Polícia Federal investiga esquema de compra de votos em presídios na Bahia: entenda a ligação de ex-candidato com ex-diretora de presídio.

Polícia Federal investiga esquema de compra de votos em presídios na Bahia: entenda a ligação de ex-candidato com ex-diretora de presídio.

Polícia Federal investiga um suposto esquema de compra de votos em presídios da Bahia, envolvendo líderes de facções criminosas e um ex-candidato a prefeito, segundo informações reveladas nesta quarta-feira (17). A ação mobilizou agentes federais em diversas cidades, incluindo Salvador — capital do estado — e mirou uma possível aliança entre o político e a diretoria de unidades prisionais.

De acordo com fontes ligadas ao Ministério Público Estadual e à Corregedoria do Tribunal de Justiça baiano, três mandados de busca e apreensão foram cumpridos em endereços em Teixeira de Freitas e na capital. O objetivo foi coletar provas digitais, como celulares, notebooks e outros dispositivos de armazenamento, que possam confirmar o envolvimento do ex-deputado federal Uldurico Júnior e da ex-diretora do presídio de Eunápolis no suposto esquema em 2024, ano de eleições municipais.

Os bastidores das investigações apontam que o esquema teria como centro o Conjunto Penal de Eunápolis, no extremo sul da Bahia. Uldurico Júnior, também ex-candidato a prefeito de Teixeira de Freitas, é suspeito de ter intermediado alianças políticas diretamente com chefes de facções. Segundo o Ministério Público, o objetivo seria garantir votos dentro dos presídios, onde presos provisórios, autorizados a votar, eram supostamente aliciados em troca de benefícios.

Relação entre política e gestão prisional

Chama atenção dos investigadores o possível vínculo pessoal e político entre Uldurico Júnior e a ex-diretora Joneuma Silva Neres, que administrou o Conjunto Penal de Eunápolis até dezembro de 2024. Fontes ligadas à investigação revelam que ele teria sido o padrinho político responsável por indicar Joneuma ao cargo, e a relação entre ambos seria próxima a ponto dela alegar publicamente que o ex-deputado é pai de sua filha, nascida enquanto ela ainda estava presa em 2025.

Uma denúncia formalizada no ano passado detalha que Joneuma mantinha um relacionamento com Ednaldo Pereira de Souza, o “Dadá”, apontado como chefe de facção em Eunápolis. Segundo o inquérito, ela promovia encontros secretos entre Dadá e Uldurico Júnior, então candidato, para articular apoio eleitoral e proteção política. Em depoimentos já coletados, servidores do sistema penitenciário relataram que políticos entraram no presídio sem passar por revista ou cadastro, inclusive mencionando Uldurico pelo nome.

A defesa de Joneuma, entretanto, nega o envolvimento sentimental com Dadá e afirma que aguarda reconhecimento da paternidade por parte de Uldurico, destacando inclusive que existiría um exame de DNA, atualmente sob posse da família. Já a assessoria jurídica do ex-candidato disse em nota que recebeu com surpresa os mandados de busca e apreensão, coloca-se à disposição das autoridades para esclarecimentos e nega qualquer irregularidade.

Esquema eleitoral e venda de votos em presídios

O cerne da investigação é a suposta venda de votos dentro dos presídios em troca de favores políticos e proteção a organizações criminosas. De acordo com os autos, presos provisórios eram convencidos a destinar seus votos mediante o recebimento de até R$ 100 cada, valor utilizado para garantir o controle de facções sobre o processo eleitoral local. A denúncia sugere que familiares e amigos dos detentos também eram cooptados a votar em partidos aliados ao esquema.

Para garantir influência administrativa, Uldurico Júnior teria articulado para manter Joneuma Neres à frente da unidade, mesmo após denúncias envolvendo sua proximidade com membros de facções. Investigadores consideram que o apoio político era retribuído com o comprometimento de representantes da administração penitenciária em acobertar atividades irregulares internas. O arranjo, segundo o Ministério Público, atendia aos interesses da facção e reforçava o poder político do ex-candidato, especialmente em cidades estratégicas como Feira de Santana e Vitória da Conquista.

