Reinaldo relembra a carreira e revela como a fama de “resenha” acabou impactando sua trajetória no futebol brasileiro, especialmente durante passagens marcantes por clubes como São Paulo, Grêmio e atualmente pelo Mirassol. A sinceridade e o bom humor do lateral, destaque do Brasileirão, se consolidaram ao longo dos anos, mas ele admite que essa característica também trouxe desafios inesperados para ser reconhecido por desempenho e performance.

Nesta quarta-feira (19), o jogador de 36 anos participou de uma entrevista exclusiva ao podcast Abre Aspas e compartilhou histórias da infância em Porto Calvo (AL), desde as dificuldades financeiras, passando por trabalhos informais para ajudar a família, até a viagem que mudou sua vida rumo a um dos maiores clubes do país. Reinaldo enfatizou que viver de maneira simples sempre foi importante na sua formação como profissional e ser humano, algo que leva consigo mesmo após conquistar títulos como o Campeonato Paulista e a participação por clubes de elite do futebol nacional.

De acordo com Reinaldo, apesar de ter realizado o sonho de dar uma casa para a mãe e construir uma carreira sólida, a imagem do atleta sempre sorridente e brincalhão o deixou estigmatizado perante críticos e parte do público. O lateral defende que, além do carisma, seus números dentro de campo também são prova de contribuição decisiva por onde passou. “As pessoas ficaram muito na parte da resenha e não olharam tanto para números e performance. Acho que isso pegou muito. Mas agora, no fim da carreira, todo mundo está vendo que não é só resenha, tem futebol também”, afirmou o jogador.

Paixão pelo futebol e superação desde a infância

Reinaldo nunca esqueceu as origens humildes e os primeiros desafios que enfrentou em Porto Calvo, no interior de Alagoas. “Eu saía para trabalhar cedo, às vezes vendia no carrinho de mão, outras ajudava na feira ou trabalhava no frigorífico com meus irmãos. Isso me fez valorizar cada conquista”, recordou o lateral, ressaltando como a infância difícil ajudou a construir disciplina e senso de superação. O apoio materno foi fundamental não apenas para a formação esportiva, mas também para enfrentar adversidades como a tuberculose em início de carreira no Sport.

As dificuldades em se firmar no início da trajetória, especialmente na transição dos campos amadores para o futebol profissional, exigiram resiliência. “Eu nunca tive base. Minha base era o futsal, as peladas de bairro. Treinava quando dava, porque nem sempre tinha dinheiro para passagem”, contou. Ao chegar ao estado de São Paulo, o frio e o ritmo intenso de treinamentos nos clubes menores do interior eram obstáculos diários: “No começo acordei várias vezes às 5h da manhã para treinar, mesmo tremendo de frio. Isso me preparou para aproveitar as chances que tive no profissional.”

Já em equipes organizadas, como o Penapolense e o Paulista de Jundiaí, passou pela adaptação tática e mudou de posição, migrando do meio-campo para a lateral esquerda por decisão dos treinadores. Foi assim que ganhou notoriedade e chegou ao Sport, onde uma grave infecção colocou sua carreira em risco. “Quando me passaram o diagnóstico, pensei que nunca mais ia jogar. Mas com apoio do clube e tratamento da minha mãe, superei e voltei ainda mais forte”, relatou.

A passagem marcante pelo São Paulo e o impacto das redes sociais

A identificação com o São Paulo FC surgiu muito antes de vestir a camisa tricolor. Reinaldo se emocionou ao lembrar do orgulho de jogar ao lado de ídolos como Rogério Ceni, Aloísio Chulapa e Luis Fabiano. “Realizei o sonho de garoto, não só de jogar uma vez, mas de vestir por quase dez anos. Saí de lá pela porta da frente e sempre com relação boa com o clube”, destacou, citando também uma das partidas de maior destaque, quando marcou dois gols em um clássico contra o Corinthians no Morumbi.

