Oferta tentadora pode virar dor de cabeça. Em Porto Alegre (RS) — Após a histórica enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024, centenas de veículos afetados pelas águas voltaram ao mercado, muitas vezes camuflando sérios riscos aos compradores. O fenômeno tem causado preocupação entre consumidores e autoridades, diante da possibilidade de prejuízos financeiros e riscos à vida.
De acordo com um levantamento de associações do setor automotivo, cerca de 200 mil carros foram atingidos pelas cheias nas principais cidades do estado. Com a crise econômica que se seguiu ao desastre climático, parte desses veículos já começou a ser anunciada em sites e lojas locais, frequentemente por valores muito abaixo do mercado. Especialistas alertam que os danos podem comprometer sistemas essenciais, como freios, airbags e central eletrônica, afetando a segurança dos ocupantes.
A equipe do Diário do Estado conversou com consumidores, mecânicos e autoridades, traçando o caminho que leva muitos gaúchos a comprar, sem saber, carros que estiveram submersos. O caso mais recente envolve Paulo Victor de Carvalho Estivalet, jovem que adquiriu uma Range Rover Evoque por R$ 70 mil – cerca de R$ 40 mil a menos do preço usual. No entanto, a economia rapidamente se mostrou ilusória quando uma sucessão de falhas eletrônicas e mecânicas deixou o veículo fora de circulação apenas dias após a compra.
Por que carros de enchente preocupam consumidores em Porto Alegre?
O cenário em Porto Alegre escancara um problema antigo, que se agrava em épocas de calamidade: a falta de rastreabilidade acerca do histórico dos veículos. Conforme relatos recorrentes no Rio Grande do Sul, muitos estabelecimentos não informam que os automóveis foram afetados por enchentes, tornando difícil para o comprador identificar possíveis danos invisíveis.
Segundo o mecânico César Bressiani, ouvido pela reportagem, “a água pode comprometer não só a parte elétrica, mas sensores críticos para o funcionamento seguro do carro”. Entre os pontos mais vulneráveis estão os freios, sistemas de airbag, transmissão e até mesmo os cintos de segurança, que podem ter a estrutura interna danificada ou enferrujada sem que se perceba a olho nu.
O diretor do Procon Porto Alegre, Wambert di Lorenzo, destacou à nossa redação que todo consumidor tem direito à garantia legal, e que a falta de transparência na venda de veículos com histórico de enchente pode resultar em responsabilização civil do lojista ou particular.
Como identificar veículos afetados pelas enchentes na capital?
Detectar se um carro foi atingido por enchente é uma tarefa complexa e que exige atenção a detalhes. O especialista Samuel Beiker relata que, ao examinar veículos suspeitos, busca sinais como ferrugem em áreas internas — pedais, trilhos de banco e chapas sob os carpetes — bem como vestígios de umidade ou cheiro de mofo persistente dentro do habitáculo. “Na maioria das vezes, a limpeza superficial pode disfarçar danos em alto nível, enquanto circuitos e sensores já estão comprometidos”, adverte Beiker.
Além dos indícios visuais, testes em sistemas elétricos e eletrônicos são obrigatórios. Após as enchentes, segundo a Polícia Civil, cresceram os registros de fraudes no setor automotivo, com relatos de veículos recuperados circulando com documentação aparentemente regular. Para especialistas e órgãos de defesa do consumidor, a inspeção pré-compra por mecânicos independentes virou exigência mínima para evitar prejuízos.
Relatos como o de Paulo Estivalet, que levou o carro para oficina e se deparou com a suspeita de contato com enchente ao perceber ferrugem e falhas generalizadas, tornaram-se frequentes em fóruns online e redes sociais de Porto Alegre. Além disso, consumidores relatam dificuldades para fazer valer as garantias, especialmente no caso de empresas que optam por não arcar com os altos custos de reparo, que podem chegar a R$ 30 mil.
O que dizem as autoridades de defesa do consumidor em Porto Alegre?
