Rogério de Andrade, conhecido contraventor ligado à história do jogo do bicho no Rio de Janeiro, permanece preso no Presídio Federal de Campo Grande após decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) publicada nesta segunda-feira (13). O caso que envolve Andrade, considerado de alta periculosidade, volta a ganhar destaque após o Tribunal negar, no domingo, mais um pedido de habeas corpus para o bicheiro, preso desde outubro de 2024 sob a acusação de ser o mandante do assassinato do rival Fernando Iggnácio.
De acordo com o STJ, a manutenção de Rogério Andrade no regime disciplinar diferenciado (RDD) é medida proporcional à gravidade dos crimes atribuídos ao contraventor. Segundo o juízo responsável pelo caso, a transferência para Campo Grande, considerada a penitenciária de mais alta segurança do país, se baseia em relatórios que apontam o réu como ameaça à ordem pública, especialmente pela sua extensa ficha criminal e histórico de envolvimento com delitos violentos na capital fluminense.
Documentos anexados ao processo revelam que o grupo de promotores do Gaeco, órgão do Ministério Público especializado no combate ao crime organizado, viu no acusado uma articulação constante entre diferentes núcleos do submundo do Rio. As tentativas da defesa em reverter o regime rigoroso aplicado a Rogério vêm sendo negadas de maneira contínua, inclusive em decisões anteriores, como a registrada em janeiro deste ano.
Entenda o caso e as batalhas judiciais
A prisão de Rogério Andrade ocorreu em meio à maior intervenção do Ministério Público do Governo do Rio na luta contra as organizações criminosas que dominam o jogo ilegal e a lavagem de dinheiro. Segundo os promotores, sua permanência em um presídio federal visa evitar que ele continue movimentando suas redes no estado, já que investigações apontam a existência de liderança ativa, mesmo quando o contraventor estava em unidades prisionais no próprio Rio de Janeiro.
A defesa de Andrade protocolou pedidos para acabar com o RDD, considerado um regime extremamente restritivo, mas o STJ manteve o entendimento de instâncias inferiores, afirmando que as restrições são adequadas diante da natureza dos crimes imputados e do risco à ordem pública. A decisão mais recente do domingo reforça outras negativas que já haviam sido expedidas pela Justiça do Rio, fortalecendo o bloqueio jurídico para que o réu deixasse o presídio federal antes do fim da sentença, previsto para ao menos até 2026.
No histórico de ações judiciais, chama a atenção o papel da 8ª Câmara Criminal, que chegou a suspender temporariamente o RDD, permitindo um retorno momentâneo de Andrade para o sistema prisional fluminense. Se não fosse o recurso do Ministério Público, que rapidamente restabeleceu o regime federal, a presença do bicheiro em solo carioca poderia, segundo promotores, reacender conflitos ligados à disputa de territórios do jogo do bicho no município.
Os bastidores da guerra pelo jogo do bicho
O nome de Rogério de Andrade despontou no cenário do crime ainda nos anos 1990, relacionado a uma das famílias mais poderosas da contravenção, liderada pelo célebre Castor de Andrade, seu tio. Com a morte de Castor em 1997, uma nova configuração de poder se estabeleceu no submundo do jogo, dividindo a herança do império entre seu filho Paulinho Andrade e o genro Fernando Iggnácio. Rogério considerava-se preterido nessa partilha, alimentando uma rixa que evoluiu para uma longa e sangrenta disputa no submundo carioca.
Com o assassinato de Paulinho em 1998, atribuído a Rogério por investigações da época — embora nunca plenamente esclarecido —, o caminho ficou aberto para o avanço sobre o território e negócios deixados pelo primo. Não satisfeito, nos anos seguintes, Rogério empreendeu uma combatida ofensiva também contra Iggnácio, acirrando ainda mais a briga que, conforme relatórios da Polícia Federal, resultou em cerca de 50 mortes entre 1999 e 2007.
