‘Coração’ das orquestras de frevo, tradição do clarins que anunciam carnaval
sofre com falta de apoio: ‘A gente toca por amor’
Instrumento de sopro sem pistões, de som forte e agudo, anuncia chegada dos
músicos e convoca os foliões nas ruas. Baixos cachês pagos às agremiações afetam
estrutura dos grupos.
A importância dos clarins no carnaval
Quando os clarins tocam no carnaval, a certeza é uma só: a folia vai começar.
Com som agudo e forte, o instrumento de sopro da família dos metais,
caracterizado pela ausência de pistões, é quem anuncia a chegada das orquestras
de frevo (veja vídeo acima).
A tradição sonora herdada das bandas militares sofre com a falta de apoio
financeiro às agremiações do carnaval, que influencia no baixo cachê dos
artistas.
> “Tem agremiações aqui em que a gente quase toca de graça, porque, de tanto
> tempo que a gente toca… Por exemplo, faz mais de 28 anos que a gente toca na
> Pitombeira. E tem o Galo, que já faz mais de 30 anos. A gente toca por amor”,
> disse o músico e militar reformado André Luiz.
À frente das orquestras, os clarins marcam o início e o fim dos desfiles e fazem
paradas estratégicas para homenagens, funcionando como um chamado. Para manter
viva essa marca tão importante do carnaval, conjuntos de clarinistas do Grande
Recife apostam na renovação
de gerações.
Segundo o empreendedor Paulo Reinaldo, integrante do grupo Clarins de Olinda,
sem verba suficiente para
manter a estrutura das bandas, os músicos mal conseguem dar conta da demanda
vinda dos blocos durante o período de carnaval.
“Os clarins hoje são bem procurados. Para você ter ideia, não temos clarins
suficientes para todos os blocos. Os grandes pedem dez clarins. E mandamos oito,
mandamos seis, e vamos dividindo para ninguém ficar sem clarins e sem tocar”,
disse.
“TRADIÇÃO BOCA A BOCA”
Diferentemente de outros instrumentos, não há partituras para aprender os toques
do clarim. O aprendizado se dá “de ouvido”, sendo passado de músico para músico,
como explica o produtor Yonay Queiroz, do grupo Clarins de Olinda. Um dos
projetos da entidade é criar uma escolinha.
> “É a tradição, o boca a boca. Começou nas bandas com os chamados ‘músicos de
> ouvido’, que eram músicos que escutavam e sabiam a posição da nota”, explica.
O músico André dos Clarins contou que o instrumento teve origem no contexto
militar e, a partir das bandas marciais, acabou se encontrando com o frevo.
“Toquei na banda do Dom Bosco de Olinda, que formou uma fanfarra e veio às ruas
tocando corneta de um pisto. E os clarins faziam o ‘jogo da nota’ para fazer o
frevo”, contou.
O promotor de vendas Vinícius Alexandre também participou de uma banda marcial e
se apaixonou pelo som dos clarins ao ver um músico tocando.
> “O primeiro clarim de Olinda foi o ‘Vinte e Um’, que era um guarda municipal.
> A gente via ele tocando e, através dele, eu e meu irmão, ainda pequenos, fomos
> escutando os tons. Como éramos de banda marcial, nosso pai comprou um clarim e
> a gente foi aprendendo”, disse.




