Teleaborto: Por dentro de uma clínica secreta de aborto clandestino

Grupos de WhatsApp são usados para vender medicamentos abortivos e prestar apoio a mulheres que pretendem interromper a gravidez

Após horas de expectativa, uma forte dor começa no pé da barriga, sendo acompanhada de desespero e medo. A vendedora tenta acalmar a cliente, que em seguida relata um forte sangramento e depois conta que deu tudo certo. O resultado, um aborto bem-sucedido.

“Acabou de descer, estou meio assim porque ficou preso aí eu tive que puxar com a mão, entendeu. Mas já saiu já, o feto já saiu. Era bem pequenininho, mas ficou passando um filme na minha cabeça, né. Mas obrigada, tá. Muito obrigada mesmo, você me ajudou demais. Se caso eu sentir febre eu te aviso, mas não vou sentir não porque já desceu. Já dava para ver a aparência, tinha a mãozinha e era bem pequeno. Sei lá, devia ter uns sete centímetros”.

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Esse é apenas um dos inúmeros relatos no qual a reportagem do Diário do Estado teve acesso após se infiltrar por três semanas em grupos secretos de whatsApp que vendem medicamentos abortivos e que funcionam como espaço de apoio a mulheres que desejam interromper a gravidez.

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O procedimento é contado em áudio e texto para outras 130 mulheres de diferentes regiões do Brasil, inclusive, de Goiânia, que também desejam realizar o mesmo crime. Em outros casos, as mulheres relatam que já passaram pela situação mais de uma vez e que esperam não ter que sentir o “sofrimento” novamente.

“Passando pra dizer que fiz ontem o procedimento. Não foi a minha primeira vez, mas foi a última. Fiquei tensa porque parecia que o efeito do remédio já estava passando e nada acontecia. Até que no último minuto do segundo tempo deu tudo certo. Hoje já acordei disposta, com apetite, sem vômitos. Me sinto bem melhor”.

Aborto

O aborto é feito por meio do cytotec, medicamento de comercialização proibida no Brasil e que pode ser considerado tráfico internacional de drogas, já que vem de países vizinhos como Chile e Colômbia. 

Em cada grupo, algumas das administradoras que se apresentam como médicas e enfermeiras vendem os remédios, que são encaminhados pelo correio ou por meio de motorista de aplicativo (no caso de Goiânia). As outras mulheres que participam do esquema não possuem nenhum tipo de formação e se comportam como “guias” do aborto, responsáveis por acompanhar e “instruir” as mulheres virtualmente – por mensagens, vídeos e áudios durante o procedimento.

As pílulas que são as mesmas usadas como um dos métodos de aborto legal nos hospitais, custam entre R$ 900 e R$ 3 mil, dependendo da dose para cada estágio da gravidez. O repórter, por exemplo, se passou por uma mulher grávida de 13 semanas e foi aconselhado a comprar 10 comprimidos no valor de R$ 1,1 mil. A forma para utilizá-los segundo a vendedora, é simples: metade das pílulas são ingeridas e a outra metade introduzida na vagina. 

Por meio dos relatos e do próprio manual de aborto, disponibilizado pelas criminosas, o medicamento induz o útero a ter contrações para que o feto seja expelido, como se fosse um aborto espontâneo. Vale reforçar que todo o procedimento é acompanhado pelas mulheres responsáveis pela venda do cytotec, onde uma “guia” é designada a cada grávida, e elas trocam mensagens diretamente durante o procedimento. 

As administradoras do grupo orientam que todas procurem um hospital após o aborto para verificar se é preciso fazer curetagem (uma espécie de limpeza do útero) e dão instruções sobre o que elas devem dizer para convencer os profissionais de saúde de que perderam naturalmente o bebê e, assim, evitar serem denunciadas à polícia.

Ao ir no hospital, a mulher precisa ser convincente, já que qualquer passo em falso a comprometeria por prática de aborto, além de abrir caminho para que as mulheres que venderam o medicamento fossem denunciadas também. No Brasil, aborto é crime. Só é permitido interromper a gravidez em caso de estupro, risco para a vida da mãe e feto com anencefalia.

Mulher sendo acompanhada por “guia” durante aborto. (Foto: Pedro Moura)

Medos

No grupo de whatsApp, as grávidas recém-chegadas compartilham medos e tiram dúvidas com outras mulheres que já abortaram. Porém, a cada mensagem informando que o aborto deu certo, várias mulheres parabenizam a criminosa dizendo que mais uma mulher está livre, alegando que a prática requer força, coragem e determinação.

“Mais uma mulher livre. Parabéns, você é uma guerreira. E não fique triste, flor. Você fez o que era melhor para você, isso vai passar. Pior do que abortar é você ter um filho que não deseja, que você não pode criar. Qualquer mulher pode passar por uma situação dessas, você não tem que se culpar por querer o melhor para você”, afirma uma das administradoras do grupo ao tentar conformar uma mulher que havia acabado de realizar o procedimento.

Números 

Os números de mulheres que praticam o aborto nos grupos é impressionante. Por semana, segundo dados levantados pelo DE, ao menos cinco mulheres dizem ter “se livrado” da gravidez. Uma das supostas médicas, inclusive, disse ao DE que já ajudou em pelo menos 40 procedimentos. 

“Pode confiar em mim, eu não aplico golpe. Até porque eu já passei pelo que você passa hoje. Você terá auxílio em todo o procedimento, antes, durante e depois. Não precisa ter medo algum, depois você irá se sentir aliviada”, diz.

Riscos

O uso de medicação longe do ambiente hospitalar – e sem acompanhamento de equipe especializada – é muito mais arriscado do que muitas mulheres costumam pensar, segundo a ginecologista, Mariana Lobo. Embora a propaganda usada pelos defensores do aborto seja a de que o uso é simples e sem riscos, a verdade é que se trata de uma substância agressiva e perigosa.

“As pessoas que costumam comprar esse medicamento, normalmente o usam em doses exageradas. Isso, com certeza, pode gerar riscos à saúde da mulher, como sangramentos uterinos e contrações do útero irregulares. Além das patologias, como a asma que é contraindicado o uso dessa medicação, mas a população não sabe disso e acaba trazendo riscos à vida da mulher”, disse.

Ainda de acordo com a especialista, as mulheres podem engravidar normalmente após o processo, desde que não surjam complicações maiores dos abortos. Em alguns casos, a mulher pode contrair infecções e até mesmo precisar remover o útero.

“A medicação tem uma finalidade abortiva, mas ela também tem a finalidade tratativa. Então usamos ela como indutor de parto, preparação de colo para o aborto legal. O cytotec também é usado para conter hemorragias pós-parto”, lembra.

Conversa entre repórter e vendedora de Goiânia. (Foto: Pedro Moura)
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