Novo Hamburgo (RS): Vereadora defensora da causa animal recebe cachorro morto em caixa

Novo Hamburgo (RS): Vereadora defensora da causa animal recebe cachorro morto em caixa

Indignação e perplexidade. Em Novo Hamburgo (RS) — A Polícia Civil concluiu nesta sexta-feira (7) uma investigação que mobilizou a opinião pública do Vale do Sinos: uma vereadora conhecida pela defesa da causa animal recebeu, na Câmara Municipal, uma caixa contendo o corpo de um cachorro morto. O caso gerou comoção regional e reacendeu o debate sobre responsabilidades do poder público diante do aumento dos casos envolvendo agressões e ameaças simbólicas contra parlamentares engajados em temas sociais no Rio Grande do Sul.

A parlamentar atingida foi Deza Guerreiro (PP), que milita há anos em defesa dos animais e políticas públicas para o bem-estar pet. Na manhã de segunda-feira (6), ela recebeu o pacote pelas mãos de um homem que chegou à sede do Legislativo municipal, causando espanto na equipe e na própria vereadora, que inicialmente pensou se tratar de um presente. Ao abrir a caixa, encontrou o corpo de um cão da raça pinscher, envolto em uma sacola plástica — fato que rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais e foi denunciado às autoridades policiais.

Além do grande impacto emocional para a representante legislativa, o episódio motivou no município um debate sobre a atuação das autoridades e o acolhimento de denúncias na temática animal, dado o histórico regional de conflitos envolvendo cães comunitários e tutores. Segundo informações disponibilizadas pela própria Câmara de Novo Hamburgo, todos os parlamentares manifestaram solidariedade à colega e a presidência acionou imediatamente a Guarda Municipal e a Polícia Civil, que recolheram o material para perícia. Este tipo de ataque, embora raro, já foi denunciado anteriormente em cidades próximas, mas, para líderes da causa animal locais, nunca de maneira tão explícita e perturbadora.

Qual a motivação para o envio do cachorro morto em Novo Hamburgo?

Conforme detalhado pela Polícia Civil do município, as investigações revelaram que o animal morto pertencia a uma mulher residente em área próxima ao local onde o crime foi registrado. Ela teria relatado que, no sábado (4), permitiu que o pinscher realizasse seu passeio ao entorno da residência — hábito diário —, momento em que ele acabou atacado por cães comunitários que rondam a vizinhança. Esse ataque, segundo o depoimento da tutora, foi inesperado e resultou em ferimentos graves no animal.

Sem condições financeiras para arcar com as despesas veterinárias necessárias ao tratamento das lesões — ela menciona que enfrentava problemas próprios de saúde e gastos recentes —, a tutora optou por ministrar apenas dipirona e tentar cuidar das feridas em casa. O cão agonizou por cerca de dois dias após o ataque, vindo a óbito na madrugada de domingo (5). Na manhã seguinte, tomada pela indignação que atribui à “omissão do poder público diante dos cães soltos”, ela enviou a carcaça ao gabinete da vereadora como forma de protesto.

O procedimento foi entendido pelas autoridades como simbólico, sem configurar ameaça direta à integridade física de Deza Guerreiro — apesar do clima de tensão e insegurança gerado na Câmara Municipal. Segundo delegados envolvidos, a motivação principal foi externar a revolta contra a administração pública, que, segundo a autora, negligencia os riscos e prejuízos causados pela presença de centenas de cães sem lar em Novo Hamburgo e arredores.

Como a justiça do Rio Grande do Sul responsabilizou a autora?

A investigação foi concluída pela 2ª Delegacia de Polícia de Novo Hamburgo e resultou no indiciamento da mulher que enviou o cachorro morto à Câmara. Ela responderá por quatro crimes: injúria real — por ofender a honra da vítima com o envio de material degradante; maus-tratos qualificados a cães e gatos, uma vez que o animal permaneceu sem atendimento veterinário mesmo após sofrer ferimentos contundentes; transporte irregular de resíduos sólidos, enquadramento relacionado ao envio da carcaça; e poluição por descarte irregular do corpo do animal.

Os autos agora seguem para o Poder Judiciário, que deverá avaliar as circunstâncias e definir as penas cabíveis. Na avaliação da Justiça estadual, crimes ambientais e maus-tratos a animais vêm recebendo atenções maiores desde a alteração da legislação federal, que, em 2020, elevou as sanções nesses tipos de ocorrências. A parlamentar Deza Guerreiro celebrou publicamente o resultado do inquérito, destacando que “nenhum tipo de crueldade pode passar impune, principalmente contra animais indefesos”.

