O assassinato de um pai de santo durante um ritual religioso em Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia, chocou a população local e levantou discussões urgentes sobre segurança e intolerância religiosa. O crime ocorreu na noite de segunda-feira (13), quando dois homens armados invadiram o terreiro no bairro Cruzeiro e tiraram a vida de Josiel Oliveira Bomfim, de 29 anos, uma das lideranças mais respeitadas da comunidade de matriz africana da região.
De acordo com informações apuradas pelo DE, Josiel Bomfim foi surpreendido pouco depois das 19h, enquanto conduzia um ritual na casa de quimbanda “Passagem de Exu”, que liderava há cerca de seis anos. Segundo relatos de testemunhas, além de cometerem o homicídio, os criminosos levaram celulares e aparelhos que armazenavam imagens das câmeras de segurança do terreiro, dificultando o trabalho das autoridades locais.
A Polícia Civil já iniciou as investigações para identificar os autores e a motivação do crime, mas até o momento nenhuma hipótese foi descartada. Josiel deixa esposa, um filho de 4 anos e uma comunidade que hoje sofre com a inestimável perda do pai de santo, conhecido por sua postura acolhedora e liderança religiosa. A repercussão do caso chegou rapidamente a entidades civis e religiosas, tornando-se símbolo do combate à intolerância dentro e fora da cidade.
Detalhes do crime e ação policial
Segundo a Delegacia Territorial local, os bandidos chegaram ao endereço da Rua Calércio Santos Sandes portando uma faca e uma arma de fogo, o que causou desespero entre os presentes. Durante a invasão, algumas pessoas que estavam reunidas para o ritual também foram amarradas pelos criminosos, num claro sinal de planejamento da ação. Os investigadores, apoiados por câmeras de residências vizinhas, buscam pistas que possam auxiliar na identificação da dupla.
O corpo de Josiel foi encaminhado ao Departamento de Polícia Técnica (DPT) de Vitória da Conquista na manhã desta terça-feira (14) e liberado para a família poucas horas depois. O velório e o sepultamento, marcados para a tarde, tiveram o local mantido em sigilo, medida tomada por razões de segurança diante do clima de comoção. O caso é tratado com prioridade máxima pela 1ª Delegacia, que acompanha de perto o andamento das oitivas das testemunhas e análises das imagens coletadas.
De acordo com informações da TV Sudoeste, filial da Rede Bahia, os criminosos estavam atentos ao movimento do terreiro naquela noite, escolhendo um momento de maior movimentação para cometer o crime. Filhos de santo que estavam presentes relataram momentos de pânico e disseram que nunca haviam testemunhado algo semelhante na história do templo, funcionando há três anos no bairro Cruzeiro. O temor por novos ataques cresce entre os frequentadores das religiões de matriz africana na cidade.
Repercussão e debate sobre intolerância religiosa
A morte violenta de Josiel Bomfim dentro de um templo religioso acendeu alertas em entidades de proteção aos direitos humanos e religiões de matriz africana em toda a Bahia. A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – Seção de Vitória da Conquista – emitiu nota de pesar e repúdio, destacando a gravidade de um crime cometido em um local considerado sagrado e cobrando investigação célere e transparente.
No comunicado, a OAB destacou que a morte do líder religioso representa não apenas uma grande perda para sua comunidade, mas também um ataque ao sentimento de respeito à diversidade e à pluralidade cultural que marca a Bahia. “Não podemos aceitar que crimes dessa natureza fiquem impunes; é preciso que os autores sejam identificados e que a justiça seja aplicada com o rigor necessário para honrar a memória de Josiel e trazer um mínimo de alento aos que ficaram”, afirmou o órgão em nota divulgada nesta terça-feira.
O caso repercutiu nas redes sociais e motivou manifestações de grupos ligados à cultura afro-brasileira, que historicamente sofrem com a intolerância religiosa no estado. A cidade de Vitória da Conquista possui intensa atividade religiosa de matriz africana, assim como outras grandes cidades do interior do estado, como Feira de Santana e Salvador, onde também são registrados casos de violência e discriminação contra terreiros.
