Parentes das vítimas da Covid-19 repudiam declaração de Vanderlan Cardoso

Pessoas que perderam familiares para a Covid não concordam com o senador "é uma dor solitária, apesar de 600 mil mortes"

Conhecido por suas declarações infelizes, o senador  Vanderlan Cardoso (PSD), em entrevista a uma rádio de Goiânia, afirmou que foi uma “Perda de tempo” a investigação do Congresso Nacional por meio da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19. Para o aliado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o político não vê fundamentos para um impeachment e chama a investigação das ações e omissões do governo federal de “palco” e “vaidade”. Ignorando as mais de 23 mil mortes causadas pela pandemia em Goiás e 600 mil em todo Brasil. O Diário do Estado ouviu parentes da vítimas da Covid-19 para saber qual era opinião deles sobre as declarações do senador.

Não é a primeira vez que o goiano critica a CPI. Em maio, o senador argumentou em que as investigações possuem “motivação política” e que a crise no país “não é de uma única pessoa, mas de todos os poderes”. Ainda, no primeiro semestre deste ano, o político foi eleito como o pior senador de Goiás.

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“A CPI não é uma perda de tempo, porque a vida do meu pai não era uma perda de tempo”

Estefhanny Garcia, filha do seu João Garcia, acredita que a vida do pai poderia ser poupada se a vacinação tivesse chegado antes “meu pai pegou a Covid no início do ano, bem no começo da segunda onda, quando o país estava vacinando apenas pessoas com mais de 80 anos. O meu pai na época tinha apenas 62”, diz.

Foto de aniverário de Estefhanny. O pai, José, ela e a mãe, Maura
O pai, seu José, Estefhanny, comemorando o aniversário e a mãe, Maura Garcia / Foto: acervo pessoal.

Ela relata que o pai saia de casa apenas para ir ao mercado ou resolver algum problema de banco, mas, quando foi contaminado, todos em casa também ficaram doentes “Meu pai pegou a Covid e passou para minha mãe e para mim, nós três ficamos muito mal e tivemos todos os sintomas. Só que meu pai, por ser mais idoso e ter doenças pré-existentes, foi pior”. Ela diz que ele ficou uma semana em casa fazendo o tratamento com medicamentos mas, com a piora, precisou ser levado a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

Estefhanny diz que na semana em que o pai faleceu, o governo de Goiás havia acabado de inaugurar novos leitos de UTI para a Covid, então o pai teve a chance de ter uma vaga no hospital “meu pai foi internado na UPA em uma quarta-feira e, na quinta, ele já foi transferido pra essa UTI. No quinto dia internado, ele faleceu”. Ela lamenta a perda do pai, ainda em março, período em que o país vacinava apenas pessoas com mais de 80 anos e profissionais da saúde. No mês seguinte, a quantidade das doses distribuídas aos estados aumentaram e a idade do pai, entraria na faixa etária disponível.

Ao ouvir as falas de descaso do senador em relação as investigações, Estefhanny discorda do político “sinceramente, a CPI não é uma perda de tempo, porque a vida do meu pai não era uma perda de tempo”, diz. O relatório final da CPI é um documento de seis meses de trabalho e possui mais de mil páginas. Dentre as denúncias ao governo federal, destacam-se a tentativa de “imunização por rebanho”, na qual é tentado que a população toda se contamine de forma natural para atingir a imunidade; incentivo ao tratamento precoce sem eficácia comprovada; atraso na compra de vacinas; descaso com os protocolos de saúde estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde e o gabinete dos envolvidos no fortalecimento de fakenews da pandemia.

“Meu avô foi enterrado no dia em que liberaram a terceira dose”

“As pessoas só vão sentir quando for com alguém próximo à elas, quando você enterra quem ama e não pode nem chegar perto do caixão. Sem despedida, sem dignidade” e é assim que Carla Pires comenta sobre as falas de descaso sobre uma investigação que busca culpados de uma matança em todo o país. As festas de final de ano são serão as mesmas sem o avô, Seu Natal, data em que comemorava seu nascimento e o próprio Natal. Ele, que faleceu no dia 17 de setembro, foi enterrado no dia em que liberaram a terceira dose.

A família de Carla passou por situações angustiantes desde o início da pandemia. Primeiro, o próprio medo de se contaminar e precisar seguir o distanciamento social. Depois, quando já disponibilizados as doses de vacina, seu pai, José Calastro, aos 64 anos, ao se vacinar, foi surpreendido com uma vacina de “vento” em março deste ano, em Aparecida de Goiânia. Por sorte, como sua esposa filmou a vacinação, pôde ser constatado a fraude, entretanto, a enfermeira não foi punida, pois não houve o reconhecimento de quem era a responsável. No dia seguinte, seu José conseguiu se vacinar de forma correta com a Coronavac e, agora, aguarda a terceira dose.

Sobre a perda do avô, Carla lamenta sobre a ideia passada que de já está tudo bem “eu acho que nessa fase, é uma ilusão o que é passado para as pessoas mais carentes e humildes de que tudo está no controle, tudo está seguro, que não precisa ter distanciamento social, que se você vacinou, já pode tirar a máscara”, diz. Ela fala que foi ouvindo essas histórias que o avô passou a se sentir seguro para tirar a máscara “ele se contaminou, mesmo com as duas doses e não resistiu a variante Delta. Ele faleceu no dia em que liberaram a terceira dose para os idosos. Não teve tempo para ele tomar a segunda dose”. Ela lamenta que o avô tenha acreditado que a vida já estava normal “ele acreditou. Tem sido falado diariamente para a população e tem muitas pessoas que acreditam nessa falsa segurança, de que tudo tá normal, tudo tá certo e que no Brasil as coisas estão ótimas”, diz.

Ao mostrá-la a fala do senador, Carla é enfática “é absurdo! As coisas não estão tranquilas, hoje vejo os shows estão voltando, as aulas com 100% de presença [Carla é professora] e ainda tem gente morrendo”. Carla ainda relata sobre a necessidade das doses aos idosos serem aplicadas com um intervalo de tempo menor “ele precisava tomar a terceira dose antes dos seis meses e, se talvez, tivesse sido aplicado antes, ele não teria falecido”.

Carla se indigna com o que é ouvido sobre as notícias falsas do uso de máscara e distanciamento social “é quase um suicídio a pessoa não se vacinar e não querer usar máscara e isso acontece porque o governo induz isso a população”. Carla, de forma emocionante, finaliza “a dor de quem perdeu alguém para a Covid acaba sendo só delas. Mesmo com mais de 600 mil mortes, é uma dor solitária”.

Ouça a entrevista: