Tucunduva (RS) — Um caso inusitado foi registrado nesta semana na zona rural de Tucunduva, no Noroeste do Rio Grande do Sul. Duas galinhas fêmeas surpreenderam o proprietário de um sítio ao chocarem, simultaneamente, no mesmo ninho e cuidarem em conjunto de 25 pintinhos. O comportamento, que chamou a atenção dos moradores da região e viralizou nas redes sociais, foi observado na propriedade de Danilo Fagundes, onde o fenômeno, embora raro, já foi notado em outras ocasiões.
De acordo com Danilo, as galinhas adotaram uma estratégia de “maternidade compartilhada” bastante organizada, dividindo tarefas desde a proteção dos filhotes até a condução dos bebedouros e locais de alimentação. A cena, registrada em fotos e vídeos, mostra uma verdadeira parceria entre as aves, o que tem despertado a curiosidade tanto de criadores quanto das autoridades locais de bem-estar animal.
O caso ganhou repercussão em portais de notícias do RS, impulsionando debates sobre o comportamento animal nas pequenas propriedades rurais gaúchas. Conforme relatou Danilo, esta é a terceira vez que observa o fenômeno de ninhos compartilhados na propriedade, mas nunca com uma quantidade tão grande de pintinhos sob os cuidados de apenas duas galinhas. Moradores da região destacam que, apesar de Tucunduva ser conhecida pela forte produção agropecuária, situações desse tipo não são frequentes no município.
Como as galinhas organizam os cuidados dos pintinhos em Tucunduva?
Em relato à imprensa local, o proprietário explicou que as galinhas mantêm uma divisão de tarefas rigorosa para garantir a segurança e o bem-estar da “filharada”. Enquanto uma fica responsável pela defesa do ninho, assumindo postura agressiva contra qualquer um que se aproxime, a outra recolhe todos os pintinhos e os conduz até um local mais protegido, especialmente durante a movimentação de pessoas ou outros animais da propriedade. Segundo Danilo, a cooperação vai além do ninho: ambas revezam na alimentação, aquecimento dos filhotes e busca de abrigo em caso de mudanças climáticas repentinas, o que não é incomum nas noites frias do Rio Grande do Sul.
Especialistas em comportamento animal apontam que, apesar de galinhas do tipo “caipira” demonstrarem grande instinto materno, o compartilhamento tão organizado de maternidade não é regra em rebanhos domésticos. A divisão de funções, por vezes, pode evitar a mortalidade de pintinhos na primeira semana de vida, considerada a mais frágil para aves de criação. Em entrevista ao DE, o zootecnista Guilherme Sandri ressaltou que “a colaboração entre galinhas demonstra um avanço comportamental que pode ser favorecido em ambientes menos estressantes, comuns em sistemas alternativos e familiares da região de Tucunduva”.
Moradores vizinhos, ao saberem do caso, relataram ao DE situações menores, com duas ou três galinhas dividindo dois ninhos, mas nenhuma experiência com um grupo tão volumoso de pintinhos, como os 25 filhotes observados nesta semana. O episódio reacendeu debates locais sobre manejo, condução de aves e os benefícios de práticas mais naturais na criação rural, assunto também presente no Fórum Estadual de Agricultura realizado em Santa Rosa no início de maio.
O comportamento das “galinhas caipiras” é comum no Rio Grande do Sul?
Conforme especialistas da região Noroeste do Rio Grande do Sul, o comportamento materno compartilhado ocorre especialmente em galinhas do tipo “fina” ou “caipira”, bastante presentes nos quintais das pequenas propriedades locais. Ao contrário de galinhas de produção industrial, que tendem à individualidade ou ao abandono dos ninhos no caso de perturbações frequentes, as aves criadas soltas desenvolvem vínculos de grupo mais acentuados.
A Secretaria Municipal de Agricultura informou que, nos últimos anos, houve aumento do interesse por sistemas de produção extensivos e mistos em Tucunduva, o que pode favorecer a observação de fenômenos como este. Segundo dados do último censo rural, há mais de 400 pequenas propriedades familiares dedicadas à avicultura, em sua maioria com galinhas caipiras de linhagem mista. Nas cidades vizinhas de Tuparendi e Porto Mauá, foram relatados casos semelhantes, porém geralmente com menor número de pintinhos por ninho.
Por que a cena comoveu moradores e viralizou no RS?
A história ganhou destaque nas redes sociais da região ainda na noite de quarta-feira, quando Danilo publicou imagens de sua “dupla de galinhas-mamãe” ao lado dos 25 filhotes. Em poucas horas, os vídeos alcançaram milhares de visualizações, sendo tema de comentários em grupos de agricultores e produtores locais. Segundo usuários, o ocorrido simbolizou o lado afetivo da vida rural, chamando atenção para a capacidade de organização dos animais, muitas vezes subestimados pela rotina mecanizada de criação industrial.
A repercussão aumentou após a publicação do caso em veículos como o DE e rádios regionais, que também trouxeram consultorias de veterinários e relatos antigos dos moradores de Tucunduva. O fato de as galinhas exercerem funções específicas, como “segurança” do ninho e “condutora” dos filhotes, cativou o público urbano e rural, reacendendo o debate sobre o valor da biodiversidade local e os saberes tradicionais repassados entre gerações.
