Passo Fundo (RS): Mãe denuncia uso de imagem da filha em vaquinha falsa

Passo Fundo (RS): Mãe denuncia uso de imagem da filha em vaquinha falsa

Um novo golpe surpreende. Em Passo Fundo (RS) — A polícia civil do Rio Grande do Sul descobriu que um grupo criminoso utilizou inteligência artificial para falsificar campanhas de arrecadação online com imagens de uma criança em tratamento contra o câncer. Os suspeitos criaram vídeos e áudios, também adulterados digitalmente, para enganar doadores em todo o país, ampliando a preocupação sobre crimes digitais envolvendo vulneráveis e tocando a população gaúcha pela gravidade e frieza do método de fraude.

O esquema foi revelado nesta terça-feira (14), durante uma operação deflagrada simultaneamente em cinco estados brasileiros. Ao todo, dezesseis pessoas foram presas suspeitas de integrarem a quadrilha. Segundo a polícia, o grupo clonava campanhas reais de famílias com crianças doentes, manipulando vídeos da internet para gerar apelos emocionais falsos que direcionavam as vítimas para páginas fraudulentas, parecidas com a popular plataforma Vakinha.

Imagens da menina gaúcha, cuja identidade está sendo preservada, serviram de base para postagens nas redes sociais e disparos de anúncios em massa. Por trás da manipulação visual, também havia a clonagem de voz: a gravação simulava a própria criança, pedindo por doações para custear remédios. “O remédio que pode me ajudar é muito caro. E a mamãe disse que a gente já vendeu tudo. Se você puder ajudar, qualquer valor já me dá mais um dia com a minha mãe. Se você puder me ajudar, clica no botãozinho aqui embaixo”, dizia a mensagem apócrifa veiculada para milhares de brasileiros, segundo a Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos do RS.

A mãe da criança, Kelen Santos, relatou à imprensa o impacto destrutivo da descoberta. “Foi horrível. A gente perdeu o sono, eu chorei muito porque não era só questão da imagem dela. Mas eles estarem usando a nossa dor para se aproveitar, para ganhar dinheiro e principalmente pelas pessoas que estavam doando”, contou em depoimento emocionado. O caso ganhou forte repercussão regional, especialmente em cidades como Passo Fundo, onde a população ficou chocada com a ousadia e sofisticação do crime.

Como a quadrilha agia para aplicar golpes com deepfake no RS?

Segundo o delegado João Vitor Herédia, responsável pela investigação, o grupo utilizou ferramentas modernas de inteligência artificial – inclusive técnicas de deepfake e clonagem de voz. A manipulação permitia transformar vídeos verdadeiros em versões forjadas, muitas vezes com frases que a criança jamais pronunciou, abusando do apelo visual e afetivo para estimular as doações.

As postagens envolviam páginas com nomes sugestivos como “Clube de Doadores” e “Unidos pelo Amor”, que pareciam legítimas aos olhos dos internautas. Quando alguém clicava nos anúncios, era redirecionado a um site cuidadosamente planejado, visualmente semelhante ao das plataformas reais de arrecadação. O doador, ao colaborar, acreditava estar ajudando uma criança real, mas o dinheiro era transferido via Pix para contas fraudulentas ligadas a empresas de fachada dos golpistas.

Em apenas uma dessas campanhas falsas, R$ 294,5 mil foram desviados em pouco tempo. Um núcleo financeiro do esquema, disfarçado como empresa real, chegou a movimentar mais de R$ 1,7 milhão no período analisado pela polícia civil. O crime demonstra o avanço da tecnologia aplicada à fraude, tornando-se um desafio extra para as autoridades do estado e para a sociedade, que ainda não está plenamente conscientizada dos riscos dessas plataformas.

Por que o caso de Passo Fundo (RS) mobilizou tantas cidades?

A onda de impacto não se restringiu ao município de origem da vítima. Conforme a polícia, a ação teve desdobramentos em diversos pontos: além de Passo Fundo, a operação aconteceu em Vitória de Santo Antão (PE), Francisco Beltrão e Cruzeiro do Iguaçu (PR), Dourados (MS), além de cidades do interior e da capital de São Paulo, como Piracicaba, São Vicente, Catanduva, Santana de Parnaíba e Sorocaba. Isso demonstra o alcance nacional do golpe e preocupa autoridades por envolver um padrão sofisticado de atuação interestadual.

