Salvador (BA) — A escritora Aline Bei foi um dos grandes destaques da programação da Bienal do Livro Bahia neste domingo (19), trazendo ao público discussões sobre sua escrita marcada pela ausência de rótulos e pela criação de personagens femininas profundas. A autora paulista participou da mesa “Evocar memórias, recriar mundos: do que é feita a literatura” ao lado de Andréa del Fuego, atraindo leitores de várias cidades do estado ao Centro de Convenções Salvador. O evento, um dos principais do calendário cultural baiano, segue até a próxima terça-feira (21), com expectativa de superar recordes de público e participação em 2026.
Na ocasião, Aline Bei, elogiada nacionalmente por obras como “O Peso do Pássaro Morto”, conversou com a plateia sobre as particularidades do seu estilo literário, sempre no limite entre prosa e poesia. Ela revelou que, desde o início de sua carreira acadêmica em Letras, percebeu que seus textos desafiam categorizações tradicionais e frequentemente são identificados como híbridos, provocando debates sobre crítica e identidade na literatura brasileira contemporânea.
Durante a entrevista exclusiva à reportagem do DE, Aline reforçou que se sente motivada a “transitar nas fronteiras”, permitindo que sua voz literária fuja dos padrões preestabelecidos pelo mercado. A autora também compartilhou detalhes do processo de criação de “Uma Delicada Coleção de Ausências” (2025), seu lançamento mais recente, enfatizando o mergulho psicológico das personagens femininas. Temas como maternidade, traumas e silêncios geracionais atravessam as páginas e dialogam de forma especial com vivências das mulheres baianas, conforme análise de críticos presentes na Bienal.
O que diferencia a escrita de Aline Bei e por que ela faz tanto sucesso em Salvador?
Ao longo do evento na capital baiana, o público se mostrou curioso sobre como a produção literária de Aline Bei foge aos gêneros convencionais. Segundo ela, a origem desse percurso remonta à participação em revistas acadêmicas durante a graduação na PUC-SP. Ali, as primeiras publicações — inicialmente agrupadas na seção de poesia — despertaram o interesse de leitores e professores, que apontaram características singulares em sua escrita, sugerindo que ela não pertencia a apenas um gênero. “Gostavam, mas diziam que os textos não cabiam dentro de rótulos”, contou a autora, recebida com entusiasmo pelo público nordestino.
Essa percepção logo se tornou marca registrada da autora, que decidiu absorver esse impulso por transitar nas chamadas “zonas fronteiriças” da literatura. “A partir dessas experiências, comecei a transformar essa vocação natural. Hoje, isso é uma essência do meu trabalho. Não busco caber em caixas”, explicou para uma plateia composta, majoritariamente, por jovens e mulheres ávidas por representatividade. Críticos presentes ressaltaram que a provocação de Aline, ao subverter gêneros, se alinha com a tradição de resistência cultural e inovação artística típica da Bahia, reconhecida nacionalmente por nomes que também quebram moldes.
Outro fator decisivo que explica o sucesso da autora em Salvador é a dedicação ao retrato das experiências femininas. No contexto local, onde debates sobre literatura e identidade de gênero ganham cada vez mais força — especialmente nos últimos anos —, a presença de uma autora que prioriza a complexidade psicológica de mulheres silenciadas e suas histórias ecoa de modo potente no universo cultural da capital baiana. Aline também destacou, em sua passagem pelo evento, que buscar o silêncio das personagens é desvendar ainda mais camadas e sentidos ocultos, numa dinâmica que dialoga com a própria história de muitas leitoras da região Nordeste.
Como foi a participação de Aline Bei na Bienal do Livro Bahia?
A participação de Aline Bei foi um dos momentos mais aguardados da Bienal do Livro Bahia 2026. O evento, reconhecido como o maior da área literária do estado e entre os mais importantes do Nordeste, já recebeu nomes consagrados em outras edições. Neste ano, além de Aline, passaram pelos palcos escritores como Julia Quinn, Paula Pimenta, Ailton Krenak e Thalita Rebouças, fortalecendo o intercâmbio cultural entre autores nacionais, estrangeiros e o público.
Durante o bate-papo, Aline abordou seu método criativo, revelando que o processo de construção das personagens demanda anos de elaboração, pesquisa e escuta interna. “Eu mergulho numa espessura do personagem, entrando em camadas que nem mesmo as próprias figuras — especialmente mulheres — percebem ter. Às vezes, esse silêncio, que atravessa gerações, só encontra voz por meio do texto literário”, relatou. O público pôde participar diretamente com perguntas, um diferencial que consolidou a interação entre escritoras e leitores na tarde de domingo.
