‘Bacellar me avisou’: traficante relata conversa com ex-deputado TH Joias, que teria confirmado vazamento de operação contra CV
Relatório da Polícia Federal (PF) detalha troca de mensagens, ligações telefônicas e movimentações na véspera da Operação Zargun. Cinco pessoas foram indiciadas por suspeita de ligação com o Comando Vermelho.
Rodrigo Bacellar, TH Joias e mais 3 são indiciados pela PF por ligação com o Comando Verme [imagem]
A Polícia Federal concluiu que o deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil) teria avisado o então deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, sobre a deflagração da Operação Zargun, que mirava integrantes do Comando Vermelho (CV).
As informações fazem parte do relatório final da investigação. O documento aponta que um traficante da facção afirmou que “Bacellar me avisou”, ao relatar a comunicação prévia sobre a ação policial.
De acordo com o documento, a PF identificou troca de ligações e mensagens na véspera da operação, deflagrada em 3 de setembro de 2025. A investigação sustenta que houve vazamento de informações sigilosas, o que teria permitido a retirada de pertences e possível destruição de provas no endereço ligado a TH Joias, na Barra da Tijuca.
A Operação Zargun resultou no cumprimento de 18 mandados de prisão preventiva e 22 de busca e apreensão, além do sequestro de bens que somam R$ 40 milhões. A apuração foi conduzida pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da PF em conjunto com o Ministério Público Federal.
CONVERSAS E AVISO PRÉVIO
Segundo o relatório, a PF verificou que, na tarde de 2 de setembro — véspera da operação — Bacellar manteve contato telefônico com TH Joias. Para os investigadores, a comunicação não foi “casual”, mas parte de uma atuação coordenada para alertar o parlamentar, que também é investigado por tráfico de drogas, corrupção e lavagem de dinheiro.
TH Joias acabou não sendo encontrado em casa no momento do cumprimento dos mandados. Conforme a PF já havia apontado no início das investigações, o imóvel apresentava indícios de esvaziamento prévio, com ausência de itens relevantes para a investigação.
O relatório descreve que o suposto aviso teria permitido a adoção de “contramedidas”, incluindo a retirada de objetos do imóvel. Em outra frente da investigação, a PF também analisou interceptações telefônicas e dados telemáticos para reconstruir a dinâmica das comunicações entre os envolvidos.
O desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), Macário Judice Neto, que chegou a ser preso durante as investigações, não foi indiciado.
Segundo a PF, a decisão levou em conta as regras previstas na Lei Orgânica da Magistratura, que estabelece procedimento específico para responsabilização de juízes.
Bacellar foi preso no dia 3 de dezembro, na Operação Unha e Carne, desdobramento das apurações sobre o vazamento. No dia 9, ele deixou a prisão após decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que substituiu a detenção por medidas cautelares.
ESQUEMA COM O COMANDO VERMELHO
A PF afirma ter identificado “um esquema de corrupção envolvendo a liderança da facção no Complexo do Alemão e agentes políticos e públicos”. Ainda segundo a corporação, “a organização infiltrava-se na administração pública para garantir impunidade e acesso a informações sigilosas, além de importar armas do Paraguai e equipamentos antidrone da China, revendidos até para facções rivais”.
Os investigados respondem por organização criminosa, tráfico internacional de armas e drogas, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.
TH Joias foi preso por suspeita de negociar armas e acessórios para o Comando Vermelho. Ele assumiu o mandato na Alerj em junho, mas perdeu o cargo após a prisão.
O QUE DIZEM AS DEFESAS
A defesa de Rodrigo Bacellar afirmou: “Em relação ao Presidente da Assembleia Rodrigo Bacellar a defesa esclarece que inexiste qualquer elemento probatório para pretender lhe imputar qualquer participação em ilicitude e ou vazamento, ao contrário, só há ilações desamparadas. A defesa destaca ser descabido o indiciamento efetivado, realizado muito mais para justificar a ação açodada da Autoridade Policial, do que respaldada em elementos sérios e comprometedores”.
Já a defesa de TH Joias declarou: “A defesa de TH Joias informa aos jornalistas e nega peremptoriamente qualquer participação de Thiego em qualquer possibilidade de vazamento ou informações a qualquer organização criminosa do Estado do Rio de Janeiro. Sua relação com o deputado Rodrigo Bacelar era uma relação urbana, uma relação de parlamento entre colegas de parlamento. Assim como TH Joias jamais conheceu e sequer teve qualquer contato com o desembargador Macário ou qualquer outro personagem deste inquérito policial e desta confusão em que meu cliente se encontra”.
DE tenta contato com as defesas dos demais indiciados.




