Problemas no lançamento: quando e por que um foguete pode ser derrubado por segurança; veja infográfico
Protocolos internacionais permitem interromper o voo ainda nos primeiros segundos se o veículo sair da trajetória segura; no Maranhão, a empresa informou que uma anomalia levou à ativação desse procedimento.
Nova imagem mostra explosão do 1º foguete comercial lançado do Brasil
Nova imagem mostra explosão do 1º foguete comercial lançado do Brasil
A explosão do foguete sul-coreano Hanbit-Nano, da empresa Innospace, logo após o lançamento no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, levantou dúvidas sobre o que pode ter acontecido durante a missão. A empresa informou apenas que foi identificada uma “anomalia”, sem detalhar se o evento foi acidental ou provocado por protocolos de segurança.
No setor aeroespacial, no entanto, explosões logo após o lançamento nem sempre significam uma falha inesperada. Em muitos casos, elas fazem parte de procedimentos de segurança previstos desde o projeto do foguete, especialmente em veículos novos e em voos de teste.
Veja o que se sabe sobre situações que podem levar a esse tipo de ocorrência. No caso em Alcântara, a empresa já informou que a explosão não provocou vítimas e que projeta outros lançamentos já em 2026.
O QUE É O “ENVELOPE DE VOO SEGURO”
Segundo o coordenador do programa de pós-graduação Aeroespacial da UEMA, Fernando Moucherek, os lançamentos de foguetes sempre são pensados de forma a não haver riscos à população em solo, caso o voo não saia como planejado. Na prática, todo lançamento de foguete segue um caminho chamado de “envelope de voo seguro”, que funciona como um corredor imaginário no espaço aéreo. Se o foguete sair dessa rota imaginária, significa que há riscos de possíveis destroços caírem em áreas povoadas, o que automaticamente levará à explosão do foguete, por questões de segurança.
QUANDO UM LANÇAMENTO PODE SER ABORTADO
O aborto de um lançamento pode ocorrer em diferentes fases do voo — e quanto mais cedo, mais seguro. Antes da decolagem, ainda na contagem regressiva, sensores podem identificar falhas em sistemas de propulsão, pressurização ou navegação, levando ao cancelamento automático. Segundos após a decolagem, os primeiros 30 segundos de voo já são críticos e qualquer instabilidade nessa fase pode justificar o aborto.
Durante o primeiro estágio, o período mais sensível do voo é o chamado Max Q, ponto de maior pressão aerodinâmica sobre o foguete. Ele costuma ocorrer entre 50 e 90 segundos após a decolagem, mas esse intervalo não é fixo — varia conforme aceleração do veículo, densidade do ar e perfil de subida. Segundo a NASA, falhas estruturais, vibrações excessivas ou perda de controle nesse momento exigem decisão rápida.
QUEM DECIDE ABORTAR UMA MISSÃO
O aborto pode ser acionado de três formas: 1. Automaticamente, por sistemas de bordo programados para reagir a parâmetros fora do normal; 2. Pelo centro de controle em solo, ao detectar riscos à segurança; 3. Por um oficial de segurança de voo, que tem a função de proteger áreas habitadas. No Brasil, segundo a Força Aérea Brasileira, “a prevenção de acidentes aeronáuticos é da responsabilidade de todas as pessoas, naturais ou jurídicas, envolvidas com a fabricação, manutenção, operação e circulação de aeronaves, bem como com as atividades de apoio da infraestrutura aeronáutica no território brasileiro”. Em muitos casos, o sistema de destruição é automático, sem interferência humana direta, para garantir reação em frações de segundo.
O QUE ACONTECE QUANDO O ABORTO É ACIONADO
Quando o aborto é confirmado, entra em ação o chamado Sistema de Terminação de Voo (FTS), adotado por foguetes da NASA, da SpaceX, da Arianespace e de outras operadoras. Esse sistema desliga os motores, rompe tanques de combustível de forma controlada e provoca a desintegração do foguete no ar. O objetivo não é “explodir”, mas eliminar o empuxo e impedir que o veículo continue avançando fora do envelope seguro.
POR QUE ISSO É COMUM EM FOGUETES NOVOS
Especialistas destacam que os primeiros voos de um foguete são, essencialmente, testes. É nessa fase que normalmente acontecem as validações dos sistemas em voo real, comparações dos modelos computacionais com dados reais e provas dos sensores, válvulas e softwares. Para o especialista em Engenharia, Antonio Oliveira, explosões também são comuns em foguetes de empresas experientes, já que muitos fatores podem surpreender as equipes de lançamento. A própria NASA afirma, em documentos técnicos, que abortos fazem parte natural do processo de desenvolvimento.
COMO E POR QUE PODE TER ACONTECIDO A EXPLOSÃO EM ALCÂNTARA
No caso do Hanbit-Nano, a Innospace informou apenas a ocorrência de uma “anomalia”, sem confirmar se houve falha estrutural, perda de controle ou acionamento do sistema de segurança. Até o momento, sabe-se apenas que a anomalia ocorreu após a fase inicial da decolagem, quando o foguete já havia superado etapas como o rompimento da barreira do som (Mach 1) e se aproximava da fase de maior estresse aerodinâmico (MAX Q). À luz dos protocolos internacionais, especialistas apontam que há três hipóteses principais, que não são excludentes: desvio do envelope de voo seguro, levando ao acionamento automático do sistema de terminação; anomalia durante o primeiro estágio, possivelmente em fase próxima ao Max Q; falha detectada pelos sensores, com aborto preventivo para evitar risco ao solo. Até a conclusão da investigação técnica, que envolve análise de telemetria, imagens e dados de bordo, não é possível afirmar se a explosão foi acidental ou deliberada. A Força Aérea Brasileira (FAB) já informou que a investigação está acontecendo, em conjunto com a Innospace. Equipes técnicas analisam os dados de voo e os destroços para identificar as causas da anomalia.




