Jornal Diário do Estado

Professora é demitida após deputado criticá-la por usar camiseta com frase de artista

Ela lecionava história da arte na escola e usava blusa com a expressão 'Seja marginal, Seja herói', obra de Hélio Oiticica (1937-1980)

Uma professora de história da arte foi demitida de uma escola após o deputado Gustavo Gayer (PL) ter a criticado, por meio das redes sociais, por ela usar uma camiseta com a frase de um artista plástico renomado. A expressão em questão faz alusão à obra ‘Seja marginal, Seja herói’, de Hélio Oiticica (1937-1980), um dos mais importantes artistas brasileiros e que a docente frequentemente trabalha em sala de aula por ser tema de questões de vestibular.

“Sempre uso camisetas com obras de arte. É um jeito que tenho para conversar sobre arte com os alunos, de forma despretensiosa. Naquele dia expliquei e eles entenderam o contexto histórico da obra”, explicou a professora que não quis se identificar.

A professora relatou que trabalhava no Colégio Expressão, localizado em Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital, desde janeiro. O caso iniciou quando ela foi para a sala de aula com a camiseta pela primeira vez na terça-feira, 2, e compartilhou uma foto vestida com a blusa no perfil do Instagram. E dois depois, foi demitida, por ligação, após o deputado ter feito uma publicação a criticando.

De acordo com ela, a postagem feita pelo Gayer se tratava de uma montagem e contava com uma legenda falsa com os escritos “professora de história com look petista em sala de aula”, que ela não havia escrito na publicação original.

A professora ainda explicou que costuma ensinar sobre o artista plástico em sala de aula, por se tratar de um tema frequente como em uma questão do vestibular da Universidade de Campinas (Unicamp), de 2022. E ressaltou que sempre explica sobre as obras de arte e os respectivos contextos históricos. “Eles são adolescentes e têm bagagem para entender do que se trata”, completou.

Repercussão

Após o deputado publicar sobre o caso e mencionar repetidamente o nome da escola em que a professora trabalhava, os seguidores dele começaram a pressionar a escola nas redes sociais. A docente só soube da dimensão do caso quando recebeu uma ligação de um dos sócios da escola na noite de terça-feira, 2. 

“Recebi uma ligação dizendo que eu tinha causado muita dor de cabeça com uma foto que tinha postado. O tom da escola foi de me culpabilizar por isso, quando, na verdade, fui vítima do caso”, lamentou a professora.

A professora foi chamada para uma reunião com a escola no dia seguinte ao incidente e eles concordaram em tentar chegar a um acordo. No entanto, na quinta-feira, 4, ela recebeu uma ligação informando que havia sido demitida. Além disso, ainda descobriu através das redes sociais do Gustavo Gayer que ele havia comemorado a demissão antes mesmo dela ser informada.

“Fiquei muito abalada psicologicamente, com medo de isso afetar minha carreira”, desabafou.

Segundo o advogado da professora, Alexandre Amui, ela entrou com uma ação contra o deputado solicitando que os vídeos sejam removidos, que seja proibido novas postagens, que ela tenha direito de resposta e que seja indenizada por danos morais. Além disso, o defensor pretende ingressar com uma ação trabalhista contra a escola.

Nota divulgada pela escola na íntegra:

O Colégio Expressão e o Colégio Expressão Jr. têm o compromisso de oferecer uma educação de qualidade, pautada pela ética, respeito e diversidade. Por mais de 23 anos, nossa escola jamais induziu, militou ou abordou temas políticos, religiosos ou de gênero, pois acreditamos que essas escolhas devem ser respeitadas e discutidas no âmbito familiar.

Nossa missão é proporcionar aos nossos alunos uma formação integral, que prepare não apenas para o ingresso no mercado de trabalho, mas também para a construção de uma sociedade mais justa e democrática. Para isso, trabalhamos com um conteúdo pedagógico atualizado e alinhado com as exigências do Enem.

Ensinar conteúdos polêmicos em sala de aula pode ser um desafio para nós educadores. Porém, como profissionais da educação, temos a responsabilidade de apresentar esses temas de forma imparcial e crítica, sem tomar partido ou influenciar nossos alunos. É importante destacar que a escola não é lugar de propagar ideologias politicas, religiosas ou preconceituosas. Nossa missão é formar cidadãos conscientes e éticos, capazes de compreender e respeitar as diferenças culturais e ideológicas.

Reconhecemos que essa é uma tarefa complexa, mas estamos comprometidos em buscar constantemente o aprimoramento para oferecer um ensino de qualidade.

Contamos com a confiança de todos para seguirmos juntos nesso caminhada em busca de uma educação de qualidade, respeito e valorização da diversidade.

Nota do Sinpro Goiás na íntegra:

“O Sindicato dos Professores do Estado de Goiás, Sinpro Goiás, além de repudiar com veemência a atitude covarde e irresponsável do dep. Gustavo Gayer, informa que entrou com uma ação na Justiça Federal contra ele, assinada também pelo Sintego, Fitrae-BC e Contee, solicitando a exclusão das redes sociais disseminadoras de ódio e falsas notícias, incluindo-se a página dele que persegue professores/as em nome do monitoramento da suposta doutrinação.

O Sinpro Goiás também ajuizou outra ação, civel, para que sejam reparados os danos materiais e morais sofridos pela professora. Está também em fase final de elaboração a ação trabalhista contra o Colégio, em caso de consumação jurídica da demissão da docente.

O Sindicato dos Professores do Estado de Goiás está dando todo o suporte à docente e entende que o ataque covarde contra ela, protagonizado por esse ignóbil deputado, arquitetado na base da fake news, que distorce o objeto em estudo que é a cultura marginal no Brasil traduzida na resistência do povo excluído contra a opressão, é um ataque a todos os professores e professoras. É um ataque à educação e à sociedade como um todo.

O Sinpro Goiás utilizará todos os meios legais possíveis para defender a categoria docente que representa contra tais ofensivas fascistas desse senhor oportunista que quer fazer crescer suas redes sociais e obter resultados eleitorais por meio da destruição de reputações, da dor e do sofrimento alheios, como fez durante os momentos mais greves da Pandemia da Covid19 ao divulgar notícias falsas sobre a doença, vacinas e tratamentos médicos.

O Sinpro Goiás informa também que já realizou representações contra Gustavo Gayer no Ministério Público de Goiás e Federal. O Sinpro, que completa 60 anos de história, seguirá firme e vigilante, pronto a defender os professores e as professoras com toda a força da sua representação e da lei.”