Estrelas do cinema brasileiro, como Wagner Moura e Fernanda Torres, surgem nas telenovelas, que funcionam como principal vitrine e motor da produção audiovisual no país.
Desde pelo menos os anos 1960, as telenovelas — séries de TV latino-americanas frequentemente comparadas às soap operas norte-americanas — produzidas pela principal emissora do país, a TV Globo, evoluíram de dramas diários simples para uma indústria multimilionária, com 13 estúdios, três cidades cenográficas, 122 ilhas de edição e alcance semanal de até 60 milhões dos 213 milhões de brasileiros.
Muitos atores brasileiros associados a filmes que disputaram o Oscar — como “A Central do Brasil (1998)”, “Ainda Estou Aqui” (2024) e o indicado deste ano em quatro categorias, “O Agente Secreto” (2025) — primeiro se tornaram nomes conhecidos do grande público por meio da TV Globo. Atores como Wagner Moura e Fernanda Torres ganharam ampla visibilidade nacional através das telenovelas.
“As telenovelas da TV Globo são fundamentais para a produção audiovisual do Brasil”, disse Amauri Soares, diretor da TV Globo e do Globo Studios, descrevendo-as como “uma plataforma contínua de criação e produção de conteúdo”.
“O Agente Secreto” tem atores e profissionais que trabalharam na TV Globo, que voltarão a trabalhar na Globo, e o próprio filme tem investimento da Globo, apesar de ser independente”, afirmou Soares.
“A TV Globo exibe três telenovelas simultaneamente, do início da noite ao horário nobre. Elas são produzidas em estúdios no Rio de Janeiro e costumam ficar no ar por seis meses, de segunda a sábado, envolvendo mais de mil pessoas na produção. O capítulo final pode se transformar em um evento nacional de audiência, com bares, restaurantes e academias exibindo os episódios principais.
Wagner Moura, protagonista de “O Agente Secreto”, atuou na telenovela “A Lua Me Disse” há 21 anos. De forma semelhante, Fernanda Torres, estrela de “Ainda Estou Aqui”, que conquistou o primeiro Oscar para o Brasil na categoria de melhor filme internacional, já era uma atriz muito querida graças a duas grandes séries cômicas da TV Globo que muitos do público consideram telenovelas.
A atriz brasileira Dira Paes sorri antes de uma entrevista em um estúdio da TV Globo no Rio de Janeiro, na quinta-feira, 12 de março de 2026. — Foto: AP
Maurício Stycer, autor e crítico de cultura televisiva, diz que a desigualdade no Brasil impulsionou canais de TV aberta como a TV Globo de uma forma que reduziu o interesse geral do público pelo cinema. No fim das contas, argumenta ele, isso levou a “um ressentimento do cinema brasileiro por não ter o mesmo alcance das telenovelas”.
“Stycer acrescenta que muitos atores enfrentam um dilema quase hamletiano sempre que são convidados para uma telenovela.
“Ser popular e ter uma renda garantida todo mês ou correr riscos em uma carreira que envolve teatro e cinema? A TV sempre foi um porto seguro para a maioria dos atores”, afirmou.




