Um novo episódio de El Niño está em formação no Pacífico, e suas implicações para o Brasil podem ser profundas. Com uma probabilidade de 90% de ocorrência, o fenômeno pode causar chuvas intensas no Sul do país, enquanto o Norte e Nordeste enfrentam secas severas. As ações de monitoramento e preparação por parte de órgãos públicos estão em andamento, mas a falta de um planejamento contínuo e de investimentos estruturais levanta questões sobre a real capacidade do Brasil em enfrentar esses eventos climáticos extremos.
O histórico recente do Brasil já apresenta consequências alarmantes do aquecimento global. Em 2024, chuvas extremas resultaram em uma das piores inundações da história do Rio Grande do Sul, mostrando que as áreas vulneráveis frequentemente são as mais atingidas. Mesmo com a formação de El Niño, ainda não está claro como as comunidades se adaptarão a esse novo cenário. Monitoramento por satélites e buoys marinhos já indicam o aquecimento das águas do Pacífico, o que tradicionalmente resulta em padrões climáticos extremos.
Segundo Tércio Ambrizzi, professor de ciências atmosféricas da USP, “a tendência é que ele seja de moderado para forte”. Especialistas alertam que as projeções atuais sugerem que as primeiras consequências podem ser sentidas já na primavera, com o aumento das chuvas no Sul. Os efeitos potenciais na economia e na agricultura são amplamente discutidos nas esferas política e econômica, uma vez que o Brasil se prepara para a safra de grãos prevista em 356 milhões de toneladas, um aumento de 1,2% em relação ao ano passado.
Quais regiões do Brasil serão mais afetadas?
Sebastian Bolivar, coordenador do Cemaden, afirma que as previsões indicam que “o Norte, como a Amazônia, pode sofrer mais com secas e queimadas”. Enquanto isso, no Sul, as chuvas devem ser exacerbadas. A Defesa Civil do país está atenta às mudanças climáticas, monitorando as condições diárias e se articulando com estados e municípios para prevenir crises. No entanto, um prognóstico preciso dos danos ainda não foi estabelecido, o que representa um grande desafio para a população.
As condições climáticas influenciadas por El Niño, conforme as previsões da Organização Meteorológica Mundial, são capazes de potencializar a insegurança hídrica e agravar a produção agrícola. Para as populações em áreas vulneráveis, especialmente nas periferias, a falta de investimentos e infraestrutura adequada pode intensificar os impactos. “Precisamos aprender com os desastres passados e aprimorar nossa capacidade de resposta”, diz Thaynah Gutierrez, da Rede por Adaptação Antirracista.
Como os preparativos estão sendo conduzidos?
Ainda há incertezas sobre a intensidade do El Niño que se aproxima, mas especialistas concordam que a preparação deve ser contínua e independente da confirmação do fenômeno. “A resiliência das cidades e a adaptação das comunidades são fundamentais para enfrentar essas situações extremas”, alerta Victor Marchezini, sociólogo do Cemaden. Por sua vez, o governo de Santa Catarina já decretou estado de alerta climático até novembro, embora tenha reduzido os investimentos em prevenção de desastres, conforme informações divulgadas pela Assembleia Legislativa do estado.
A tentativa de mitigar os efeitos do El Niño e outros desastres está diretamente ligada à educação e à conscientização sobre riscos climáticos. Os governos devem priorizar a implementação de práticas eficientes para resposta a desastres, o que incluiria a preparação antecipada de recursos e logística. A responsabilidade sobre esses investimentos deve ser compartilhada entre todas as esferas do governo e da sociedade.
O que deve acontecer se a intensidade for alta?
Caso se confirme um El Niño forte, as perspectivas são preocupantes. A combinação de um ambiente já aquecido com a intensificação do fenômeno pode gerar “ondas de calor e um aumento na frequência de desastres”, segundo a OMM. As áreas mais afetadas devem ser monitoradas com atenção, uma vez que a história recente do Brasil mostra que as consequências podem ser devastadoras.
As análises e a comunicação de riscos devem ser minuciosas e precisas. A crescente quantidade de informações em redes sociais pode confundir a população. “Dúvidas sobre quais previsões são confiáveis podem gerar impactos negativos na população”, critica Gutierrez. O foco precisa ser na educação e no planejamento adequado, isolando as áreas de vulnerabilidade e assegurando que recursos adequados sejam alocados para prevenção e adaptação.