De acordo com a professora Eliane Moreira, da rede municipal, “a notícia mostra que a natureza tem muito a nos ensinar e que, mesmo com todas as modernizações no campo, preservação e observação do comportamento animal não perderam espaço no dia a dia das famílias gaúchas”.
Quais são os desafios de manejar ninhos compartilhados em Tucunduva?
Segundo criadores, o manejo de ninhos compartilhados requer atenção extra para evitar superlotação, concorrência por alimento e possíveis atropelamentos dos pintinhos, que podem se confundir em grupos numerosos. O agricultor Danilo Fagundes explica que, nesta ocasião, precisou reforçar a cerca do galinheiro e criar áreas delimitadas de sombra, devido ao grande número de filhotes circulando na propriedade nesta sexta-feira. A principal preocupação é com aves predadoras, comuns em sítios próximos a matas da região, como graúnas e gaviões-carijó.
A veterinária Cláudia Meneghetti, de Porto Mauá, alerta que a divisão maternal pode ser benéfica, mas exige acompanhamento quanto à saúde dos pintinhos e vacinação, já que a aglomeração pode facilitar transmissão de coccidiose e outras doenças específicas de aves. Ela recomenda ainda a oferta de ração inicial em vários comedouros distintos para evitar disputa agressiva e dispersão dos filhotes em momentos críticos do desenvolvimento.
Casos como este são monitorados por órgãos de proteção animal no RS?
Embora o caso das galinhas de Tucunduva tenha viralizado como uma curiosidade regional, órgãos de proteção animal e a Justiça do Rio Grande do Sul monitoram situações relacionadas a bem-estar de criações domésticas, mesmo em pequenas propriedades. O município, integrante do Consórcio Intermunicipal do Noroeste Gaúcho, já participou de campanhas de vacinação coletiva para rebanhos de aves caipiras, além de iniciativas de educação sanitária nas escolas rurais.
Em nota enviada ao DE, a Delegacia Regional de Agricultura do RS informou que não são frequentes denúncias de maus-tratos ou abandono de aves em Tucunduva, mas que orienta os proprietários quanto à importância do manejo humanitário e à oferta de alimentos apropriados nesta fase de desenvolvimento dos pintinhos. Também são recomendados registros fotográficos periódicos e comunicação às autoridades em caso de doenças ou mortalidade acima da média no plantel.
Danilo relatou que encaminha periodicamente atualizações para os canais oficiais do município, reforçando o valor da transparência e buscando contribuir para os bancos de dados sobre avicultura rural compartilhados em todo o estado. O caso está servindo de inspiração para outras famílias, que passaram a fotografar e relatar cenas cotidianas da vida animal em suas propriedades.
Como o fenômeno repercute entre criadores familiares do RS?
Débora Lüders, presidente da Associação de Pequenos Produtores de Tucunduva, disse ao DE que o episódio está sendo debatido em reuniões da associação, servindo como exemplo para estimular a observação e o respeito ao comportamento natural dos animais entre os mais jovens. Relatos de avós e pais, muitos deles descendentes de imigrantes alemães e italianos, reforçam que a convivência harmoniosa entre galinhas no mesmo ninho era comum nos tempos antigos, antes da modernização dos galinheiros e da adoção de linhagens industriais menos sociáveis.
Registros históricos do município apontam que o modelo de avicultura familiar se mantém predominante no Noroeste do RS, com mais de 80% das famílias criando aves para consumo próprio e venda em feiras regionais. Nessas propriedades, práticas como recolhimento manual dos ovos e respeito ao ciclo reprodutivo das matrizes permanecem, o que favorece episódios de “ninho coletivo” — mesmo que, como no caso das galinhas de Danilo, o número elevado de pintinhos impressione pela organização e sucesso dos cuidados maternais.
O que dizem especialistas sobre impacto do caso para a agricultura familiar em Tucunduva?
De acordo com representantes da Emater-RS e consultores agrícolas, episódios de colaboração entre animais despertam interesse para a valorização da agricultura familiar e chamam a atenção para a importância de práticas de manejo menos interventivas. Essas ações estão alinhadas com as tendências mais recentes de bem-estar animal e produção orgânica, que têm ganhado espaço nas feiras agrícolas de Tucunduva e municípios adjacentes. A investigação de comportamentos como o das galinhas pode ajudar no desenvolvimento de novas orientações técnicas para pequenos produtores.
Além de servir de alerta sobre os riscos e benefícios do manejo natural, a repercussão do caso estimula o intercâmbio de saberes locais e incentiva jovens a permanecer e inovar no campo, algo especialmente relevante para cidades do interior do Rio Grande do Sul, que vêm sofrendo com o êxodo rural. A Prefeitura de Tucunduva prevê incluir novas oficinas de bem-estar animal e observação do comportamento das aves na programação das escolas rurais já no próximo semestre.
Para Danilo, o episódio foi uma oportunidade de valorizar o cotidiano da vida no campo: “A gente aprende todo dia com a natureza. Fiquei impressionado com a parceria dessas galinhas. Elas cuidam dos pintinhos melhor até do que muita gente”. A história das galinhas-mamãe de Tucunduva segue inspirando outros criadores e contando um pouco da alma comunitária da região Noroeste gaúcha.