A equipe de jornalismo do Diário do Estado apurou que, desde o início de maio, o Procon tem intensificado fiscalizações em revendas de seminovos em Porto Alegre e cidades vizinhas, exigindo que toda informação sobre o histórico de enchente esteja descrita de forma clara no anúncio, conforme determina o Código de Defesa do Consumidor. Segundo levantamento do Procon, já foram realizadas 38 inspeções em estabelecimentos do setor, resultando em notificações por ocultação de histórico em pelo menos 12 casos.
De acordo com o órgão, consumidores que adquirirem carros adulterados ou com origem duvidosa podem solicitar troca, reparação integral ou ressarcimento do valor pago. “Quem omite informação relevante está sujeito a sanções, inclusive suspensão do alvará de funcionamento”, explica Marina Cortes, advogada do Procon estadual. Ela orienta, ainda, que documentos e provas das condições do veículo devem ser guardados desde o momento da compra para facilitar a abertura de processos judiciais caso necessário.
Para a redação do Diário do Estado, este caso evidencia o desafio histórico de fiscalizar a venda de seminovos em um mercado aquecido após tragédias como a enchente de 2024. Segundo números citados pelo Sindicato dos Concessionários e Revendedores de Veículos do Rio Grande do Sul (Sincodiv-RS), em outras ocasiões de alagamento, houve aumento de até 150% nas reclamações por defeitos ocultos na capital.
Por que a venda de veículos de enchente é comum no RS?
No estado do Rio Grande do Sul, o comércio informal de carros danificados por eventos extremos não é novidade. Porto Alegre e municípios da Região Metropolitana já registraram picos de ofertas de veículos com valores 40% abaixo do mercado logo após grandes enchentes, criando um ambiente propício a fraudes e prejuízos ao consumidor desavisado.
Segundo o portal da transparência do estado, problemas de fiscalização e a falta de integração entre registros nacionais de sinistros permitem que muitos automóveis recuperados de alagamentos passem despercebidos pelo sistema, especialmente quando a documentação é regularizada sem a obrigatória comunicação de sinistro às seguradoras ou Detran. Nestes casos, a checagem minuciosa na hora da compra é ainda mais relevante.
A situação preocupa ainda mais autoridades diante do histórico da região: Porto Alegre, assim como cidades próximas como Canoas e Novo Hamburgo, figura entre os principais centros do país em circulação de seminovos, com mais de 1,5 milhão de veículos registrados apenas na Região Metropolitana. Isso facilita a diluição e o reaparecimento de carros de enchente em diferentes pontos do estado, conforme análise do Departamento Estadual de Trânsito.
Quais são os riscos reais para quem compra um carro de enchente em Porto Alegre?
Conforme alertam especialistas e órgãos oficiais, os perigos de adquirir um carro com danos causados por alagamento vão além do prejuízo financeiro. Em situações extremas, falhas inesperadas de freios, airbags e até do motor podem colocar em risco não só os ocupantes, mas também terceiros, tornando o problema uma questão de segurança pública.
O especialista em segurança automotiva consultado pela nossa redação reforça que a exposição prolongada à água pode corroer componentes estruturais e comprometer sistemas eletrônicos de forma irreversível. Além disso, sensores defeituosos podem gerar leituras falsas para o condutor, resultando em acidentes evitáveis. A recomendação frequente é que, na dúvida, o consumidor desista da compra e busque veículos com histórico comprovadamente limpo.
Vale lembrar que a legislação brasileira prevê responsabilidade solidária entre vendedor e lojista no caso de omissão dolosa, garantindo ao consumidor direitos jurídicos explícitos. Em Porto Alegre, entidades civis têm promovido campanhas de conscientização para que compradores redobrem a atenção neste período pós-enchente, consultando sempre profissionais de confiança antes de assinar qualquer contrato.
A equipe do Diário do Estado percorreu depósitos e oficinas no bairro Anchieta e observou filas de veículos aguardando inspeção, enquanto moradores relataram preocupação com o crescimento desse tipo de golpe. Seguimos acompanhando de perto esses desdobramentos e ouvindo diretamente vítimas e autoridades responsáveis pela fiscalização na capital gaúcha, para trazer orientações e atualizações aos leitores nos próximos dias.



