Uma reação de coragem diante da adversidade. Em Porto Alegre (RS) — Um grupo de mães gaúchas está transformando a dor provocada pelo diagnóstico de câncer infantil em resistência e solidariedade. Unidas pelo impacto de terem filhos acometidos pela doença, elas criaram uma rede que vai muito além do acolhimento: a iniciativa já ajuda dezenas de famílias no enfrentamento do câncer e expande um novo sentido para a maternidade na capital do Rio Grande do Sul.
Na capital gaúcha, onde cerca de 70 casos novos de câncer infantil são registrados por ano somente em centros de referência, histórias de desconsolo se convertem, diariamente, em energia renovada por laços de apoio mútuos que surgem nos corredores de hospitais e salas de espera. Essas mães criaram o grupo “Oncofriends”, hoje formado oficialmente por 15 famílias que se reúnem para fortalecer umas às outras em meio à batalha pela vida dos filhos, combinando escuta, partilha e recursos financeiros obtidos por meio de iniciativas solidárias.
A trajetória de Daniela Oppelt ilustra o drama comum a tantos pais gaúchos. Professora em Porto Alegre, ela recorda o momento exato do diagnóstico do filho Vicente, de apenas 9 anos: o menino foi surpreendido com um osteossarcoma de alto grau, tumor que afetou nada menos que 23 centímetros do fêmur. Foram meses de internação, quimioterapia intensa e risco real de morte, um período em que o cotidiano precisou ser abandonado para um luta diária pela vida acomodada em cadeiras de hospital do Porto Alegre.
Qual a motivação para a criação do grupo Oncofriends em Porto Alegre?
O surgimento do Oncofriends se deu justamente da necessidade de apoio durante os momentos mais sombrios do tratamento oncológico — fase em que mães, muitas afastadas do trabalho, sentem o peso de lidar sozinhas com responsabilidades familiares, financeiras e emocionais. Na capital gaúcha, a precariedade de redes públicas de apoio agrava ainda mais o cotidiano dessas famílias, como explica Daniela: “Chegamos muito perto da perda, mas hoje vejo que ele é um vitorioso. A minha força vem dele, da minha filha, Valentina, e de Deus”.
Clarissa da Rosa, criadora da rede, passou por múltiplas perdas e desafios: sua primeira filha morreu ainda criança, após um transplante de fígado em Porto Alegre. Já a segunda filha, Sophia, hoje com 11 anos, foi diagnosticada com sarcoma de Ewing (câncer raro), que exigiu cinco cirurgias e diversos protocolos médicos. “Nunca conseguimos nos distanciar do tratamento. Terminava um protocolo, meses depois, aparecia outro tumor”, relata.
De acordo com dados do Ministério da Saúde apurados pela equipe do Diário do Estado, o câncer infantil é a causa principal de morte por doença em crianças e adolescentes entre 1 e 19 anos no Brasil — contexto que mobilizou mães como Clarissa e Daniela a se unirem para aliviar a solidão e enfrentar as dificuldades do tratamento oncológico em Porto Alegre.
Como funciona a rede de solidariedade entre mães na capital gaúcha?
O Oncofriends não oferece apenas apoio emocional, mas também soluções para manutenção da renda das famílias afetadas. A cada dois meses, as integrantes organizam uma feirinha solidária em um espaço cedido pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ali são vendidos lanches, artesanatos e velas aromáticas, além de pizzas caseiras produzidas por Núbia Freitas, dona de casa que também integra o grupo. “É uma forma de ter renda em meio ao tratamento dos nossos filhos, já que não conseguimos manter um emprego fora de casa”, conta Núbia ao Diário do Estado.
Além disso, essa mobilização permite garantir remédios, transporte e outros custos recorrentes no tratamento. O grupo acolhe quem chega desacreditado e sem rumo, criando pertencimento e renovando esperanças. A presença física e o contato diário nos hospitais — especialmente no Instituto do Câncer Infantil — tornam a rede uma extensão da própria família, como explica Clarissa: “Da saúde mental a gente cuida com as outras mães. No Oncofriends, renovamos forças umas com as outras”.