O caso é inédito em sua forma no município, mas, segundo o portal de registros policiais, há histórico recente de episódios semelhantes envolvendo ameaças e represálias simbólicas contra vereadores do interior do RS. A repercussão ganhou força após vídeos de câmeras internas e externas da Câmara mostrarem a entrega da caixa, imagens que rapidamente viralizaram na internet local e ajudaram a polícia na identificação da responsável e do intermediário que realizou a entrega.

Por que o caso causou comoção em Novo Hamburgo e região?

O episódio escancarou a pressão vivida pelos parlamentares regionais que empenham esforços em pautas sensíveis, como a causa animal e a promoção de políticas públicas para controle da população de cães e gatos. Em cidades de porte médio do Rio Grande do Sul, o poder público já relatou aumento nos casos de abandono e atiçamento de polarizações entre vizinhos por causa de cães comunitários, situação comum em bairros periféricos.

Além disso, o episódio de Novo Hamburgo reacendeu debates sobre responsabilidades institucionais. “É preciso que a sociedade tenha mais empatia — e que os gestores se comprometam, de fato, com o enfrentamento dos maus-tratos e da superpopulação animal”, declarou o presidente do Legislativo, Juliano Souto (PL), durante nota oficial de repúdio ao ocorrido. O Legislativo reforçou medidas de segurança, alterando protocolos de entrada na Câmara e colaborando com a investigação policial.

Para a redação do Diário do Estado, este caso evidencia um preocupante cenário de intolerância crescente contra agentes políticos e também contra a proteção animal, tema cada vez mais urgente em cidades médias do estado. Conforme levantamento do Conselho Regional de Medicina Veterinária, o município de Novo Hamburgo registrou, nos últimos dois anos, pelo menos 12 denúncias de maus-tratos e abandono a cada mês, número considerado elevado para uma população de pouco mais de 240 mil habitantes.

O que dizem os envolvidos e quais os próximos passos em Novo Hamburgo?

Em pronunciamento durante sessão na Câmara Municipal, Deza Guerreiro afirmou: “Agradeço profundamente pela série de investigações. Esse é apenas o primeiro passo para que crimes como esse não fiquem impunes. Uma pessoa que deixa um animal agonizando por dois dias deve ser responsabilizada”. A parlamentar ainda chamou atenção para a necessidade de incentivos a campanhas de adoção e fortalecimento da rede de proteção animal, enfatizando que permanecerá vigilante com relação a outras possíveis formas de intimidação a parlamentares do setor.

O presidente da Câmara garantiu que todas as imagens dos sistemas de videomonitoramento foram entregues à Polícia Civil e reiterou que qualquer tentativa de constrangimento, ameaça ou violência será tratada como intolerável pela instituição. Moradores do entorno da Câmara relataram surpresa e preocupação com a escalada de episódios envolvendo conflitos por conta de cães soltos, muitos deles vizinhos próximos ao local da entrega do animal morto. “Aqui havia já boatos de brigas entre vizinhos por causa de latidos e ataques. Mas nada tão grave assim”, contou à nossa reportagem uma comerciante da Rua General Osório.

A equipe de jornalismo do Diário do Estado apurou que, embora a autora do envio do cachorro não tenha sido presa, poderá responder judicialmente e ser condenada a detenção, multa ou serviços à comunidade, conforme decisão do Juizado Especial Criminal de Novo Hamburgo. Segundo o especialista em direito ambiental consultado pela nossa redação, o caso poderá servir de parâmetro para futuras decisões judiciais, visto o ineditismo da denúncia combinada de maus-tratos, injúria e crime ambiental praticados juntos.

A equipe do Diário do Estado está em Novo Hamburgo acompanhando de perto os desdobramentos do caso. Conversamos com parlamentares, integrantes de ONGs animalistas e moradores da região central, que expressaram sentimentos de medo, solidariedade e cobrança por maior atenção e políticas efetivas em relação à causa animal. Seguiremos atualizando as informações assim que houver avanços na tramitação judicial ou novas movimentações da Polícia Civil local.

MAIS LIDAS
TRF6 condena Samarco e gerentes por rompimento de barragem em
O Vasco está prestes a contratar Alan Lescano do Argentinos
TRE-MG nega registro de candidatura de Eduardo Cunha para deputado