CIDADE (SP) — Um escândalo financeiro ressurgiu em São Paulo envolvendo a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), que está sob investigação por supostas irregularidades em um contrato destinado à instalação de rede Wi-Fi na capital paulista. A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia notificou a entidade, pedindo a devolução de ao menos R$ 906 mil, além de questionar R$ 12 milhões em notas fiscais suspeitas. Este desdobramento ocorre em um contexto já carregado de controvérsias, uma vez que a diretora da ONG, Karina Ferreira da Gama, é também a produtora do filme “Dark Horse”, que retrata a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Contratos milionários e irregularidades
A ONG ICB firmou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de internet gratuita em áreas periféricas. No entanto, a fiscalização da prefeitura encontrou uma série de notas fiscais irregulares ou canceladas, a maioria delas presuntamente utilizada para justificar esses gastos. O assunto já havia sido reportado em maio pelo DE, que revelou que a ONG apresentou R$ 16,5 milhões em notas questionáveis.
Na notificação datada de 1º de julho de 2026, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) solicitou à ONG a apresentação de contestações técnicas e documentos referentes a essas notas em um prazo de 30 dias. Caso não haja uma explicação convincente, os gastos desconsiderados poderão levar a consequências legais, incluindo processos judiciais.
As notas fiscais contabilizadas como irregulares incluem documentos de empresas como JR Feijão Ltda e Favela Conectada Serviço de Tecnologia Ltda. Este último fornecedor está atrelado a um ex-sócio preso sob acusações de feminicídio, que a polícia alega ter ligações com organizações criminosas, acrescentando um véu de preocupação pública à situação.
Reações e justificativas da ONG
Em resposta aos questionamentos da prefeitura, a empresária Karina da Gama defendeu a postura do ICB, afirmando que as notificações integram o processo regular de análise de parcerias com a administração pública. Segundo ela, a ONG está atenta às solicitações e se compromete a fornecer as justificativas necessárias para esclarecer as irregularidades apresentadas. “Estamos certos de que todos os fatos serão devidamente esclarecidos”, afirma.
Entretanto, as explicações da ONG poderão não ser suficientes para afastar o endurecimento de medidas legais, uma vez que a prefeitura enfatiza a realização de uma fiscalização rigorosa. A gestão municipal comunica que cada irregularidade identificada está sujeita a uma análise minuciosa, conforme estipulado pela Lei Federal nº 13.019/2014, que regula as parcerias entre organizações sociais e o governo.
A investigação se expande
O escândalo não se limita à esfera municipal. As irregularidades relatadas atraíram a atenção do Ministério Público e da Polícia Civil de São Paulo, que já iniciaram investigações paralelas. No início de junho de 2026, uma operação foi conduzida pela 2.ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, resultando em buscas e apreensões de documentos e equipamentos. Autoridades investigativas estão atentas às interações entre as organizações e possíveis desvios de recursos públicos, consolidando a gravidade da situação.
Os documentos levantados durante a operação indicam que as notas fiscais apresentadas pelo ICB carecem de esclarecimentos. Somente em relação à empresa Favela Conectada, dois documentos somam mais de R$ 1,2 milhão. Somam-se a isso mais de R$ 11 milhões em notas suspeitas de outras empresas ligadas à execução do contrato de instalação da rede de Wi-Fi.
O que se sabe até agora
De acordo com as informações coletadas pela reportagem, a situação compromete, além da reputação da ONG, também a imagem do governo municipal, que busca notadamente a transparência na aplicação dos recursos públicos. O prefeito Ricardo Nunes declarou que a Prefeitura de São Paulo está dedicada a uma fiscalização rigorosa e que as medidas tomadas visam assegurar o uso adequado de verbas que deveriam ser aplicadas em benefícios sociais.
As notas questionadas incluem valores que não especificam serviços prestados, dificultando a verificação do uso correto dos recursos. A gestão Nunes destacou que a falta de correlação entre as despesas e a descrição dos serviços configura um cenário para a irregularidade contábil, que deve ser devidamente esclarecida ONG.
Próximos passos e desdobramentos
À medida que o prazo para que a ONG apresente suas justificativas se aproxima, a pressão sobre a ICB e Karina Ferreira da Gama se intensifica. A situação também atraiu a atenção de diversos setores da sociedade civil e de especialistas em auditoria, que recomendam um aprimoramento da supervisão sobre as entidades que realizam parcerias com o governo.
O futuro da ONG e a efetividade da execução do projeto de instalação de Wi-Fi gratuito permanecem incertos. O próximo relatório de fiscalização da Prefeitura de São Paulo poderá determinar se as irregularidades serão sanadas, ou se a situação se tornará tema de intensificação de investigações e, possivelmente, responsabilizações legais. Representantes do governo do Estado de São Paulo foram procurados pela reportagem, mas até o momento não se pronunciaram sobre o caso.



