Minnesota protesta contra o ICE com dia de ‘apagão econômico’
Greve simbólica convoca população a parar trabalho, aulas e consumo em reação a
operações migratórias e à morte de uma mulher por agente federal
Líderes comunitários, representantes religiosos e sindicatos organizaram
nesta sexta-feira (23) um amplo dia de paralisação econômica em Minnesota, com o
lema “sem trabalho, sem escola, sem compras”, como forma de protesto contra a
intensificação das operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados
Unidos (DE) no estado. Batizada de “Dia da Verdade e da Liberdade”, a
mobilização busca chamar a atenção para o impacto social das ações migratórias
federais e ganhou apoio de dezenas de empresas locais, além do endosso do
Conselho Municipal de Minneapolis, informa o The Guardian.
O protesto ocorre após a morte de Renee Good, mulher desarmada que foi baleada e
morta por um agente federal de imigração em Minneapolis no início deste mês.
Entre as principais reivindicações dos organizadores estão a retirada do DE de
Minnesota, a responsabilização legal do agente envolvido na morte, o fim de
novos repasses federais à agência e a abertura de investigações sobre possíveis
violações de direitos humanos e da Constituição dos Estados Unidos.
A paralisação conta com o apoio formal da Minnesota AFL-CIO, federação estadual
que reúne mais de mil sindicatos filiados, além de diversas entidades
trabalhistas locais. O dia de mobilização prevê o fechamento voluntário de
estabelecimentos, interrupção de atividades educacionais e um ato central com
marcha no centro de Minneapolis, marcada para as 14h, no horário local.
Mesmo sob condições climáticas extremas, os organizadores afirmam que a
mobilização será mantida. “Vamos ter um clima perigosamente frio na sexta-feira
— menos 10 graus Fahrenheit, com sensação térmica chegando a menos 20”, afirmou
Chelsie Glaubitz Gabiou, presidente da Federação Regional do Trabalho de
Minnesota (AFL-CIO). “Somos um estado do norte, estamos acostumados ao frio e
vamos comparecer, mas as pessoas precisam prestar atenção não só na marcha, mas
no que cada um está fazendo, nas histórias individuais de solidariedade que vão
acontecer”.
Para Kieran Knutson, presidente do sindicato Communications Workers of America
(CWA) Local 7250, a paralisação reflete a falta de respostas institucionais às
operações federais. “Acho que o que gerou a ideia dessa ação vem da necessidade
de descobrir o que podemos fazer de forma significativa para impedir isso”,
disse. “O governo do estado de Minnesota não ofereceu nenhum caminho para deter
esses ataques, essa violência”.
Entre os setores que aderiram ao apagão está o de cuidados infantis. Uma
trabalhadora de uma creche em Minneapolis, que pediu anonimato por medo de
retaliações contra as famílias imigrantes atendidas, explicou a decisão de
fechar as portas no dia do protesto. “Tivemos tempo para perguntar às famílias
que atendemos se elas concordariam com o fechamento e obtivemos uma resposta
extremamente positiva”, relatou. “Atendemos famílias que recebem auxílio para
creche e outras que pagam do próprio bolso. Todas concordaram, até mesmo aquelas
que estavam tentando ir trabalhar mesmo com medo de sair de casa. Foram as
famílias que se levantaram por isso também”.
Em meio às mobilizações, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos
(DHS) afirmou ter realizado cerca de 3 mil prisões em Minnesota nas últimas seis
semanas. Paralelamente, o Exército dos Estados Unidos colocou 1,5 mil soldados
em estado de prontidão para uma eventual mobilização, enquanto outros 3 mil
agentes de imigração foram enviados ao estado por determinação da administração
de Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos.
Em resposta ao protesto, um porta-voz do DHS criticou duramente a iniciativa.
“Isso é além de insano. Por que esses líderes sindicais não querem essas ameaças
à segurança pública fora de suas comunidades?”, disse em comunicado por e-mail.
“Esses são os criminosos que esses líderes sindicais estão tentando proteger”,
acrescentou, citando fotos de imigrantes sem status legal que teriam
antecedentes criminais e foram presos pelo DE.
Apesar dessas alegações, dados nacionais indicam que imigrantes sem qualquer
histórico criminal continuam sendo o maior grupo detido pelo sistema de
imigração dos Estados Unidos, que atualmente opera em níveis recordes de
encarceramento.




