Um alerta nacional. Em Passo Fundo (RS) — A Polícia Civil desmantelou nesta semana um esquema criminoso que utilizava inteligência artificial para forjar vaquinhas online com imagens e apelos de crianças doentes, chocando moradores do interior gaúcho e acendendo alerta sobre golpes digitais no estado.
O caso veio à tona após a mãe de uma menina em tratamento contra câncer, Kelen Santos, descobrir que fotos e vídeos da filha tinham sido roubados e modificados por criminosos com o uso de inteligência artificial. Com vozes clonadas e uso de deepfake, os golpistas reproduziam apelos emocionais, como se fossem da própria criança, pedindo doações para compra de remédios caros em campanhas falsas, referenciando tratamentos e situações reais.
Nos vídeos forjados, uma voz idêntica à da filha de Kelen dizia: “O remédio que pode me ajudar é muito caro. E a mamãe disse que a gente já vendeu tudo. Se você puder ajudar, qualquer valor já me dá mais um dia com a minha mãe”. O apelo, amplamente divulgado em redes sociais, mobilizava a emoção do público, mas o dinheiro era desviado para contas laranjas controladas pela quadrilha. Conforme a Polícia, apenas nessa campanha fraudulenta, mais de R$ 294,5 mil foram identificados como desvio.
Como funcionava o esquema de golpes no Rio Grande do Sul?
De acordo com o delegado João Vitor Herédia, responsável pela investigação, o grupo usava recursos avançados de deepfake e clonagem de voz. Primeiro, identificavam campanhas legítimas e copiavam imagens de crianças reais em tratamento. Em seguida, montavam vídeos falsos, publicando-os em páginas também fraudulentas — muitas com nomes sugestivos como “Clube de Doadores” e “Unidos pelo Amor”. Em cada post, “botões de doação” direcionavam para sites de arrecadação falsos, simulando plataformas conhecidas como Vakinha.
O funcionamento era minucioso. As vítimas, ao interagir com o conteúdo, eram direcionadas para páginas idênticas às verdadeiras, mas os valores transferidos por Pix iam para contas comerciais irregulares. Segundo a delegacia local, uma dessas empresas de fachada movimentou mais de R$ 1,7 milhão em meses, provando o alcance da fraude. A engrenagem envolvia ainda a criação constante de perfis e um núcleo financeiro responsável por lavagens de dinheiro.
A mãe da vítima relatou à imprensa local o sofrimento diante do golpe. “Eles usaram nossa dor para ganhar dinheiro. Gente comemorando doação, sem saber que o dinheiro ia pra bandido”, declarou Kelen Santos. Muitos doadores só se deram conta do golpe após entrarem em contato com a família pelas redes sociais, buscando notícias da menina.
Por que a fraude em Passo Fundo chocou o Rio Grande do Sul?
No Rio Grande do Sul, casos de vaquinhas solidárias são tradicionalmente acolhidos pela comunidade, sobretudo entre famílias afetadas por doenças graves. Este tipo de fraude, que explora sensibilidade popular e a solidariedade regional, é raro na região central do estado e, segundo a Polícia Civil, nunca havia atingido valores tão altos em golpes digitais. A forte mobilização popular pela saúde infantil tornou o acontecimento ainda mais grave.
Conforme dados do Ministério da Justiça, a pulverização de golpes digitais usando inteligência artificial cresceu em mais de 300% no último ano, mas o caso de Passo Fundo destaca-se pelo uso direcionado a famílias vulneráveis e pelo impacto emocional causado nas comunidades locais.
A cidade, conhecida por ações beneficentes legítimas, registra tradicionalmente altos índices de engajamento solidário, inclusive em campanhas via internet. Para a mãe lesada, esse histórico aumentou o número de vítimas do golpe, já que muitas pessoas acreditaram sem desconfiar da manipulação digital.
Quais cidades e estados foram envolvidos no desdobramento da operação?
Na última terça-feira, a operação coordenada pela Polícia Civil mobilizou efetivos em cinco estados: Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Pernambuco, cumprindo 16 mandados de prisão. Além de Passo Fundo (RS), a força-tarefa passou por cidades como Dourados (MS), Vitória de Santo Antão (PE), Francisco Beltrão e Cruzeiro do Iguaçu (PR), além de polos paulistas como Piracicaba, São Paulo, São Vicente, Catanduva, Santana de Parnaíba e Sorocaba.
Em Passo Fundo, a comoção foi imediata. Diversos moradores se manifestaram em redes sociais cobrando reforço da segurança digital e apoio às famílias vítimas de golpes semelhantes. No interior do Rio Grande do Sul, a sensação de insegurança foi potencializada, pois nunca se registrara, até então, um esquema tão sofisticado e organizado de crime digital utilizando deepfake contra crianças.
A equipe de jornalismo do Diário do Estado apurou que, embora o grupo tenha agido principalmente em cidades médias do RS, vítimas foram localizadas em outros estados, o que aponta para uma operação criminosa de abrangência nacional. Segundo o especialista em segurança pública ouvido pela reportagem, “o uso de inteligência artificial em golpes on-line coloca o Brasil entre os maiores alvos de fraude digital da América Latina”.
Como a polícia e a Justiça do RS estão atuando contra esses golpes?
De acordo com a Polícia Civil, a investigação prossegue para identificar todos os responsáveis pela fraude e localização do dinheiro desviado. Os presos responderão por estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro. O delegado Herédia, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos, explica que os trabalhos continuam para rastrear demais campanhas falseadas e contabilizar o número real de vítimas atingidas.
A Justiça do Rio Grande do Sul determinou o bloqueio de contas vinculadas aos suspeitos e a retirada imediata dos anúncios fraudulentos, visando resguardar novas vítimas. Órgãos estaduais de segurança devem criar uma força-tarefa para organizar cartilhas de alerta sobre golpes digitais, especialmente após o aumento exponencial dessas ocorrências nos últimos meses.
Como orientação oficial, a Polícia Civil pede que a população cheque sempre a veracidade das campanhas antes de doar, utilizando canais diretos com as famílias e verificando se o nome do destinatário do Pix corresponde ao verdadeiro beneficiário. Essas medidas foram reiteradas pela Secretaria de Segurança Pública em nota oficial enviada à equipe do Diário do Estado.
Qual o impacto para famílias e doadores em Passo Fundo e na região?
Para famílias como a de Kelen Santos, a experiência deixou traumas. A desconfiança em campanhas legítimas também preocupa ONGs e instituições filantrópicas do RS, que agora passam a adotar duplo processo de verificação em vaquinhas virtuais. Vários relatos de desinformação e constrangimento vieram à tona no município, especialmente de doadores que só perceberam o golpe quando já era tarde.
Em Passo Fundo, segundo levantamentos locais, é comum o apoio da comunidade a campanhas beneficentes, e muitos moradores sentem-se traídos por criminosos que lucraram com dor alheia. A polícia acredita que o desdobramento desta operação servirá de exemplo para cidades vizinhas, inibindo práticas semelhantes e provocando uma atenção maior à segurança das arrecadações virtuais, não apenas no município, mas em toda a região Norte do RS.
Para a redação do Diário do Estado, este caso evidencia um novo e preocupante nível de sofisticação de fraudes digitais no interior do país, exigindo atualização constante das autoridades para proteger famílias e a tradição de solidariedade do povo gaúcho.
A equipe do Diário do Estado esteve em Passo Fundo nesta sexta-feira, conversou com vítimas, autoridades e especialistas em segurança, e continua acompanhando os desdobramentos da investigação, que promete novas revelações sobre o esquema nacional nos próximos dias.



