SÃO PAULO (SP) — A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) chegou a uma conclusão impactante sobre a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, ocorrida em 1976. Em um relatório aprovado em reunião realizada na sede da Procuradoria Regional da República da 3ª Região, a comissão indicou que JK não foi vítima de um trágico acidente automobilístico, como se acreditava até então, mas sim assassinado pela ditadura militar. A revelação traz à tona uma série de indícios que desafiam a narrativa oficial, que pode ter escondido uma das mais sombrias facetas do período militar brasileiro.
O relator da investigação, professora Maria Cecília Adão, apresentou diversas evidências que fundamentam a hipótese de um atentado político. Segundo ela, um encontro entre emissários do então presidente Ernesto Geisel e Juscelino teria sido o gatilho para a viagem do ex-presidente de carro, ao invés de realizar o trajeto via avião, como era sua preferência habitual. Essa estratégia poderia ter sido uma armadilha, com o motorista de JK possivelmente sedado e o veículo manipulado enquanto estava hospedado em um hotel.
Entre os elementos que sustentam essa tese, destaca-se o depoimento de um caminhoneiro que presenciou o momento do acidente. Ele afirmou que o motorista de Juscelino parecia desacordado, debruçado sobre o volante, momentos antes da colisão com um ônibus. Esse relato levanta sérias dúvidas sobre a veracidade da versão apresentada oficialmente, reforçando a suspeita de que as circunstâncias que cercam o acidente estão longe de serem simples.
Provas de Manipulação e Fraudes
A pesquisa da CEMDP não se limitou apenas ao testemunho. A relatora afirmou que foram identificadas 37 fraudes durante a apuração da morte de JK. Essa lista inclui, por exemplo, a presença precoce de militares no local do acidente, que assumiram rapidamente o controle da cena. Isso levantou suspeitas sobre uma possível adulteração das provas. De acordo com informações obtidas, as testemunhas que contradiziam a versão oficial foram ignoradas, o que suscitou ainda mais questionamentos sobre a transparência do processo investigativo.
Durante a apresentação do relatório, Maria Cecília exibiu fotos que indicam inconsistências graves nas alegações sobre o estado do veículo. Notavelmente, a lanterna traseira do carro de JK estava intacta após o acidente, enquanto o carro apresentado posteriormente apresentava danos evidentes. Esse tipo de manipulação, além da destruição de evidências, sugere que houve uma intencionalidade em encobrir a verdade sobre o ocorrido.
Desrespeito à Cadeia de Custódia
Outro ponto crucial destacado pela comissão foi o desrespeito à cadeia de custódia dos corpos de JK e de seu motorista, o que comprometeu a integridade das evidências. Os relatos indicam que a transportação dos corpos para o Instituto Médico-Legal foi feita sem registros e sem a presença de responsáveis, levantando dúvidas sobre a confiabilidade dos laudos que foram posteriormente divulgados.
A relatora também enfatizou que os laudos do Ministério Público apresentaram falhas significativas, tornando-os “imprestáveis”. Essa falta de credibilidade é ainda mais acentuada pelo fato de que os horários da morte de JK foram manipulados, indicando que ele poderia ter falecido muito depois do acidente, desafiando qualquer explicação lógica. As evidências apresentadas pela CEMDP sugerem que, além da possibilidade de um acidente, havia um potencial envenenamento que também não foi investigado devido à ausência de um exame toxicológico.
A Relevância Histórica do Caso
A revelação de que Juscelino Kubitschek pode ter sido assassinado pela ditadura militar joga uma nova luz sobre um dos períodos mais controversos da história política brasileira. JK, conhecido por sua visão progressista e por ter sido um dos principais símbolos do desenvolvimento do Brasil, sempre se posicionou como um crítico da repressão militar. Esta nova perspectiva sobre sua morte aprofunda o entendimento sobre o clima de terror e controle que permeava aquele tempo.
A CEMDP monitorará os próximos passos da investigação, que inclui uma provável retificação da certidão de óbito de JK para que passe a refletir a nova realidade revelada pelo relatório. A procuradora regional da República, Eugenia Augusta Gonzaga, indicou que, caso não haja objeção da família de JK, essa retificação deve ser concluída até o final de junho, abrindo um capítulo importante na luta por justiça e verdade referente aos desaparecidos políticos no Brasil.
Próximos Passos: Ampla Revisão e Retificações
Com a aprovação do relatório e a possibilidade de retificação da certidão de óbito de Juscelino Kubitschek, a próxima etapa envolve um acompanhamento por parte da CEMDP, além de um possível reforço em investigações sobre mortes similares ocorridas durante a ditadura. As implicações legais e históricas dessas conclusões podem ressoar nas próximas ações do Governo do Estado de São Paulo e nas instâncias de justiça que compartilham o compromisso com a verdade e a reparação para as vítimas da repressão militar.
Essa reavaliação não é apenas vital para a memória de Juscelino Kubitschek, mas também para o entendimento coletivo do Brasil sobre seu passado. É uma oportunidade para o Estado e a sociedade reconhecerem o que ocorreu e revisitar a história com um olhar mais crítico e honesto.



