Uma operação realizada pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) resultou na prisão de dez advogados envolvidos em um esquema que atuava como mensageiros de facções criminosas a partir do Presídio Estadual de Segurança Máxima de Serrinha, localizado a 180 quilômetros de Salvador. Esses profissionais, segundo as investigações, utilizavam o parlatório do presídio não apenas para atender seus clientes mas também para transmitir ordens de chefes do tráfico que deveriam estar isolados. Eles escondiam bilhetes com instruções por baixo de suas roupas íntimas para evitar a fiscalização e garantir a continuidade das atividades criminosas. Esse caso revela como a atuação de advogados pode impactar a segurança pública e a organização criminosa com informações privilegiadas.
A investigação, que ocorre entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, foi respaldada por gravações de câmeras instaladas com autorização judicial no parlatório. As filmagens mostram os advogados recebendo e passando instruções sobre a contabilidade do tráfico de drogas, compra e venda de armamentos, além de planejamento de homicídios e sequestros. “Estamos tratando de indivíduos que se utilizam de uma prerrogativa da advocacia para cometer crimes”, afirmou Luiz Ferreira de Freitas Neto, coordenador do Gaeco do MP-BA. Este contexto reforça a necessidade urgente de monitoramento e controle mais rigoroso dentro dos presídios brasileiros, especialmente na comunicação entre detentos e o mundo externo.
A atuação dos advogados como elo entre facções e o exterior também foi evidenciada por relatos de professores e psicólogos que presenciaram mudanças comportamentais de seus alunos, filhos de criminosos que mantinham forte conexão com o tráfico, revelando um padrão de violência e tráfico de informações. O impacto disso se reflete na sociedade, que enfrenta uma onda crescente de criminalidade. A operação, que se estendeu a seis municípios baianos, evidencia a complexidade da criminalidade e a maneira como advogados podem ser cooptados para facilitar operações da organização criminosa dentro e fora das prisões.
Como funcionava o esquema criminoso?
Conforme os registros, cada um dos advogados atuava num papel crucial no planejamento e na execução das estratégias de facções. Ícaro Cardoso Viana, por exemplo, foi filmado recebendo instruções sobre a entrega de armas. Já Fernanda Oliveira Borges foi capturada retirando documentos de dentro de suas vestes, enquanto Maria Mariana Batista de Oliveira manteve comunicação frequente com uma liderança do Comando Vermelho. As informações, inclusive, eram usadas para gerenciar finanças, com a contabilidade das quadrilhas detalhando o uso de cheques bancários em suas operações ilícitas. Essa estrutura mostra como a atuação dos advogados estava profundamente inserida nas atividades criminosas.
A investigação aponta que essas ações geraram um ciclo de violência, economizando tempo e dinheiro para as facções, permitindo não só o planejamento de vendas de drogas, mas também de homicídios. Este fator torna a investigação do MP-BA um marco na luta contra o crime organizado, apontando a insegurança gerada esses contatos diretos. O uso de profissionais da advocacia para facilitar atividades ilegais projeta um cenário de urgente necessidade de reavaliação das práticas judiciais.
Os efeitos imediatos dessa operação foram sentidos não só nas estruturas das facções que tiveram seus comunicadores desarticulados, mas também nas relações sociais e familiares de indivíduos que se viram expostos ao sistema. Um mapeamento completo mostrando o impacto desse tipo de comunicação entre presos e advogados pode contribuir para políticas de segurança mais eficazes no futuro.
Qual é a reação das autoridades e da OAB?
A resposta do sistema judiciário foi rápida. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) na Bahia assegurou que encaminhará a documentação referente aos advogados envolvidos para o Tribunal de Ética e Disciplina, propondo a suspensão destes profissionais. O procurador-geral de Justiça do MP-BA, Pedro Maia Souza Marques, destacou que não é aceitável que lideranças criminosas tenham contato livre com o mundo exterior durante sua detenção. Sua declaração reflete um movimento crescente por mudanças na legislação dos presídios, semelhante ao que já ocorre a nível federal, onde a vigilância audiovisual se tornou obrigatória desde 2019.
A repercussão negativa da operação não se restringe apenas aos advogados, mas também ultrapassa as fronteiras do campo jurídico, envolvendo a sociedade na discussão sobre a ética e a moralidade da profissão. A abordagem severa para coibir esse tipo de atividade torna-se necessária para preservar a integridade do sistema judiciário.
Analisando as declarações, a OAB e o MP-BA parecem unidos na busca de resistir a individualismos que possam comprometer o progresso no combate à criminalidade. Este episódio gera questionamentos sobre as normas atuais e a eficácia do próprio sistema de justiça para barrar versões corrompidas da advocacia.
Quais os próximos passos da investigação?
Os próximos passos são críticos para o andamento da investigação, onde o desmantelamento deste esquema não se trata apenas de punir os envolvidos, mas também de rever a política de funcionamento dos parlatórios nos presídios. Isso inclui a imposição de medidas mais rigorosas, conforme sugerido pelo MP-BA. O radicalismo dos criminosos, evidenciado nas conversas gravadas, exige uma resposta proporcional por parte dos órgãos de segurança.
Além disso, os especialistas em segurança pública e direito penal sugerem que a reforma precisa ser ampla e englobar não apenas a função dos advogados, mas também dos funcionários do sistema penitenciário, a fim de evitar a infiltração de práticas criminosas. Estabelecer um sistema de notificações e vigilância em tempo real pode ser uma opção viável, tal como resultado de uma parceria entre a Polícia Civil e o Ministério Público, para garantir a segurança.
O cenário será monitorado de perto e pode gerar novas regulamentações que assegurem um desempenho mais seguro nas interações entre advogados e seus clientes detidos. ? A necessidade de reformas práticas no sistema prisional — para que trabalhem a favor da reintegração social e a proteção da sociedade — torna-se vital para prevenir que novos casos como este sejam vistos no futuro.





