Albardão, no RS, vai ganhar o maior parque marinho costeiro do país
A criação do Parque Nacional Marinho do Albardão, em Santa Vitória do Palmar, no Sul do RS, no início de março, expôs um contraste entre quem defende a proteção ambiental da área e quem teme os efeitos da medida na economia local em uma região conhecida pelo isolamento e pela intensa atividade pesqueira.
Com mais de 1 milhão de hectares, será o maior parque marinho do Brasil.
Enquanto pesquisadores comemoram a proteção de um trecho considerado fundamental para espécies ameaçadas, moradores, produtores rurais e representantes do setor pesqueiro dizem que o processo ocorreu sem diálogo e temem prejuízos econômicos.
ÁREA ABRIGA DIVERSIDADE DE ESPÉCIES
O litoral entre a Praia do Hermenegildo e o farol do Albardão é monitorado há mais de 30 anos por equipes da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Ali, cientistas buscam entender o comportamento de mamíferos marinhos, aves e outros animais que utilizam a área para alimentação e descanso.
As pesquisas feitas ao longo das décadas mostram a presença de tartarugas marinhas, lobos-marinhos e grande variedade de aves migratórias. Muitas dessas espécies utilizam o trecho como ponto de parada em longas rotas pelo Atlântico.
Segundo o oceanólogo Kleber Grubel da Silva, a nova unidade pode ajudar a proteger espécies já ameaçadas, como a toninha.
CRIAÇÃO DO PARQUE GERA CRÍTICAS
O governo federal criou duas unidades de conservação: o Parque Nacional Marinho do Albardão e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão. No parque, atividades extrativas como a pesca serão proibidas. Já as áreas laterais funcionam como “zonas de amortecimento”, ou seja, áreas criadas para reduzir impactos de atividades humanas na área protegida.
Para especialistas e ambientalistas, a criação das unidades atende a uma reivindicação antiga. De acordo com Angela Kuczach, articuladora da SOS Oceano, organizações e pesquisadores pedem essa proteção há mais de 20 anos, por se tratar de um trecho único de biodiversidade no Brasil.
SETOR PESQUEIRO TEME PREJUÍZOS
A pesca é fundamental para a economia de pelo menos seis municípios da região. Representantes do setor dizem que o parque pode impedir o trabalho de cerca de 300 embarcações.
Para o comércio, os efeitos devem ser sentidos rapidamente:
“A nossa economia gira em torno da pesca. Isso vai afetar diretamente a nossa economia e, principalmente, o que vai sentir primeiro será o comércio”, afirma Luiz Escobar, presidente do Sindilojas de Rio Grande.
Especialistas defendem que a criação do Parque também estabeleça proteção dentro da área preservada, visto que é um espaço de reprodução de diversas espécies que estão ameaçadas de extinção.
ICMBIO PROMETE DIÁLOGO NA IMPLEMENTAÇÃO
O Instituto Chico Mendes (ICMBio), responsável pela gestão das unidades de conservação, afirma que a criação do parque não estabelece automaticamente todas as regras. Elas serão definidas no plano de manejo, etapa que ainda será construída.
Segundo o presidente do órgão, Mauro Pires, a equipe vai ouvir pescadores, representantes do comércio, prefeituras e universidades antes de decidir como o parque será implementado.




