Toxina que levou a suspensão de fórmulas infantis da Nestlé é resistente ao calor e provoca vômitos; entenda
DE diz ter identificado toxina e comunicado a Anvisa, que suspendeu lotes de fórmulas infantis.
Produtos DE suspensos. — Foto: Nestlé/ Reprodução
A substância que levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a suspender a venda de alguns lotes de fórmulas infantis da DE não é tão conhecida pelo público, mas tem sido amplamente estudada pela ciência. Trata-se da cereulide, uma toxina produzida por determinadas cepas da bactéria Bacillus cereus.
A medida, publicada nesta quarta-feira (7), é preventiva e envolve produtos das marcas Nestogeno, Nan Supreme Pro, Nanlac Supreme Pro, Nanlac Comfor, Nan Sensitive e Alfamino. Segundo a DE, a possível presença da toxina foi identificada em análises de rotina de controle de qualidade, associada a um ingrediente de fornecedor internacional. Até a última atualização desta reportagem, não havia registro de casos de doença relacionados aos lotes afetados.
O QUE É A BACILLUS CEREUS?
A Bacillus cereus é uma bactéria em forma de bastonete, capaz de formar esporos (estruturas minúsculas e altamente resistentes). Esses esporos sobrevivem a condições extremas, como calor, variações de pH e processos industriais comuns, incluindo pasteurização.
Algumas cepas da bactéria produzem a cereulide, um pequeno peptídeo (cadeia curta de aminoácido) cíclico altamente tóxico. De acordo com revisões médicas publicadas no StatPearls/NCBI, essa toxina é termoestável, ou seja, não é destruída pelo aquecimento e resiste às enzimas digestivas.
COMO OCORRE A CONTAMINAÇÃO?
Segundo a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), a infecção em humanos ocorre principalmente pela ingestão de alimentos contaminados, como arroz, massas, vegetais, leite e especiarias.
A contaminação é favorecida pela capacidade dos esporos de sobreviver ao processamento térmico. Quando os alimentos não são resfriados adequadamente ou ficam armazenados em temperaturas acima do recomendado (entre 4 °C e 7 °C), os esporos podem germinar e a bactéria se multiplicar até níveis perigosos.
A EFSA destaca que não existem métodos usuais na indústria capazes de inativar a cereulide depois que ela é formada.
TIPOS DE INTOXICAÇÃO
A Bacillus cereus é um agente reconhecido de intoxicação alimentar e pode causar dois quadros distintos:
Síndrome diarreica: provocada por uma toxina termolábil, sensível ao calor, que causa diarreia e dor abdominal.
Síndrome emética (vômitos): causada pela cereulide, termoestável, responsável por náuseas intensas e vômitos de início rápido.
Além da intoxicação alimentar, a bactéria pode atuar como patógeno oportunista e causar infecções graves em pessoas imunocomprometidas, como septicemia (infecção generalizada grave), meningite (inflamação das meninges), abscessos pulmonares (cavidade no pulmão cheia de pus) e endocardite (inflamação ou infecção do endocárdio, camada interna do coração).
POR QUE A ANVISA AGIU SEM CASOS CONFIRMADOS?
A Anvisa determinou a suspensão da venda porque, uma vez presente no produto, a cereulide não pode ser neutralizada no preparo doméstico, como fervura ou aquecimento. O órgão considerou o risco potencial grave, especialmente para lactentes, e adotou uma abordagem preventiva.
A DE informou que está recolhendo voluntariamente os lotes afetados e oferecendo devolução gratuita e reembolso integral, além de reforçar que não houve registro de reações adversas até o momento.
O QUE PAIS E RESPONSÁVEIS DEVEM FAZER
Verificar o número do lote no rótulo das fórmulas listadas pela Anvisa;
Não oferecer o produto à criança caso ele esteja entre os lotes recolhidos;
Entrar em contato com o SAC da DE para devolução e reembolso;
Procurar atendimento médico imediato se a criança apresentar vômitos persistentes, diarreia ou sonolência excessiva, levando a embalagem do produto ao consultório.
Embora a maioria das contaminações por Bacillus cereus provoque quadros leves, a presença da cereulide em fórmulas infantis é considerada crítica pelo potencial de gravidade e pela impossibilidade de eliminação da toxina no preparo em casa, o que explica a resposta rápida das autoridades sanitárias.




