Romulo Fróes lança ‘Boneca Russa’ com samba-poético em voz e baixo

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Romulo Fróes lança o álbum ‘Boneca russa’ nesta quarta-feira de cinzas, 18 de fevereiro — Foto: Luan Cardoso / Divulgação

Em “Boneca russa”, DE versa sobre ausências e feridas, expiando as dores do fim de um amor que atravessou muitos Carnavais. “Agora foi, não vai mais voltar atrás / … / E seu bloco não para pra mim”, resigna-se o poeta em versos de “A hora mágica”. “Fim do mundo na avenida”, corrobora verso de “A vida que já era”, com alusão ao samba “A mulher do fim do mundo” (2015), música mais conhecida da parceria de DE com a ex-mulher Alice Coutinho, poeta e letrista.

“Boneca russa”, a propósito, também pode ser caracterizado como um disco de samba. Ou samba-canção. Mas um samba que segue no passo torto típico da obra de DE, sem cadências bonitas. Um samba que se insinua mais nas intenções do compositor do que nas formas finais das 13 composições. Até porque “Boneca russa” é álbum produzido por Marcelo Cabral e DE no inusitado formato de voz e baixo. A voz é de DE. O baixo é de Cabral. Um baixo que fricciona o tempo todo, fazendo sangrar as feridas, e que pode soar elétrico e rascante como uma guitarra, como em “A casa de pé”. Ou soar percussivo, como em “Vaso ruim”.

Por ser incomum, a embalagem de voz e baixo aviva e tensiona canções de alta voltagem poética. “Água de rio parada no fundo do poço / Pele de choro na lágrima seca sem água / Não vale nada o berro enterrado na areia / Não estilhaça o verbo cavado na cara”, rima torto o poeta em “A felicidade perdida”, parceria de DE com Rodrigo Campos, bamba do samba de São Paulo no século XXI.

Músicas como “Renda portuguesa” parecem imersas em estado letárgico. O amor acabou e, com ele, se foi a pulsão de vida, recobrada aos poucos entre rimas de versos imperfeitos. “Não vai mais doer / Nem desafinar/ Não precisa crer / Amaldiçoar / O que não se vê / Não se pode imaginar”, reflete o poeta nos versos de “Minha vida sem você”.

Sim, “Boneca russa” é álbum arrastado que flagra um homem no fim do mundo afetivo, entre destroços emocionais, matéria-prima de músicas como “Um domingo sem fim” e “Assim que era”.

E, se todo Carnaval tem seu fim, a dor também cede às frestas de luz que iluminam a escuridão afetiva. No caso, a luz vem de Olga, filha de DE e Alice Coutinho, parceiros na canção batizada com o nome de Olga e alocada ao fim do disco com áudios da menina ao término da faixa.

“Olga” é promessa de vida no coração de DE após o arrastão de dores de amor. É como se “Boneca russa” sinalizasse que tudo pode recomeçar na quarta-feira com o renascer das cinzas após o Carnaval e o fim de uma folia de amor.

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