Racismo ambiental em Campinas: moradores mais vulneráveis sofrem mais com a crise climática

Racismo ambiental em Campinas: moradores mais vulneráveis sofrem mais com a crise climática

CAMPINAS (SP) — As mudanças climáticas e os eventos meteorológicos extremos estão impactando de forma desproporcional as populações de favelas e periferias na cidade, revelando um cenário de racismo ambiental. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 140.784 pessoas vivem em 118 favelas em Campinas, sendo que 66,6% delas são pretas ou pardas, um percentual que evidencia a desigualdade racial no acesso a infraestrutura e moradias dignas.

Esse fenômeno é chamado de racismo ambiental porque atinge principalmente comunidades onde a precariedade das construções e a falta de serviços básicos agravam os efeitos das mudanças climáticas. Em Campinas, a situação reflete um problema estrutural que afeta diretamente moradores de áreas vulneráveis, como o Parque Shalom, onde a frentista Larissa Brito reside. Ela relatou aos veículos de imprensa que as moradias de madeira e telhas de fibra não oferecem proteção adequada contra temperaturas extremas. “Quando é tempo de frio, a gente sofre bastante, porque entra muito vento, as crianças ficam doentes, às vezes internadas com bronquiolite”, disse. “E no calor, é insuportável”, completou.

Precariedade das moradias agrava impactos climáticos

A comunidade do Parque Shalom é um exemplo de como a falta de infraestrutura urbana potencializa os riscos. A líder comunitária Ana Veronezzi, que atua no Jardim Rosália, também enfrenta desafios. Há dois anos, um vendaval destruiu o barracão onde eram realizadas reuniões e palestras comunitárias, além de danificar casas da região. Segundo ela, a Prefeitura realocou as famílias com auxílio-aluguel após o incidente, mas o espaço comunitário foi demolido. “A gente tinha um barracão onde nós fazíamos reuniões, tinham palestras. Com esse vendaval, as casas e o barracão foram destelhados”, contou.

A situação em CAMPINAS demonstra como as populações mais vulneráveis sofrem de forma desproporcional os efeitos da crise climática. Os dados do IBGE revelam que 35% dos moradores dessas comunidades vivem em trechos sem árvores, e 62% dos domicílios não têm bueiro ou boca de lobo no entorno, aumentando a exposição a enchentes e ondas de calor.

Desigualdade racial se reflete na vulnerabilidade ambiental

Para a doutora e pesquisadora da Unicamp Maíra Silva, o cenário evidencia uma violação histórica de direitos. “O racismo ambiental se trata de violações de direitos que acontecem historicamente com as populações mais vulnerabilizadas. A gente sabe que as respostas aos desastres que esses eventos acometem são piores, são mais demoradas do que para outras populações”, afirmou em declaração pública. Ela destaca que a ação do Estado muitas vezes difere conforme a região afetada, aprofundando as desigualdades.

Dos 140.784 residentes em favelas de Campinas, 93.847 são pretos ou pardos, o que corresponde a dois terços do total. Esse percentual reforça a tese de que a vulnerabilidade climática tem cor e classe social, afetando majoritariamente populações que historicamente enfrentam exclusão urbana e falta de investimentos públicos.

Ações da prefeitura buscam mitigar os efeitos

Em nota oficial, a Prefeitura de Campinas informou que mantém ações de acolhimento para pessoas em situação de vulnerabilidade, com suporte por meio de programas sociais. A administração municipal também disponibiliza cadastro na Companhia de Habitação Popular de Campinas (Cohab) para acesso a moradias dignas, além de um telefone para contato: (19) 3119-9500. As medidas, no entanto, ainda enfrentam desafios para atender a demanda de uma população que cresce em áreas de risco.

O racismo ambiental em Campinas expõe a urgência de políticas públicas que integrem justiça social e adaptação climática, garantindo que as comunidades mais afetadas tenham condições de enfrentar os eventos extremos que se tornam cada vez mais frequentes.

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