Moradores da região norte do Rio Grande do Sul relatam nunca terem presenciado fraude tão bem articulada em causas sociais, que são amplamente divulgadas entre cidades de pequeno e médio porte. “A maioria das campanhas sérias é compartilhada rapidamente em grupos de WhatsApp ou por emissoras locais, todo mundo se conhece, e os casos simulados acabam assustando porque passam por verdadeiros”, relata um comerciante de Passo Fundo ouvido pela reportagem.

O órgão de defesa do consumidor do estado destaca que, até então, golpes de arrecadação com esse tamanho de tecnologia digital eram raros. Conforme dados do Ministério da Justiça, o uso de deepfake com fins criminosos está em franco crescimento no Brasil desde 2023, mas o RS ainda era considerado fora da curva para práticas desse tipo.

Qual a motivação e o prejuízo das falsas vaquinhas para famílias do Rio Grande do Sul?

Ao analisar os extratos bancários, a polícia detectou que os golpistas miravam campanhas que já haviam sensibilizado o público anteriormente. No caso da menina gaúcha, de fato havia existido uma arrecadação legítima, mas foi encerrada pela própria família quando o montante necessário ao tratamento foi atingido. Após isso, os criminosos passaram a usar as imagens da criança sem autorização, causando dupla vitimização.

O prejuízo não afetou só a família direta da vítima. Vários doadores entraram em contato com a mãe da criança após realizarem supostas doações, comemorando a ajuda, sem saber que haviam colaborado com criminosos. Esse movimento criou constrangimento, frustração e culpa nas pessoas de boa fé, alimentando o descrédito em campanhas sociais sérias na região. De acordo com o delegado Herédia, ainda não é possível calcular o número exato de crianças usadas pelo grupo, mas dezenas podem ter tido suas imagens exploradas.

Para a redação do Diário do Estado, este caso evidencia uma mudança no perfil dos crimes digitais nas cidades do interior, especialmente no Rio Grande do Sul. A utilização massiva de IA para forjar campanhas de apelo emocional desafia tanto órgãos policiais quanto a própria sociedade civil a se atualizar – e revela deficiências nos mecanismos de checagem de plataformas e redes sociais. Segundo o especialista em segurança pública consultado pela nossa redação, “a falta de regulamentação e rastreabilidade total no sistema Pix também facilita a dispersão rápida do dinheiro, tornando o combate mais difícil”.

Como estão as investigações e o posicionamento das autoridades do RS?

O caso é conduzido pela Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos do RS, que identificou vínculos dos investigados com outras fraudes e organizou a operação em conjunto com polícias civis de quatro estados além do Rio Grande do Sul. Os suspeitos agirão agora como réus por crimes de estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro, podendo somar penas que chegam a 20 anos de prisão, de acordo com especialistas em legislação penal consultados pela reportagem.

Conforme explicou a delegada regional de Passo Fundo, Eliane Motta, a operação está longe do fim: investigações seguem abertas para apurar a existência de outros núcleos. O órgão também solicitou apoio das empresas responsáveis por aplicativos e redes sociais, para identificar rapidamente páginas falsas e contas utilizadas na disseminação de golpes, o que representa um novo passo nas estratégias policiais para cibercrimes no Brasil.

Além disso, defensores públicos alertam para a importância de sempre verificar nomes dos recebedores e, em caso de dúvida, buscar confirmação diretamente com as famílias envolvidas ou instituições que lideram campanhas de arrecadação. A orientação vale especialmente em situações de alta exposição e comoção regional, características comuns em cidades do interior do RS.

A equipe do Diário do Estado segue em contato com as autoridades locais e conversou pessoalmente com familiares da vítima, que reforçam o alerta para que doadores busquem informações oficiais antes de realizar qualquer transferência, prometendo divulgar novos detalhes tão logo houver o avanço nas investigações da Polícia Civil.

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