Trump recua em tarifas porque mira terras raras do Brasil, avalia Ian Bremmer
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demonstrou uma mudança de direção em relação ao Brasil, de acordo com Ian Bremmer, cientista político e presidente do Eurasia Group. Essa mudança está mais ligada a interesses estratégicos e comerciais do que a questões eleitorais. Após anunciar tarifas sobre produtos brasileiros e iniciar uma postura de confronto, Trump parece ter percebido a importância do Brasil como fornecedor de insumos essenciais, como os minerais de terras raras, utilizados na indústria de tecnologia e defesa.
Bremmer, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, destacou que a postura inicial de confronto de Trump se transformou em cautela ao reconhecer a dependência dos Estados Unidos em relação aos insumos brasileiros. A reavaliação estratégica pode ter sido um dos motivos que levou Trump a recuar em relação às tarifas e se mostrar mais aberto ao diálogo com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.
A análise do analista aponta o Brasil como uma peça estratégica nas relações comerciais e industriais norte-americanas dentro da América Latina. Enquanto Trump adota uma postura agressiva com outros governos da região, no caso do Brasil, a lógica parece ser diferente devido aos interesses econômicos envolvidos. A imposição inicial de tarifas foi seguida por uma compreensão pragmática da importância dos insumos brasileiros para a economia dos EUA.
A aproximação entre Trump e Lula, marcada para março, pode ocorrer em um ambiente mais propício do que o esperado. A análise incial indicava que a eleição brasileira teria influência direta no relacionamento entre os dois líderes, no entanto, os interesses econômicos parecem ter prevalecido. Trump, que inicialmente usou a eleição no Brasil como justificativa para medidas comerciais hostis, mudou de postura ao perceber a relevância estratégica brasileira.
Em contraposição à política externa adotada por Trump, Ian Bremmer destaca que o slogan “America First” não se refere a uma integração hemisférica, mas sim a uma doutrina focada na projeção de poder dos EUA sobre seus vizinhos. A abordagem do presidente norte-americano pode gerar desconforto em governos latinos-americanos, apesar de existir um maior alinhamento na região quando comparado a outras, como Europa e Canadá.
Bremmer ainda destaca que, apesar de os Estados Unidos serem a maior potência mundial, Trump não é o líder mais influente do planeta. Essa posição é ocupada pelo presidente chinês, Xi Jinping, devido à estrutura de poder mais centralizado na China. Essa diferença estrutural torna a política externa dos EUA mais imprevisível para seus parceiros internacionais.
Por fim, Bremmer discute a possibilidade de uma escalada armamentista devido ao impasse em torno do pacto nuclear entre Estados Unidos e Rússia. Ele alerta para a entrada da China como potência nuclear em expansão e destaca a preocupação de outros países em desenvolver suas próprias capacidades nucleares diante da instabilidade internacional. Além disso, a possibilidade de uma defesa nuclear europeia independente é discutida em meio às incertezas em relação ao comprometimento dos EUA com a Otan. A crise institucional nos EUA também é abordada, com Bremmer alertando para possíveis desdobramentos decorrentes do comportamento imprevisível de Trump.