Segundo a organização do evento, a mesa de Aline e Andréa del Fuego registrou um dos maiores fluxos de público desta edição, demonstrando a força da literatura feita por mulheres contemporâneas. A sessão de autógrafos posterior reuniu fila de leitores vindos de municípios vizinhos e também de capitais próximas, como Aracaju e Recife, comprovando o alcance regional do evento. De acordo com a Justiça, a classificação etária mínima do evento é de 14 anos, mas menores também marcaram presença, acompanhados de familiares, mostrando o apelo intergeracional das discussões propostas.
Quais os principais temas abordados por Aline Bei e como eles ressoam na Bahia?
Entre os principais temas discutidos por Aline Bei ao longo da Bienal, o destaque fica para questões que dialogam diretamente com o universo das leitoras nordestinas: maternidade, infância, mágoas, traumas de origem geracional e busca de identidade. “Essas mulheres que escrevo não querem ser definidas pelos abandonos, mas o livro fala do esforço de dar contorno a essas dores”, afirmou a escritora em sua fala mais marcante, ecoando experiências vividas por milhares de leitoras baianas, especialmente nas periferias da capital e no interior do estado.
Analistas literários presentes ao debate apontaram que esse enfoque contribui para enriquecer não só o repertório de jovens leitoras, mas também de escritoras iniciantes que perpassam o contexto regional, reconhecendo-se nos enredos de Aline. A abordagem sensível sobre o silêncio das mulheres — herança de traumas e violências de diferentes gerações — encontrou eco em relatos do público presente, reunindo elementos para um debate mais amplo no contexto da produção cultural baiana.
Além disso, discussões sobre o impacto desse tipo de literatura no combate a estigmas e estereótipos vêm ganhando força em Salvador e em eventos similares na Bahia, alimentando novas demandas por políticas públicas de inclusão cultural e acesso à leitura na região. A pluralidade de vozes e a valorização da escrita de mulheres — com perfis tão distintos quanto Aline Bei e nomes baianos — movimentam também setores ligados à justiça, que acompanham o fortalecimento da cultura como ferramenta de transformação social.
O que faz da Bienal do Livro um evento de referência para Salvador e região?
A Bienal do Livro Bahia 2026 consolidou-se como referência literária não apenas pela presença de autores de peso, mas também pela forte conexão com o público baiano. Neste ano, a edição do evento ganhou mais um dia em relação à anterior, indicando o crescimento da procura e a valorização da arte literária por parte da sociedade, inclusive com o envolvimento de instituições do ensino básico à universidade. Segundo a organização, a expectativa é reunir mais de 120 mil visitantes em sete dias, superando o recorde anterior de 100 mil registrado em 2024.
Com o tema “Bahia: identidade que ecoa nos quatro cantos do mundo”, o evento celebrou escritores que retratam a pluralidade cultural do estado e do país. Este destaque ao papel das letras na afirmação de identidade é decisivo para Salvador, capital famosa por sua tradição literária, mas também por desafios estruturais ao acesso à cultura. Em comparação com capitais vizinhas, Salvador tem conseguido alavancar eventos de larga escala, fortalecendo a presença da cidade no circuito nacional de feiras e bienais, o que gera impacto positivo para o turismo e para a economia criativa baiana.
A programação diversificada da Bienal — que incluiu painéis sobre literatura infantojuvenil, representatividade LGBTQIA+ e temas ligados à justiça social — reafirmou o compromisso do evento com a democratização do livro. Oficinas, rodas de leitura e painéis voltados a escolas públicas também ganharam espaço, estimulando o protagonismo juvenil e alimentando novas gerações de escritores. Vale lembrar que em outras cidades nordestinas importantes, como Fortaleza e Recife, iniciativas semelhantes vêm sendo realizadas, porém Salvador se diferencia pelo alcance regional da Bienal e pela capacidade de atração de nomes nacionais e internacionais.
Nos próximos dias, os organizadores estimam que Salvador alcance um novo patamar no cenário cultural do Nordeste, fruto tanto do sucesso da edição quanto do engajamento de diversos setores da sociedade civil, imprensa local e órgãos de polícia e cultura. O evento permanece como referência para o calendário cultural do estado, impulsionando o mercado editorial e estabelecendo pontes entre os diversos territórios baianos e o restante do país, em uma Bahia cada vez mais protagonista.


