Novo Hamburgo (RS) — Uma densa camada de espuma branca no Rio dos Sinos tem causado apreensão entre moradores do bairro Santo Afonso desde a manhã desta quarta-feira (6), levando a uma rápida atuação de equipes da prefeitura e alertando autoridades ambientais da região metropolitana. O fenômeno ocorreu nas proximidades de uma das principais casas de bombas da cidade, ameaçando a qualidade do manancial e levantando preocupações sobre possíveis impactos à saúde pública e ao meio ambiente local.

Imagens do córrego totalmente encoberto pela espuma circularam em redes sociais e grupos de moradores, acentuando o temor diante do que, segundo relatos, seria um dos episódios mais intensos registrados no município em 2024. Técnicos do Departamento de Proteção Ambiental, junto à Polícia Ambiental e a funcionários do setor de Meio Ambiente, passaram a investigar as causas dessa alteração visual incomum nas águas do rio, que corta a cidade e abastece parte da região.

Em entrevista, Jalnei de Souza, diretor de Proteção Ambiental, revelou que a espuma está possivelmente relacionada ao excesso de matéria orgânica e resíduos de detergentes domésticos despejados, agravados pela movimentação intensa proporcionada pelo sistema de bombeamento. “A turbulência das bombas potencializa o efeito. Agora, analisamos de onde de fato partiu este despejo irregular, inclusive já comunicamos a questão à prefeitura de São Leopoldo”, detalhou.

Historicamente, o Rio dos Sinos é alvo de monitoramento constante devido ao seu papel central para cidades do Vale do Sinos, abrigando milhares de habitantes e servindo de fonte hídrica para diversos usos. Ainda assim, casos de poluição visual e química, com espumas e alterações de coloração, vêm se repetindo ao longo dos anos — o que coloca em alerta tanto órgãos ambientais quanto a comunidade acadêmica da região, referência em estudos de contaminação hídrica no Rio Grande do Sul.

Quais as causas e consequências da espuma registrada em Novo Hamburgo (RS)?

Segundo nota oficial da Secretaria do Meio Ambiente, as primeiras análises técnicas confirmam a presença de tensoativos — como sabões e detergentes — em alta concentração no curso d’água. Essas substâncias, oriundas principalmente de efluentes domésticos, têm a capacidade de favorecer o processo de formação de espuma, especialmente quando submetidas a movimentos turbulentos das bombas de recalque existentes no local.

Os especialistas alertam que, apesar de não ser incomum em municípios industrializados do Rio Grande do Sul, a intensidade observada nos últimos dois dias em Novo Hamburgo superou padrões considerados toleráveis para ambientes urbanos. A situação pode afetar a biodiversidade aquática e prejudicar a oxigenação das águas, sendo considerada também prejudicial ao contato humano direto com o rio em pontos de lazer tradicionais.

Outro fator determinante, como destaca o pesquisador Jorge Thomé, do polo de monitoramento hídrico mantido pela universidade regional, é a eventual ligação da espuma a atividades industriais na vizinha São Leopoldo. “Estamos coletando amostras e cruzando dados com registros anteriores. A colaboração intermunicipal será crucial neste momento para evitar que o problema se propague”, afirma.

Por que moradores e autoridades de Novo Hamburgo (RS) estão tão preocupados com o fenômeno?

O aumento da espuma não só acentuou temores quanto à possível contaminação do Rio dos Sinos, mas reacendeu lembranças de incidentes ambientais graves ocorridos na região no passado recente. Para moradores mais antigos, a aparência leitosa do córrego trouxe lembranças do episódio ocorrido em 2016, quando houve mortandade de peixes e interdição temporária do abastecimento público.

Segundo relatos enviados à imprensa, o fenômeno despertou receios sobre riscos à saúde da população, sobretudo de quem mora próximo à faixa ribeirinha, usa poços artesianos ou consome água do sistema integrador de abastecimento da região. Pais de alunos de escolas do bairro chegaram a comunicar a direção sobre a preocupação, motivando alertas à Justiça local para eventual responsabilização de empresas envolvidas.

Na esfera administrativa, autoridades de Novo Hamburgo acionaram órgãos de monitoramento estaduais e mantiveram representantes em contato direto com técnicos de São Leopoldo para um esforço conjunto de identificação das possíveis fontes poluidoras. “O histórico de reincidência desses episódios demanda ação coordenada e firme”, declarou a prefeita Fátima Daudt em reunião extraordinária nesta quarta.