Apesar do amor declarado pelo Tricolor paulista e dos números expressivos — mais de 800 jogos como profissional —, o lateral viveu períodos de críticas e pressões que afetaram sua confiança. Segundo ele, durante momentos conturbados da torcida, olhar comentários negativos nas redes sociais acabou agravando a insegurança: “Eu entrava nos jogos com medo de errar, travado pelo que lia online. Depois precisei amadurecer para lidar com isso, buscar apoio na família e parar de me prender ao que diziam”, lembrou.

Reinaldo afirma que o amadurecimento o fez entender os ciclos do futebol, focar no trabalho e cuidar do mental. “Quando voltei ao São Paulo e no tempo pelo Grêmio, busquei mostrar futebol de alto nível, sem medo – como aprendi com técnicos como Fernando Diniz e Renato Gaúcho. Isso fez toda a diferença para voltar a ser reconhecido dentro de campo e recuperar a confiança até mesmo nas cobranças de pênaltis, uma das minhas especialidades”, explicou.

Mirassol, liderança e sonhos com a Seleção

No Mirassol, Reinaldo tornou-se uma espécie de mentor para o elenco jovem e referência de liderança dentro do clube. “Quando cheguei, muitos acharam que seria o fim da minha carreira na Série A, mas provei o contrário. Trabalhei em silêncio, busquei melhorar e ajudei a levar o Mirassol à Copa do Brasil e a conquistar bons resultados no Campeonato Brasileiro”, explicou, lembrando ainda o apoio da diretoria e comissão técnica para criar um ambiente saudável no clube.

A performance na última temporada chamou a atenção de torcedores e comentaristas, que pediram sua convocação para a Seleção Brasileira, especialmente em um momento de rodízio na lateral esquerda da equipe nacional. “Sonhar não custa nada e sigo trabalhando firme. Se um dia a oportunidade aparecer, estarei pronto. Mas se não acontecer, sou realizado pelo que a carreira me proporcionou e seguirei torcendo pela Seleção”, garantiu, fortalecendo sua postura de persistência e resiliência na reta final da trajetória profissional.

Reinaldo também comentou sobre as razões da escassez de laterais de destaque no Brasil e deixou conselhos para os jovens: “Muitos querem ser atacantes, mas é importante valorizar a posição. Tem muita gente boa surgindo, a safra é forte, e o importante é amadurecer defensivamente e saber chegar ao ataque. Sempre incentivei isso nos clubes onde atuei”, disse, destacando também a importância do trabalho coletivo nas campanhas recentes.

Os sonhos futuros incluem seguir no futebol após a aposentadoria dos gramados. “Quero estudar para ser auxiliar ou treinador, porque amo a rotina do futebol. Aprendi com grandes técnicos e quero transmitir esse conhecimento ao novo geração. Ainda não estabeleci quando vou parar, vou levando um ano de cada vez, sempre que meu corpo e desempenho permitirem”, afirmou Reinaldo.

Ao ser questionado se é mais valorizado por suas brincadeiras do que pelo desempenho técnico, o lateral admite que, se no passado a fama de “resenha” trouxe dificuldades para conquistar reconhecimento, hoje isso está mudando: “Tenho orgulho dessa parte leve, de contagiar o ambiente. Mas sei a minha capacidade e números, quem quiser pode conferir. Nos últimos anos, as pessoas começaram a enxergar que não sou só resenha: entrego resultado, gols e qualidade tática”, frisou, destacando a evolução da percepção pública sobre seu legado.

Por fim, Reinaldo celebra o cotidiano tranquilo em Mirassol, onde retomou hábitos simples e a proximidade com a torcida local. “Adoro poder comprar fruta no mercado, tomar caldo de cana e andar tranquilo pelo bairro. Em cidades menores, tenho segurança para encontrar os torcedores, tirar fotos, sem a pressão dos grandes centros. Isso me reaproximou das raízes e trouxe paz, o que se reflete até no meu desempenho em campo”, conclui o lateral, destacando o desejo de seguir contribuindo para o clube e para o futebol brasileiro nos próximos anos.