Em depoimento sigiloso, um policial penal relatou ter conhecimento da entrada facilitada de políticos na unidade prisional sem os devidos protocolos de segurança, corroborando as suspeitas do Ministério Público. Esse tipo de privilégio, segundo especialistas em segurança prisional, é sintomático de esquemas que misturam interesses eleitorais e o fortalecimento do crime organizado dentro dos presídios.

Fuga em massa expõe fragilidades do sistema prisional

O caso ganhou ainda mais notoriedade após a fuga em massa ocorrida no Conjunto Penal de Eunápolis em dezembro de 2024. Na ocasião, 16 detentos escaparam da unidade – incluindo o chefe de facção Dadá – após acessarem ferramentas e abrirem um buraco no teto da cela. Um grupo armado invadiu o presídio e abriu fogo contra agentes de plantão, permitindo a evasão dos criminosos.

Segundo relatos obtidos nas investigações, todos os fugitivos foram alocados na mesma cela de número 44, fator considerado suspeito e investigado pelo Ministério Público. A ex-diretora Joneuma Neres foi presa em janeiro do ano seguinte, sob acusação de ter facilitado a fuga. Durante o período em que esteve reclusa no Conjunto Penal de Itabuna, deu à luz e permaneceu em cárcere até março, passando à prisão domiciliar posteriormente.

Atualmente, 13 dos foragidos, entre eles Dadá, permanecem em paradeiro desconhecido, conforme atualização recente da Polícia Federal. As autoridades afirmam que diligências continuam em todo o território da Bahia, especialmente em áreas urbanas de grande circulação, como Salvador e cidades do interior.

O que esperar para os próximos dias das investigações?

A expectativa é de que novas informações surjam até o fim da semana, inclusive com a análise do conteúdo dos dispositivos apreendidos durante as buscas em residências e escritórios dos investigados. O Ministério Público trabalha na identificação de possíveis operadores financeiros do esquema, tentando rastrear os pagamentos realizados aos presos e eventuais repasses às famílias envolvidas.

Especialistas em direito eleitoral lembram que o voto de presos provisórios é permitido por lei, mas mecanismos de controle precisam ser reforçados para evitar fraudes, sobretudo em localidades onde o poder paralelo de facções influencia a rotina dos presídios. A Justiça Eleitoral da Bahia prometeu revisar os procedimentos e fortalecer parcerias com a Polícia Federal e a Secretaria Estadual de Administração Penitenciária.

O cenário político em cidades como Feira de Santana e Vitória da Conquista pode ser impactado caso a investigação comprove que o esquema extrapolava os limites de Teixeira de Freitas e Eunápolis. O avanço das investigações pode trazer desdobramentos no contexto eleitoral de 2024, colocando em xeque a lisura do processo municipal.

Para além da apuração criminal, o caso reacende o debate sobre os limites entre o sistema prisional e a participação política de detentos. Consultados pelo DE, analistas dizem que esse episódio reforça a necessidade de critérios rígidos e fiscalização permanente em todo período pré-eleitoral, especialmente em estados com histórico de influência do crime organizado no ambiente penitenciário.

Questionada pelo DE sobre o andamento das investigações, a Polícia Federal afirmou nesta quarta-feira que novas fases da operação podem ser deflagradas nos próximos dias. Procurada, a Secretaria de Administração Penitenciária da Bahia disse colaborar com as autoridades federais e prometeu divulgar um relatório detalhado sobre a atuação de servidores suspeitos de colaborar com as facções.

Enquanto o caso mobiliza a opinião pública e acende um alerta para as próximas eleições municipais, representantes da sociedade civil cobram maior transparência das instituições e penalização exemplar para todos os envolvidos. Para especialistas, o desafio agora é evitar que situações similares ocorram em outras regiões, como Salvador e no interior da Bahia, fortalecendo a confiança dos eleitores no processo democrático.

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