Quais providências as prefeituras do RS estão tomando para lidar com a espuma no Rio dos Sinos?

Até o fim da tarde, equipes de fiscalização da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Novo Hamburgo e de São Leopoldo realizaram vistoria completa ao longo do Arroio Gauchinho, principal afluente da região afetada. O relatório, divulgado em nota oficial, indicou ausência de anormalidades visíveis nas extensões principais do arroio, exceto pelo trecho imediatamente anterior à estação de bombeamento — justamente onde a espuma era mais densa.

A administração de São Leopoldo, em resposta ao alerta emitido por Novo Hamburgo, enviou técnicos e coletou amostras para análise laboratorial específica. Conforme apuração do DE, os resultados devem ser disponibilizados até a próxima segunda-feira. Em paralelo, o caso foi formalmente incluído em investigação por parte da Polícia Civil e poderá resultar em autuações severas, se comprovada a responsabilidade de empresas locais na emissão irregular de efluentes.

A força-tarefa intermunicipal conta ainda com acompanhamento da Fundação Estadual de Proteção Ambiental do RS (Fepam), que nos últimos anos intensificou o rastreamento de casos de poluição aguda e investe em campanhas educativas voltadas ao descarte correto de resíduos domésticos e industriais nos principais rios do estado.

Como o caso afeta moradores e a rotina dos bairros em Novo Hamburgo (RS)?

Assim que a espuma foi identificada na manhã de quarta-feira, moradores do Santo Afonso, além de bairros adjacentes como Canudos e Roselândia, relataram mau cheiro e alteração perceptível na qualidade da água do entorno. Em algumas casas próximas, famílias relataram preocupação até mesmo quanto ao uso de água em atividades domésticas simples, como lavar alimentos e dar banho em crianças, temendo possíveis resíduos tóxicos.

As escolas estaduais e municipais foram orientadas, preventivamente, a evitar atividades externas que incluíam contato com o córrego, sensibilizando pais, alunos e educadores para o risco do contato com águas contaminadas, segundo despacho emitido pela Secretaria Municipal de Educação. Comércios ribeirinhos também perceberam queda no movimento, reflexo direto da apreensão popular e das recomendações veiculadas em meios de comunicação.

Associações de bairros e representantes de conselhos comunitários reforçaram nos últimos dias pedidos históricos por fiscalização mais rígida do lançamento de efluentes na bacia do Sinos. “Enquanto não houver punição exemplar e medidas preventivas, continuaremos vulneráveis a novos episódios”, pontuou Mário Duarte, presidente da Associação dos Moradores do Santo Afonso, contato direto entre a comunidade e as equipes da prefeitura.

O que dizem autoridades e especialistas sobre a poluição hídrica em Novo Hamburgo (RS)?

Para especialistas consultados pelo DE, a reincidência de episódios de poluição visual e química no Rio dos Sinos é agravada pelo rápido crescimento urbano e pela insuficiência de sistemas de tratamento de esgoto, tanto em Novo Hamburgo quanto em cidades vizinhas. De acordo com o engenheiro ambiental Paulo Tedesco, o fenômeno da espuma é um alerta importante, pois indica não só falhas no tratamento, mas também desatenção dos moradores quanto ao descarte adequado de resíduos de limpeza.

O Ministério Público Estadual já vinha recomendando, desde o início do ano, maior rigor no monitoramento de resíduos despejados na bacia do Sinos, após denúncias de reincidência do problema também em municípios como Esteio e Sapiranga. O órgão avalia atualmente a aplicação de multas e outras penalidades a empresas e residências que insistem no despejo irregular de detergentes, óleos e outros poluentes, à luz da legislação ambiental vigente no Rio Grande do Sul.

Com os dados coletados nesta semana, a expectativa é que as administrações municipais, em parceria com entidades ambientais estaduais, publiquem nas próximas semanas um plano emergencial para ampliação do monitoramento e endurecimento das regras para estabelecimentos que realizem descarte fora dos padrões.

Enquanto isso, os moradores da região do Rio dos Sinos aguardam novas informações e cobranças de medidas efetivas para garantir a saúde da população e a preservação ambiental de um dos mananciais mais importantes para o abastecimento urbano e rural no sul do estado.