Este longo capítulo de violência e intrigas no universo do jogo ilegal não foi exclusividade dos integrantes diretos das famílias: há documentos que indicam o assassinato de policiais e outros agentes públicos, acusados de atuar como facilitadores das atividades dos contraventores. O episódio revela a capilaridade criminosa e a dificuldade das autoridades em neutralizar as diversas ramificações dessas organizações.
Relembre o assassinato de Fernando Iggnácio
O estopim para a mais recente prisão de Rogério Andrade foi a execução de seu velho rival, Fernando Iggnácio, em 10 de novembro de 2020, em um heliponto na zona oeste do Rio. O crime impressionou não apenas pela ousadia, mas também pelos detalhes de sua execução: segundo apuração feita na ocasião, Iggnácio foi emboscado logo após desembarcar de um helicóptero vindo de Angra dos Reis, e foi alvejado com tiros de fuzil calibre 556 quando caminhava para seu carro.
O inquérito da Polícia Civil do Rio de Janeiro indica que a motivação para o crime foi a disputa pelo controle de pontos tradicionais do jogo do bicho e de máquinas de caça-níqueis na região metropolitana. A prisão de Rogério só foi possível após uma longa investigação, que incluiu quebras de sigilo, levantamentos de bens e interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça.
Este episódio resultou em grande repercussão, reacendendo debates sobre a capacidade de influência de organizações criminosas mesmo dentro das cadeias. Segundo especialistas em segurança, há sempre o risco de lideranças como Andrade manterem comunicações externas, fazendo com que o rigor do regime federal e das restrições do RDD seja visto como vital para proteger a população e inibir novas ordens criminosas emanadas do cárcere.
Impacto político e perguntas para o futuro
Ao analisar o caso de Rogério Andrade, é impossível dissociar o impacto em diferentes esferas do poder público e na segurança do Estado. A mobilização do Ministério Público, das forças policiais e do próprio Judiciário é sintomática da inquietação quanto à influência contínua do contraventor no Rio mesmo após décadas de investigações e prisões. O que esperar para os próximos dias? Autoridades do setor de segurança sinalizam que a vigilância será mantida e que novas operações podem ocorrer para sufocar qualquer tentativa de reorganização do crime organizado.
Analistas políticos e estudiosos do sistema penal ressaltam que a prisão de figuras centrais como Rogério Andrade faz parte de um processo mais amplo de enfrentamento às milícias e ao jogo ilegal. O fortalecimento de ações conjuntas entre diferentes órgãos do Governo do Rio tem sido constante, segundo eles, como caminho necessário para minar o ciclo de renovação das lideranças criminosas na região.
O entorno da defesa do contraventor mantém, até o momento, uma postura de silêncio. Procurado, o advogado responsável não respondeu aos pedidos de contato enviados até esta terça-feira (14). O clima de tensão permanece, com promotores atentos a qualquer manobra jurídica que possa tirar Rogério do regime máximo a que está submetido.
Vale ressaltar que, embora o caso de Rogério de Andrade seja um dos mais emblemáticos na crônica policial brasileira, ele lança luz sobre a necessidade de reformas profundas no sistema de justiça criminal e penitenciário. “Não basta prender, é necessário cortar as linhas de comando, isolar financeiramente e desarticular a penetração dessas estruturas criminosas nas esferas política e econômica”, afirmou um representante do Ministério Público em recente audiência pública no Legislativo estadual.
O Tribunal de Justiça, por sua vez, reforçou em nota que toda a atuação segue os protocolos internacionais de direitos humanos, mas que a prioridade é garantir a segurança da coletividade diante do risco causado por criminosos de atuação notoriamente ampla e violenta. Relatórios do Departamento Penitenciário Nacional apontam que, desde o início da aplicação do RDD, houve redução significativa na comunicação de líderes com o exterior da prisão.
O processo de enfrentamento ao crime organizado no Rio de Janeiro continua desafiador. De acordo com especialistas, além das ações repressivas, é preciso atentar para os impactos dessas estruturas ilegais na vida de comunidades inteiras. O caso Rogério Andrade, com seus desdobramentos jurídicos e criminais, permanece como um dos símbolos da complexa relação entre contravenção, violência e poder no Brasil.



