FLORIANÓPOLIS (SC) — A cidade de São Joaquim, na serra catarinense, testemunhou em 20 de julho de 1957 uma das maiores nevascas já registradas no Brasil, com acúmulo superior a 1,30 metro de neve. O fenômeno, que durou cerca de sete horas ininterruptas, isolou completamente o município por uma semana, exigindo a intervenção da Força Aérea Brasileira para lançar alimentos à população.
Maria de Lurdes Hugen de Souza, hoje com 82 anos, tinha apenas 14 na época e lembra com nitidez daquela manhã. “Era um espetáculo abrir a janela e ver aquela imensidão branca”, contou em entrevista aos veículos de imprensa. Ela descreve o céu azul dando lugar ao cinza e a temperatura caindo à medida que os flocos aumentavam. “Foi uma coisa impressionante. A neve traz uma paz interior, vontade de abraçar todo mundo”, complementa.
Impacto e isolamento na serra catarinense
Com pouco mais de 10 mil habitantes na época, espalhados por vasta área rural, São Joaquim viu portas e janelas ficarem soterradas. Montanhas de gelo bloquearam estradas e o acesso ficou interrompido por sete dias. O excesso de peso da neve quebrou galhos de pinheiros — “o estrondo era apavorante”, recorda Maria. Durante esse período, a família dela precisou se aquecer no fogão a lenha e improvisar a coleta de água, já que o encanamento congelou.
A Defesa Civil catarinense explica que, embora a região seja acostumada ao frio, uma nevasca de tal magnitude exige condições muito específicas: combinação de ar polar úmido com instabilidade atmosférica. Segundo meteorologistas, eventos assim são raros no Brasil, o que torna o episódio de 1957 ainda mais notável.
Legado e fomento ao turismo de inverno
A nevasca histórica ajudou a consolidar o potencial turístico da serra catarinense. Atualmente, municípios como São Joaquim, Urubici e Lages recebem milhares de visitantes em busca do frio. Dados da Fecomércio SC indicam que, em 2025, o gasto médio por grupo de turistas atingiu R$ 3.550, o maior da série histórica iniciada em 2017. Urubici foi o destino mais procurado (53,6% das hospedagens), seguido por São Joaquim e Lages.
Professora aposentada, Maria de Lurdes agora dedica parte do tempo a preservar a memória daquele inverno. Guarda recortes de jornais, fotos e registros da nevasca que marcou sua adolescência e a história de Santa Catarina. O episódio segue como referência para estudos climáticos e para o turismo de frio que impulsiona a economia da região.


