Vilões do bolso: Básico vai pesar no orçamento familiar e negociar é o papel do consumidor para saúde econômica

Por Mario Marques
Economista, professor de economia da SKEMA, e mestre em administração.

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Não é só a Covid-19 que vem ameaçando a saúde dos brasileiros. Além do isolamento, as famílias estão desafias esticar o salário para pagar as contas. Mas não basta ficar longe de supérfluos. O desafio para este segundo semestre será manter o básico. Gás, energia elétrica, alimentação, aluguel aumentaram muito. E o isolamento não será social, será de renda. Quer ver por que as contas do mês não fecham? A Carne de boi já aumentou 43 % no acumulado dos últimos 12 meses sendo 14% só em 2021 e deve seguir em alta nesse período de seca.

Um quilo de carne de segunda custa dois dias inteiros de trabalho de um assalariado. Se quiser comprar um pacote de arroz, precisará destinar 1/3 de seu dia útil para pagar os 5 quilos do grão. Difícil. Estamos até apressados para essa crise passar, mas não dá para comer cru. Então, serão necessários mais dois dias de trabalho para comprar gás de cozinha que já aumentou 13,75% em 2021 de reajuste e deve seguir em alta. Tudo isso fica em uma cozinha, dentro de uma casa. Que se for alugada, complica mais. Custo com habitação subiu 15,08% em 2021 e acumula alta de 35,75% nos últimos 12 meses. É precisamos de uma luz para resolver toda essa situação. O problema é que a energia elétrica anda pela hora da morte e já aumentou 7% em 2021 e com a bandeira vermelha o aumento pode chegar a 20%.

Apesar de parecer inexplicável, os aumentos seguem uma lógica. Atualmente eles são causados pelo subida constante do preço das commodities – produtos não são diferenciados de acordo com quem os produziu ou de sua origem, sendo seu preço uniformemente determinado pela oferta e procura internacional como a atividade agropecuária, a exploração de petróleo, entre outros – pela retomada da economia depois da fase aguda da pandemia, pela queda do poder de compra do dólar no mercado internacional que regula preços de alguns produtos, e, mais recentemente, pela nova crise hídrica.

Isso tudo influencia o preço de quase todos os produtos e, por isso, o Índice de Preços ao Consumidor, IPCA acumulado nos últimos 12 meses em julho teve a maior alta desde 2018, chegando na casa dos 8,35%, embora a inflação de junho tenha sido menor do que a de maio.

A tendência é a inflação diminuir. Não comemore ainda. Isso não significa diminuição de preços e sim uma redução na velocidade com que são ajustados. A tendencia é de manutenção da alta destes produtos básicos até o final do ano. Portanto, não é hora de gastar sem necessidade. E as despesas fixas devem ser negociadas, reduzidas ou até eliminadas. É fundamental para a saúde econômica de todos que o consumidor conheça seu poder e exerça o direito de negociar.

Isso pressiona a queda dos preços e é de extremo valor social. Quem deve ditar parte das regras do mercado é que paga por ele. Ou, seja: quem compra os produtos. Eu mesmo negociei meu plano de internet e consegui um desconto de 20%.

Negociar não é hora para se envergonhar. Ao contrário. Demonstra conhecimento dos direitos. Vivemos em uma economia de livre comércio e é legítimo o direito à negociação. Não sabe por onde partir?

Organize-se:

– Carne de boi – reduza ou substitua a carne de boi por frango, porco e até ovos.- Gás de cozinha ou forno elétrico/Micro-ondas   – O gás ainda é mais econômico do que os aparelhos elétricos.
– Desligue os aparelhos da tomada pois o standby pode elevar em X% a conta de luz.
– Habitação – tente renegociar os preços dos aluguéis
– Vestuário – evite ao máximo as compras por impulso, deixe o cartão de crédito em casa e saia apenas com o cartão de débito ou o dinheiro que irá no dia. Se no dia seguinte ainda estiver com a necessidade de comprar a peça aí sim o faça.

 Transporte

Antes de sair de carro ou ônibus, orce o preço dos apps de transporte. Eles costumam ser mais baratos do que utilizar o próprio carro e pagar por combustível e estacionamento, sendo mais seguros em relação a transmissão de vírus que os coletivos, pois têm menos pessoas que o ônibus.

Educação financeira

– Liste todos os gastos e elimine o que não for necessário.
– Monitore periodicamente em que gasta, especialmente gastos pequenos que muitas vezes não são computados, podendo se tornarem os inimigos do seu orçamento.
– Antes de comprar, diferencie desejo de necessidade.
– Ao comprar, busque marcas alternativas que ofereçam qualidade a menor preço

Denuncie abusos

Embora no Brasil exista o livre mercado, segundo a Procon, este aumento não pode acontecer de forma tão desproporcional. O artigo 39 do Código de Defesa do Consumidor (CDC) prevê que é vedado ao fornecedor de produtos ou serviços elevar sem justa causa os valores cobrados. E todo e qualquer consumidor que encontrar produtos vendidos por preços acima da média ou considerados abusivos pode denunciar a situação junto ao Instituto de Defesa do Consumidor (PROCON) do seu estado (deve usar o serviço online).

Para que o Procon do seu estado possa atuar nestes casos de preços abusivos é necessário informar o nome do estabelecimento e o endereço. Também é importante que o consumidor possua a nota fiscal ou foto da oferta superfaturada sendo útil o envio da mesma por e-mail.

Segundo o art. 3º, VI, da Lei n. 1.521/51º, provocar a alta ou baixa de preços de mercadorias, títulos públicos, valores ou salários por meio de notícias falsas, operações fictícias ou qualquer outro artifício pode levar a uma pena de detenção, de 2 (dois) anos a 10 (dez) anos, e multa.