Uma policial militar denunciou ao Ministério Público o tenente-coronel Geraldo Neto, preso por ser suspeito de matar a esposa Gisele Alves Santana com um tiro na cabeça no Brás, Centro de São Paulo, por assédio sexual e moral. A militar relatou ao órgão investidas físicas indesejadas, como uma tentativa de beijo à força, além de convites impertinentes e abuso de poder por parte do oficial. “Conhecendo o perfil desse homem e tendo sido vítima dele posso afirmar que ele é capaz de tudo”, enfatizou.
Geraldo foi preso preventivamente na última quarta-feira (18), quando se tornou réu na Justiça por feminicídio e fraude processual.
Conforme o relato da policial
que solicitou que sua identidade fosse preservada por medo de retaliação, ela trabalhou no mesmo batalhão que o tenente-coronel entre julho e novembro do ano passado. Segundo ela, Geraldo tentou beijá-la na sede da companhia, sendo impedido por ela. Além disso, o tenente-coronel fazia convites frequentes para que ela fosse até sua sala, sugerindo que poderiam fechar a porta para que ninguém soubesse que estavam ali, e insistia em encontros fora do horário de serviço para tomar café ou bebidas, sempre com segundas intenções. A policial também afirmou ao Ministério Público que, em uma ocasião, ao levá-la à Assembleia Legislativa (Alesp), o oficial ordenou que ela retirasse sua câmera pessoal e a deixasse na viatura.
Ele também fazia convites com conotação de intimidade, como chamá-la para praticar natação e insistir em idas a lanchonetes para criar um “vínculo” que ela sempre rejeitava. Para evitar os assédios frequentes, a policial solicitou a mudança para o turno noturno. Contudo, ela afirma que Geraldo, ao perceber a manobra, passou a procurá-la durante a noite e tentou oferecer “favores” para que ela ficasse devendo a ele, o que ela recusou. Poucos dias após essa recusa final, ela foi transferida involuntariamente para um batalhão distante de sua residência, o que ela descreve como um ato de vingança.
Laudos e provas de feminicídio
Segundo o Ministério Público, laudos periciais, reprodução simulada e mensagens analisadas indicam que o tenente-coronel Geraldo Neto segurou a cabeça de Gisele e atirou contra ela, descartando a hipótese de suicídio. Na sequência, ainda segundo a acusação, ele teria manipulado a cena do crime para simular que a soldado teria tirado a própria vida, o que fundamenta a imputação de fraude processual.
Gravações das câmeras corporais de policiais militares mostram a disputa de poder hierárquico entre um cabo, que queria preservar o local em que Gisele foi baleada na cabeça – e a autoridade de um oficial de alta patente, o marido dela. As imagens foram feitas no dia do crime, em 18 de fevereiro. Fotos e diálogos das imagens feitas pela câmera corporal do cabo mostram esse embate entre ele e o tenente-coronel.
Geraldo insistiu em entrar no banheiro, tomar banho e circular pelo apartamento onde Gisele estava, exatamente o tipo de conduta que acendeu o alerta dos investigadores e enfraqueceu a versão de suicídio sustentada por ele. Em conjunto, vídeos, áudios e horários oferecem à investigação mais do que uma linha do tempo: contextualizam a intenção e materializam a influência exercida na cena, do banho à limpeza e às idas e vindas ao apartamento.
Dia anterior à morte
Segundo o tenente-coronel relatou à Polícia Civil, na manhã de 17 de fevereiro ambos frequentaram a academia em horários distintos: ele foi das 8h às 9h e Gisele, das 9h às 10h. Ao retornar, por volta das 11h, a soldado se trancou na suíte, onde passou a dormir com a filha pequena, e lá permaneceu durante todo o dia. Por volta do meio-dia, ela solicitou que Geraldo buscasse uma marmita encomendada na portaria do prédio. Ele alega que pegou e entregou a refeição na porta do quarto. Ela, então, pegou a comida e alimentou-se sozinha, enquanto ele passou a tarde na sala assistindo à televisão. O policial afirma que a rotina de silêncio foi interrompida por volta das 18h30, quando Geraldo sugeriu que tomassem um café, já que ele não havia almoçado. Gisele aceitou, e os dois se sentaram no sofá da sala, onde conversaram por aproximadamente duas horas. “Nós fizemos um resumo do nosso relacionamento desde 2023. E ali a gente conversou sobre vários fatores, prós e contras, vantagens e desvantagens de continuarmos juntos”, afirmou.
Geraldo detalhou os planos para a independência financeira dela, informando que havia conseguido uma vaga na assessoria da Polícia Militar no Tribunal de Justiça. O relato aponta que o momento teria sido carregado de emoção. Geraldo afirmou que, após a conversa, os dois tiveram uma relação sexual no sofá, descrita como “fazer amor pela última vez”. “A gente sentou, conversou por duas horas. No final da conversa nós nos emocionamos muito, até nos abraçamos e choramos, com o rosto colado no outro, abraçado. Ali acabou criando um clima, porque quer queira quer não, tem uma química entre nós dois, né? Um amor, que pese a gente não estivesse mais tendo uma vida de casal, mais tinha um sentimento ali ainda”, afirmou Geraldo. Apesar da proximidade no fim da conversa, Gisele teria afirmado que preferia “pensar direitinho” e não queria “bater o martelo” sobre a separação naquele instante. Assim, ficou acordado que a decisão definitiva sobre o futuro do casal seria tomada no dia seguinte, 18 de fevereiro.




