Peixes emitem sons no ambiente marinho: saiba como acontece

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Peixes são capazes de emitir sons?

Pesquisador da DE detalha como estes seres podem produzir ‘coros’ no ambiente marinho.

Peixes são capazes de emitir sons?

Peixes são capazes de emitir sons?

Mais de 800 espécies de peixes, embora sejam incapazes de vocalizar, emitem sons por meio da vibração da bexiga natatória ou do atrito entre partes do corpo. Esses ruídos, produzidos de forma simultânea por grandes grupos, formam os chamados coros, fenômeno no qual cardumes geram sons sincronizados capazes de diferenciar as espécies entre si.

Motivado pela curiosidade de compreender a paisagem acústica submarina brasileira, uma área em que o país ainda carecia de tecnologia e pesquisa, Linilson Padovese, do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (Cebimar-USP), desenvolveu hidrofones e gravadores com tecnologia nacional.

O pesquisador conta que o interesse pelo tema surgiu com a criação do Laboratório de Acústica e Meio Ambiente na Escola Politécnica. À época, a equipe buscava entender o que havia embaixo do mar, já que o som é o principal meio de comunicação e sobrevivência no ambiente marinho, uma vez que a luz se propaga muito mal na água.

“Como a tecnologia de acústica submarina no Brasil era mínima, desenvolvemos nossos próprios hidrofones e gravadores. Passamos a monitorar 24 horas por dia pontos como a Ilha de Alcatrazes e a Laje de Santos. Ao analisar esses dados em escalas temporais maiores, percebemos padrões que duravam horas e assim descobrimos os coros dos peixes”, afirma.

Segundo os dados da pesquisa, os chamados coros apresentam padrões bem definidos de duração e frequência. Em geral, estão associados a momentos de alimentação e, sobretudo, ao período reprodutivo dos peixes. Esses eventos costumam ocorrer ao amanhecer, ao entardecer ou durante a noite, acompanhando ritmos diários e sazonais.

Esses sons funcionam como importantes indicadores biológicos e podem auxiliar pesquisadores de diversas formas.

“Os coros de peixes indicam que determinadas espécies estão naquele lugar. Quando esse monitoramento é feito ao longo do ano, é possível identificar em que períodos elas aparecem e se isso é um hábito recorrente ou não”, explica Linilson Padovese.

Segundo o pesquisador, a acústica também permite estimar a quantidade de indivíduos e identificar os locais onde os peixes se concentram.

“É possível usar o som para quantificar quantos indivíduos estão ali e localizar onde de fato estão se congregando, sem a necessidade de mergulho, que tem um alcance muito limitado. A acústica consegue monitorar áreas de quilômetros quadrados”, afirma.

Dessa forma, o acompanhamento dos coros acústicos se consolida como uma ferramenta relevante para a pesquisa ambiental. A partir desses dados, é possível avaliar estoques pesqueiros, monitorar mudanças nas condições ambientais, identificar impactos de atividades humanas, como o ruído gerado pela navegação e acompanhar populações de espécies ameaçadas.

Alterações na dinâmica desses sons, como atrasos no início dos coros, redução da duração ou mudanças na frequência, podem indicar estresse ambiental ou até deslocamento de populações, auxiliando na detecção precoce de desequilíbrios nos ecossistemas.

Os gravadores subaquáticos utilizados nesses estudos podem permanecer submersos por até três meses, realizando gravações contínuas e ininterruptas, antes de necessitarem manutenção ou troca de bateria. Apesar de serem trunfos importantes para o monitoramento marinho, o próprio ambiente oceânico impõe desafios.

A alta salinidade, o caráter corrosivo da água e a dificuldade de acesso a determinadas áreas exigem equipamentos robustos e de alto custo. Além disso, a escassez de recursos materiais e financeiros no Brasil ainda limita o avanço da área.

Para os peixes, há evidências de que os coros desempenham um papel central na dinâmica ecológica das populações.

“Esses sons têm função direta na ecologia e na vida desses animais. Em algumas espécies, estão relacionados à alimentação ou à reprodução. Nesse sentido, não deixa de ser uma forma de comunicação”, diz Padovese.

“O som pode ser ouvido a quilômetros de distância e ajuda a atrair e concentrar indivíduos da mesma espécie”, completa.

Por isso, a acústica submarina permite localizar e quantificar agrupamentos de peixes em áreas extensas, sendo muito mais eficiente do que o mergulho humano, que tem um campo de visão restrito a poucos metros.

Os ruídos produzidos por atividades humanas também afetam significativamente a vida marinha. Turismo, exploração de petróleo e tráfego de embarcações geram sons intensos que influenciam o comportamento dos animais aquáticos.

Segundo o pesquisador, há evidências de impactos que vão desde mamíferos marinhos até organismos como ouriços-do-mar, afetando toda a cadeia ecológica. Ambientes com menor nível de ruído tendem a indicar melhor saúde ambiental, já que, no oceano, os sons se propagam com muito mais intensidade do que no ar.

Curiosamente, diferentes espécies de peixes podem ser identificadas a partir dos padrões sonoros de seus coros. Esse campo, no entanto, ainda demanda aprofundamento, pois muitos sons já foram registrados sem que fosse possível associá-los diretamente a uma espécie específica, devido à ausência de registro visual no momento da emissão.

Entre os peixes conhecidos por produzir sons mais intensos estão corvinas, pescadas, mero, peixe-sapo e os chamados peixes-roncadores.

PONTOS DE GRAVAÇÃO

Os primeiros monitoramentos foram realizados em duas importantes unidades de conservação do estado de São Paulo. Posteriormente, a técnica passou a ser aplicada também na avaliação da saúde de recifes de coral, a partir da análise da chamada paisagem acústica, já que o tipo e a intensidade dos ruídos variam conforme o grau de preservação do ambiente.

Padovese destaca que o som se propaga melhor na água do que no ar, sendo o principal meio de interação e sobrevivência da fauna marinha. Deixar de explorar esse vasto conjunto de dados acústicos pode significar perder oportunidades importantes de aprimorar estratégias de conservação dos oceanos.

O pesquisador também ressalta o potencial da tecnologia para proteger áreas sensíveis e combater ações ilegais.

“A acústica submarina permite escutar permanentemente sem que o pesquisador precise estar lá embaixo. Uma expectativa é desenvolver detectores de embarcações para gestores de unidades de conservação”, afirma.

“Isso ajudaria a combater a pesca ilegal em santuários marinhos, localizando invasores e transmitindo a informação em tempo real”, completa.

Para ilustrar a importância desses estudos, Padovese faz uma analogia: imaginar o mar como uma floresta coberta por uma neblina espessa e permanente. Enquanto o mergulhador tenta compreender esse ambiente com uma pequena lanterna (a visão), a acústica submarina funciona como uma audição ampliada, capaz de identificar quem está ali, onde está e o que está fazendo, apenas pelos sons que ecoam por quilômetros.

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