingidos, sinalizando o reconhecimento oficial da gravidade e singularidade do episódio.
Na avaliação do especialista em urbanismo consultado pela nossa redação, o legado da reconstrução em Muçum vai além dos muros do cemitério: “É a chance de revermos o planejamento urbano para proteger, de fato, vidas e simbolismos tão importantes para as comunidades”, afirmou.
A equipe do Diário do Estado esteve em contato com moradores, familiares e autoridades de Muçum durante toda a apuração da reportagem, acompanhando as novas fases dessa reconstrução que recupera não só um espaço físico, mas também a dignidade e a história de uma cidade que segue lutando para se reerguer após uma das maiores tragédias climáticas do Rio Grande do Sul.



