Toffoli, Mendonça e o Master: entre o acaso e o arranjo, fabrica-se a normalidade

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Sem qualquer desejo de perturbar o clima festivo do carnaval, sinto, ainda assim, um discreto impulso de espírito de porco de compartilhar uma leitura nada confortável sobre a substituição de Dias Toffoli por André Mendonça na relatoria do caso Master. A meu ver, o episódio representa uma vitória expressiva da convergência entre o bolsonarismo e o pentecostalismo argentário — duas das estruturas de poder mais organizadas e influentes hoje no país. Mais significativa, contudo, do que esse avanço é a natureza da derrota que o tornou possível: o campo progressista, por ação, omissão ou cálculo equivocado, acabou funcionando como correia de transmissão, o mais eficiente canal de legitimação do desfecho que agora lhe é desfavorável. O sentido desse movimento torna-se mais claro quando o episódio é observado para além do resultado imediato. A transferência do processo das mãos de Toffoli para a relatoria de Mendonça já mereceria atenção por suas implicações institucionais. Examinada com maior cuidado, porém, essa mudança revela algo mais amplo: o rearranjo interno do sistema de Justiça e a construção prévia de um ambiente narrativo destinado a tornar esses rearranjos aceitáveis, naturais e até tranquilizadores. Trata-se de um método já conhecido, no qual pressão pública seletiva, mediação jornalística orientada e desfechos institucionais se encadeiam de modo a legitimar previamente o resultado.

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