Em 2018, um atentado violento expôs literalmente as vísceras de Jair Bolsonaro (PL). As consequências médicas daquele episódio ainda hoje marcam seu quadro clínico. O que acontece quando política, direito e medicina se encontram no mesmo caso?
No plano médico, a situação do ex-presidente parte de um fato incontestável: as sequelas da tentativa de homicídio sofrida durante a campanha eleitoral. O trauma abdominal provocado pela facada desferida por Adélio Bispo inaugurou um longo percurso de intervenções cirúrgicas e complicações clínicas que ainda exigem acompanhamento médico permanente.
A medicina conhece bem esse tipo de evolução clínica. Pacientes submetidos a múltiplas cirurgias abdominais apresentam elevada incidência de aderências intra-abdominais, formações de tecido cicatricial que podem unir estruturas anatômicas normalmente separadas e provocar dor crônica, distúrbios digestivos e episódios recorrentes de obstrução intestinal. A literatura cirúrgica é consistente a esse respeito.
Estudo clássico conduzido por Ellis, Moran, Thompson, Parker e colaboradores, publicado na revista The Lancet, demonstrou que complicações relacionadas a aderências podem persistir por muitos anos após cirurgias abdominais e respondem por parcela significativa das readmissões hospitalares. Revisões da literatura cirúrgica conduzidas por H. Ellis mostram ainda que aderências pós-operatórias são extremamente frequentes em pacientes com cirurgia abdominal prévia, podendo ocorrer em mais de 90% dos casos.
Nos últimos anos, outro elemento clínico passou a integrar esse quadro: episódios de soluços persistentes e refratários ao tratamento convencional. Embora frequentemente banalizado, o soluço pode representar um distúrbio fisiológico complexo envolvendo o arco reflexo do diafragma e o nervo frênico.
A história da medicina registra casos notórios dessa condição. O agricultor norte-americano Charles Osborne apresentou soluços quase contínuos por décadas. Também o Papa Pio XII sofreu crises prolongadas associadas ao agravamento de seu estado clínico. Revisão sistemática publicada por Steger, Schneemann e Fox demonstra que soluços persistentes podem provocar distúrbios do sono, fadiga e complicações respiratórias.
No caso de Bolsonaro, episódios mais intensos chegaram a exigir bloqueio anestésico do nervo frênico. Contrações repetidas do diafragma podem elevar a pressão intra-abdominal, agravar refluxo gastroesofágico e favorecer broncoaspiração, sobretudo durante o sono.
Distúrbios respiratórios do sono também são relevantes nesse contexto. Estudo de Gami, Howard, Olson e Somers, publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que indivíduos com apneia obstrutiva do sono apresentam maior risco de morte súbitacardíaca durante a madrugada.
Além dos fatores fisiológicos, o impacto do estresse intenso sobre a saúde cardiovascular é bem documentado. Evidências apresentadas por Steptoe e Kivimäki, na revista Nature Reviews Cardiology, mostram que o estresse crônico aumenta o risco de eventos cardiovasculares por mecanismos neuroendócrinos e inflamatórios. A recente internação de Bolsonaro, com quadro grave de broncopneumonia, reforça a necessidade de reavaliação das condições em que ele cumpre a pena que lhe foi imposta.
Mas a história não se limita ao campo médico.
Anos depois do atentado, a cena pública brasileira parece expor outro tipo de vísceras — não as do corpo humano, mas as das próprias instituições. Bolsonaro tornou-se alvo de sucessivas acusações e investigações políticas. Durante a pandemia foi acusado de genocídio; depois vieram episódios como o caso das joias sauditas, a controvérsia envolvendo uma baleia e, mais recentemente, a narrativa de um suposto atentado contra o Estado Democrático de Direito.
Paralelamente, o episódio envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro expôs novas tensões no ambiente institucional brasileiro. O caso ampliou o escrutínio público sobre decisões e autoridades no centro dessas disputas.
Esse conjunto de episódios cria um contraste simbólico poderoso. Enquanto a medicina descreve as cicatrizes deixadas por um atentado físico real, o debate político passou a produzir uma sequência quase contínua de confrontos institucionais que recaem sobre o mesmo personagem.
A coincidência lembra o dilema moral do clássico Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. No romance, o crime desencadeia uma cadeia de consequências que envolve julgamento institucional e peso moral. No caso brasileiro, porém, a narrativa assume contornos paradoxais.
O crime ocorreu. Foi real. Houve um agressor. Houve uma vítima.
A medicina ensina que o organismo guarda memória dos traumas. Cicatrizes internas e alterações funcionais podem permanecer silenciosas por anos e reaparecer em momentos de estresse.
Assim, voltamos à pergunta inicial: o que acontece quando política, direito e medicina se encontram no mesmo caso?
A resposta revela um paradoxo incômodo. O crime que feriu o corpo ocorreu em 2018. Mas, desde então, o que se observa é uma sucessão de conflitos políticos e institucionais que continuam a atingir a mesma pessoa.
Como se a violência que abriu suas vísceras naquele dia não tivesse sido suficiente — e novas facadas, agora simbólicas e institucionais, ainda insistissem em ser desferidas.