A psicóloga Roberta Rodrigues acompanha de perto a rotina das mães e afirma que o apoio mútuo foi crucial para evitar colapsos mentais. “É preciso uma força muito grande. E elas nos passam isso diariamente”, aponta Roberta, que ressalta: muitas mães enfrentam quadros de depressão, ansiedade e burnout, contexto agravado pela invisibilidade do problema em parte dos centros urbanos do Rio Grande do Sul.
Por que o exemplo de Porto Alegre chama atenção no contexto do RS?
Conforme especialistas consultados pela reportagem do Diário do Estado, o enfrentamento do câncer infantil requer não só avanços médicos, mas redes humanizadas de acolhimento, algo ainda raro em cidades médias do RS. Em Porto Alegre, a experiência do Oncofriends se diferencia por aliar ações solidárias a cuidados com a saúde mental, inspirando cidades vizinhas a reproduzirem a iniciativa.
Não por acaso, o apoio mútuo entre mães ganha espaço como solução em áreas onde a assistência da rede pública é limitada. “Mãe é mãe. Não importa a forma que esse filho chegou aos teus braços. Tu podes ser mãe do teu filho, do filho da tua amiga, nem que seja por um pouquinho, naquele momento de acolhimento. Vocês fazem o melhor que podem com aquilo que têm”, diz Clarissa, sintetizando a filosofia do grupo, que acolhe também pais e familiares de outros núcleos.
Para ampliar o impacto, o grupo mantém diálogos constantes com assistentes sociais e psicólogos de hospitais da Capital — onde, segundo levantamento do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, cerca de 60% das famílias envolvidas em tratamentos prolongados relatam faltas recorrentes ao trabalho e dificuldades para manutenção financeira. O Oncofriends, nesse contexto, ocupa um papel que deveria ser do Estado, mas que, por enquanto, só a solidariedade tem preenchido.
Para a redação do Diário do Estado, este caso evidencia como mobilizações informais, fruto do sofrimento e do amor materno, podem suprir demandas negligenciadas pelo poder público. De acordo com o especialista em assistência social consultado pela nossa redação, há registros de novos grupos similares em Pelotas e Caxias do Sul, mas nenhum deles com o alcance e a constância do Oncofriends em Porto Alegre. A própria Justiça já reconheceu a importância de iniciativas desse tipo, concedendo, em março deste ano, um prêmio de reconhecimento a entidades não-governamentais envolvidas em apoio a famílias de crianças com câncer no estado.
O que acontece com as famílias após o diagnóstico do câncer infantil em Porto Alegre?
Logo após o diagnóstico da doença, a rotina das famílias sofre transformações profundas. Muitos pais precisam se afastar dos empregos, assumir despesas com medicamentos e transporte, além de se dividir entre o ambiente hospitalar e as responsabilidades com outros filhos. Segundo dados do Conselho Municipal de Saúde de Porto Alegre, essas dificuldades levam a quadros de empobrecimento familiar acentuado — e agravam os riscos à saúde mental dos cuidadores primários, especialmente das mães.
Relatos colhidos entre as mães do grupo apontam que a rede de apoio é, para muitos, a única possibilidade de sobrevivência emocional e financeira. “Se não fosse pelo grupo, eu teria enlouquecido”, relata uma das integrantes, que prefere não se identificar. O envolvimento das mães em iniciativas solidárias é visto por psicólogos como um mecanismo de resistência fundamental para a cidade, que historicamente sofre com carências em políticas públicas para saúde da criança.
O combate ao câncer infantil em Porto Alegre agora carrega o exemplo dessas mães que, mesmo devastadas pela dor, conseguiram criar um novo caminho — não apenas para seus filhos, mas para qualquer família que precise de acolhimento durante o tratamento oncológico.
A equipe do Diário do Estado esteve na feirinha solidária realizada nesta sexta-feira na Escola de Enfermagem da UFRGS e conversou de perto com as mães. Ouvimos relatos emocionados e confirmamos o impacto da iniciativa no cotidiano dessas famílias. Seguiremos acompanhando novas mobilizações do grupo Oncofriends na capital e traremos atualizações sempre que as ações forem ampliadas ou reconhecidas por órgãos estaduais.