Memória do líder religioso e desafios do combate à violência
Além de sua atuação como pai de santo, Josiel Bomfim já havia sido pastor antes de abraçar a religiosidade afro-brasileira, demonstrando respeito por diferentes tradições e diálogo entre crenças. A casa de quimbanda “Passagem de Exu”, por ele fundada, aproximou centenas de pessoas das raízes culturais e espirituais, transformando-se em referência de acolhimento para moradores do bairro Cruzeiro. Relatos de amigos, familiares e seguidores destacam o compromisso social do líder brutalmente assassinado.
Os próximos dias devem ser marcados por manifestações e atos em defesa da liberdade religiosa na região. Organizações ligadas ao movimento negro e à cultura de matriz africana planejam vigílias e caminhadas pedindo justiça por Josiel Bomfim e o fim dos ataques a terreiros em toda a Bahia. “A dor da comunidade é imensurável, mas a luta por justiça e respeito à nossa tradição será ainda mais forte”, relatou uma das lideranças locais em entrevista ao DE.
O que esperar para os próximos dias? Especialistas apontam que o caso pode fortalecer campanhas de denúncia e proteção aos espaços religiosos, que seguem historicamente vulneráveis a ataques. Segundo levantamento do Núcleo de Estudos sobre Intolerância Religiosa da Bahia, houve aumento superior a 30% nas denúncias contra agressões e violações registradas em terreiros de candomblé, umbanda e quimbanda no último ano.
Articulação política e reforço da segurança na região
Diante da comoção causada pelo assassinato do pai de santo, articulações políticas começaram a ser formadas por parlamentares estaduais e municipais de Vitória da Conquista e região. Segundo representantes, já tramitam pedidos de audiência pública e projetos de lei voltados ao fortalecimento das políticas de proteção dos terreiros, inclusive sugestões para criação de uma delegacia especializada em crimes de intolerância religiosa no interior da Bahia.
De acordo com fontes ligadas à Secretaria de Segurança Pública, a ronda nos bairros com maior concentração de templos africanos será reforçada nos próximos dias. Além do policiamento ostensivo, a Polícia Civil pretende ampliar canais de denúncia anônima aos frequentadores de terreiros, incentivando a colaboração da população nas investigações. “É fundamental reforçar o compromisso do estado no combate ao ódio religioso. Nossa prioridade é garantir a segurança e o respeito às manifestações culturais de nossa gente”, afirmou o secretário adjunto.
A expectativa é que a mobilização pressione as autoridades locais e estaduais a apresentar respostas rápidas, desde o avanço nas investigações até o acolhimento das famílias das vítimas. Na esteira dessa tragédia, lideranças de outras cidades, como Salvador e Feira de Santana, também anunciaram intensificação das medidas de proteção, ampliando o debate sobre o enfrentamento do racismo religioso em toda a Bahia.
O Ministério Público será acionado para acompanhar de perto o desenrolar dos fatos. Associações ligadas aos direitos humanos afirmam que é preciso garantir medidas protetivas urgentes e políticas públicas voltadas ao combate da intolerância. Nas redes sociais, a hashtag #JustiçaPorJosiel se tornou uma das mais citadas em postagens relacionadas ao tema durante esta quarta-feira.
Enquanto a investigação prossegue e a sociedade cobra respostas, o caso se soma a outros episódios de violência religiosa registrados recentemente no estado, como em Feira de Santana e regiões metropolitanas de Salvador. Para especialistas ouvidos pelo DE, apenas a punição dos culpados e o fortalecimento dos mecanismos de enfrentamento garantirão que tragédias como a de Josiel Bomfim não se repitam.
Por fim, a morte do pai de santo evidencia a necessidade urgente de reconstrução do pacto civilizatório em defesa do respeito e da tolerância. Autoridades e sociedade civil se unem para exigir justiça, fortalecer a segurança e preservar o direito à fé e à diversidade cultural, traço marcante da identidade baiana. A memória de Josiel Bomfim segue inspirando líderes religiosos de todo o estado na luta pela liberdade e dignidade de todos os cidadãos.



