O Lollapalooza 2026 levou 285 mil pessoas ao Autódromo de Interlagos, nos três dias somados de festival. O som baixou, mas ficou aquela sensação de que o festival conseguiu resumir bem o que se destaca nos gráficos do Spotify, no TikTok e em outros rankings e listas.
Foi uma edição de extremos: de um lado, uma curadoria que trouxe a nata do que é relevante no pop atual; do outro, o velho drama de quem tenta voltar para casa após uma busca por hits, brindes e diversão.
Entre os acertos que deixaram a vida do público menos sofrida, a água de graça e as filas reduzidas foram vitórias. A gestão do terreno também funcionou, e a lama, vilã de tantas edições passadas, foi domada com um manejo mais inteligente do solo.
✅ O QUE DEU CERTO
APOSTAS NO AUGE
O festival acertou ao escalar cinco artistas indicadas à categoria de Revelação no Grammy nos últimos dois anos. A curadoria manteve o evento conectado com o que há de mais atual na música global. O line-up desta edição contou 71 artistas, sendo 17 estreantes no Brasil. O line-up comprovou que o Lollapalooza Brasil ainda tem cacife para trazer os nomes “do momento” ao país. O domingo de festival foi um dos melhores dias de Lolla em muito tempo, pela diversidade dos nomes e pela importância daqueles artistas na música pop atual.
ÁGUA DE GRAÇA
A instalação de pontos estratégicos com oferta de água gratuita foi um dos pontos altos, facilitando a hidratação em dias de calor.
SEM MUITAS FILAS
A fluidez no atendimento e no acesso aos serviços internos melhorou consideravelmente, evitando grandes gargalos para o público. Havia filas, é claro, porque estamos falando de um evento que recebe até 100 mil pessoas por dia. A questão é que bastava procurar opções mais afastadas para poder, com alguma tranquilidade, comprar bebida, comida, tomar água ou ir ao banheiro.
MAIS CUIDADO COM A LAMA
Após edições marcadas por terreno difícil, houve um manejo mais eficiente do solo do Autódromo para minimizar o impacto das chuvas. O clima colaborou, é claro, mas choveu muito na quinta-feira anterior ao evento. Mesmo assim, placas de plástico e uma maior quantidade de brita domaram a maior parte do lamaçal.
❌ ✅O QUE DEU ERRADO
VOLTA COMPLICADA PARA CASA
Na hora de ir embora, o clima de festa passou longe. Relatos de esperas de duas horas para acessar o trem e corridas de aplicativo batendo os R$ 150 mostraram que a logística de saída ainda é o ponto fraco do evento. Ainda falta uma programação mais “esticada”, com atrações que passem da meia-noite e façam uma parte maior do público permanecer no Lolla. A ideia de segurar as pessoas com DJs após os headliners faz sentido, mas ainda não é plenamente executada pelo festival: o êxodo simultâneo após os shows principais ainda gera um gargalo difícil de engolir.
POUCAS SOMBRAS
A falta de árvores no Autódromo continua sendo um obstáculo sob sol forte. Sem espaços de sombra suficientes, o público precisou improvisar e disputar frestas menos quentes ao lado de estandes e ativações de marcas.
ATRAÇÕES BRASILEIRAS
O palco sentiu um desequilíbrio caseiro. Embora a produção bata no peito para dizer que mais da metade do line-up foi nacional (incluindo Negra Li, Mundo Livre S/A e Edson Gomes), a percepção geral foi de que o brilho brasileiro ficou escondido na programação, longe dos holofotes principais.
PROBLEMAS NO CARDÁPIO
No cardápio, a conta não fechou para muitos: porções pequenas, preços que chegavam a R$ 60 e pouquíssima atenção para quem tem restrições alimentares. Para quem é intolerante a glúten ou lactose, a salvação eram os espetinhos ou o “kit sobrevivência” de cinco itens industrializados que o festival permitiu levar de casa.
COMO FOI CADA DIA?
SEXTA-FEIRA
O primeiro dia foi marcado por um choque geracional e estético que funcionou bem. De um lado, o festival resgatou a alma roqueira em diversos momentos; de outro, foi engolido por uma multidão de fãs devotos de Sabrina Carpenter, que confirmou seu status de fenômeno pop. A divisão de públicos mostrou a versatilidade da curadoria, conseguindo equilibrar a nostalgia das guitarras com o brilho chiclete das novas paradas de sucesso.
SÁBADO
O segundo dia foi o santuário das grandes vozes e da performance visceral. Marina e Lewis Capaldi entregaram entregas vocais impecáveis, mas quem realmente roubou a cena foi Chappell Roan, consolidando sua ascensão meteórica diante de uma plateia que parecia hipnotizada. Foi um dia de forte carga emocional e artistas que dominam o palco não só pelo som, mas pela presença e conexão direta com o público.
DOMINGO
Para encerrar, o domingo apostou no contraste entre a diversão e a intensidade. Tyler, The Creator entregou um show divertido, cheio de energia e inventividade, provando por que é um dos nomes mais criativos da sua geração. No contraponto, Lorde trouxe uma apresentação visceral e densa, fechando o festival com uma entrega artística que dividiu as atenções de um público que, apesar do cansaço, ainda buscava uma experiência profunda antes de enfrentar a maratona da volta.




