Série Adolescência da Netflix: Epidemia do Ódio às Mulheres denunciada por Bruna Camilo e Camila Galetti

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Adolescência – O ódio às mulheres (Por Bruna Camilo e Camila Galetti)

Série da Netflix denuncia uma epidemia que tem invadido a vida dos meninos e
homens: o ódio contra meninas e mulheres

A série britânica Adolescência tem sido amplamente elogiada por sua abordagem
realista dos temas que se propõe a discutir. O uso de tomadas contínuas cria uma
sensação de imediaticidade, aumentando o impacto emocional da história. Críticos
e espectadores a consideram um divisor de águas nas plataformas
de streaming, com elogios à sua narrativa envolvente, técnicas de gravação e
atuações convincentes. No entanto, para além das técnicas e interpretações, o
conteúdo dos episódios denuncia uma epidemia que tem invadido a vida dos meninos
e homens: o ódio contra meninas e mulheres. Embora não seja é possível datar
quando masculinistas e outros grupos misóginos começaram a se organizar, fato é
que, com a internet, inauguramos outra forma de acesso à informação, organização
de pessoas e, também, de ódio e desinformação. Contudo, precisamos compreender
algo que é anterior à internet: a socialização masculina.

A socialização masculina é carregada de violência, performances cis e
heteronormativas. Desde o momento em que se descobre que o bebê possui um pênis,
a sociedade projeta sobre ele expectativas e comportamentos que reforçam a
masculinidade hegemônica, como se a genitália determinasse, de forma
incontestável, sua identidade de gênero. O que chamamos aqui de masculinidade
hegemônica é um conjunto de comportamentos e características comuns perpetuadas
por meio da estrutura patriarcal. Assim, homens são socializados a não chorar,
expor agressividade, reafirmar constantemente uma postura de força e controle e
muito menos expor seus sentimentos e fragilidades, consolidando um modelo de
masculinidade que oprime tanto a eles próprios como àqueles ao seu redor.

Embora o personagem principal não esboçasse nenhuma ação violenta, a internet
mostrou a ele um espaço de organização do ressentimento por meninas e,
posteriormente, a violência foi escancarada e, ao mesmo tempo, silenciosa. Essa
prática contra si e contra os “inimigos” é uma forma, se não a principal, de
demonstrar sua virilidade, potência, pertencimento a grupo, mas, principalmente,
vingança contra quem não se submete. O sociólogo Daniel Welzer-Lang apontou que
a legitimidade de um homem em seu grupo não se restringe à negação da
feminilidade, mas também em sua contundente depreciação. Diante disso, é
possível afirmar que o homem, em busca de seu espaço de pertencimento, performe
misoginia como passaporte de aceitação, socialização e respeito perante os
demais. A forma como os homens socializam e constroem suas identidades afeta não
somente a si, mas, sobretudo, as mulheres, que se submetem ao masculino por meio
da violência.

A socialização misógina entre adolescentes homens é um tema complexo e
preocupante, especialmente quando associado à cultura incel e à chamada
“machosfera”. Essas comunidades online promovem ideologias que frequentemente
justificam o ódio contra as mulheres e reforçam estereótipos de masculinidade
tradicional, que podem levar a comportamentos perigosos e violentos. A cultura
incel, ou seja, os celibatários involuntários, é composta por homens ditos
heterossexuais, majoritariamente jovens, que se sentem infelizes e frustrados
por causa da falta de relações sexuais ou românticas com meninas e mulheres.
Eles frequentemente se reúnem em fóruns online, onde discutem temas misóginos e
a ideia de que são vítimas de uma sociedade que lhes nega o direito ao sexo. Ou
seja, conforme o pensamento incel, é responsabilidade das mulheres a dificuldade
em socializar.

A série não apenas denuncia a ascensão do ódio contra meninas e mulheres, mas
também nos leva a questionar suas raízes. Para entender como esse fenômeno se
estrutura e se perpetua, é essencial voltar ao ponto de partida: a forma como os
meninos são socializados.

A relação entre a internet e a misoginia cometida por jovens é marcada
pela amplificação de discursos de ódio, normalização de estereótipos de
gênero e monetização de conteúdos tóxicos, fatores que reforçam a violência
simbólica e física contra mulheres. Redes sociais, plataformas de vídeos e de
mensagens se tornaram ferramentas fundamentais para a amplificação da misoginia
facilitando a disseminação de ideias que violam os direitos das mulheres. A
misoginia tem se tornado um produto rentável por meio de cursos, canais
monetizados e comunidades que espalham a narrativa de vitimização masculina.
Algoritmos têm entregado conteúdos misóginos para meninos e jovens, seja em
formato de humor, informações que geram curiosidade ou que despertam algum
sentimento. Dessa forma, são alimentados por uma enxurrada de vídeos e postagens
que os fazem se sentirem acolhidos, compreendidos e pertencentes a um grupo,
nesse caso, de homens e meninos ressentidos.

A internet enquanto um campo de disputa sem sido uma arena de batalhas nesse
sentido. De um lado grupos misóginos e masculinistas cooptando meninos e homens,
do outro a busca pela disseminação de informações sobre educação, direitos
humanos, combate às violências e desinformações. Mas, afinal, existe ganhador
nessa batalha? O perdedor já temos, a sociedade. Viver em uma sociedade
patriarcal estruturada no racismo, machismo e outras violências é secularmente
um desafio. Quando essa estrutura recebe o apoio das tecnologias, nos deparamos
com desafios ainda mais difíceis de lidar. Como monitorar nossos jovens sem
sufocá-los? Tudo é responsabilidade da escola e da família?

bell hooks nos lembra que para criar uma criança precisamos de toda uma
comunidade. Sim, é necessário compreendermos que viver em coletivo é nos
responsabilizarmos coletivamente por todos e todas, para além dos núcleos
familiares. No entanto, o neoliberalismo mina essa perspectiva ao promover o
individualismo como ideal, levando à precarização das vidas sob a falsa promessa
de uma prosperidade alcançada unicamente pelo esforço pessoal. Essa lógica
ignora as desigualdades estruturais e desresponsabiliza o coletivo, tornando
cada indivíduo o único responsável por seu sucesso ou fracasso.

Vemos essa dinâmica refletida nas escolas retratadas em “Adolescência”:
professores exaustos e sobrecarregados, alunos ansiosos, agitados e
frequentemente rotulados como “casos perdidos”. O sistema educacional, operando
dentro da lógica neoliberal, não oferece suporte adequado para docentes nem para
estudantes, priorizando desempenho e produtividade em detrimento do bem-estar e
da formação humana. Dessa forma, educar jovens nesse contexto significa
prepará-los para uma vida adulta marcada pelo esgotamento, pelo ressentimento e,
muitas vezes, pela violência. Pensar em soluções, portanto, exige muito mais do
que ajustes pontuais; requer uma reflexão profunda sobre o modelo de sociedade
que queremos construir. Uma sociedade verdadeiramente comprometida com o
bem-estar coletivo deve superar a lógica neoliberal e recuperar a noção de
responsabilidade compartilhada na educação e na vida em comunidade.

Bruna Camilo é doutora em Sociologia pela PUC-Minas. Camila Galetti é doutora em
Sociologia pela Universidade de Brasília

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