BELÉM (PA) — A presença do mercúrio, um dos poluentes mais perigosos para a saúde humana e ambiental, foi confirmada em 100% das amostras de penas de urubus-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) analisadas por um grupo de pesquisadores de diversas instituições, incluindo a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Federal do Pará (UFPA). O estudo foi realizado na região do Aeroporto Internacional de Belém e revelou que todos os indivíduos capturados apresentaram diferentes níveis de contaminação por mercúrio, acendendo um alerta sobre a disseminação deste contaminante na Amazônia Oriental.
O monitoramento e a captura das aves são realizados inicialmente com o intuito de evitar colisões com aeronaves. No entanto, as análises também revelaram uma preocupação significativa com a saúde da fauna local exposta a esse metal tóxico. Nailson de Andrade Neri Júnior, médico veterinário e um dos responsáveis pela pesquisa, destacou que “por estarmos em uma área com intensa pressão humana, fez sentido realizarmos essa investigação”. Ele admitiu que o objetivo inicial não era buscar o mercúrio, mas as circunstâncias levaram à descoberta alarmante sobre a contaminação ambiental.
Bioindicadores da Saúde Ambiental
Os urubus-de-cabeça-vermelha são considerados excelentes bioindicadores, ou “sentinelas” ambientais, devido ao seu comportamento necrófago, alimentando-se de organismos variados. Esse traço faz com que acumulem contaminantes presentes na cadeia alimentar através de um fenômeno conhecido como bioacumulação. As penas desses animais, neste caso, funcionam como um registro biológico da presença de mercúrio em seu organismo, permitindo que os cientistas avaliem a saúde das aves sem causar danos a elas.
O mercúrio é um elemento altamente tóxico e persistente no ambiente, que possui diversas vias de absorção e acúmulo nos seres vivos. Sua bioacumulação ocorre em um ritmo maior que a capacidade de excreção, o que resulta em níveis sempre crescentes de contaminação ao longo da cadeia alimentar — um processo conhecido como biomagnificação. As aves em níveis mais altos da cadeia alimentar, como os urubus, tendem a acumular concentrações mais elevadas do contaminante e, portanto, são mais suscetíveis a seus efeitos nocivos.
A exposição ao mercúrio em aves pode resultar em uma série de problemas adversos, como redução do sucesso reprodutivo, alterações neurológicas e comprometimento do sistema imunológico, além de danos hepáticos e complicações nas gestação. Assim, a pesquisa não apenas revela um problema ambiental em potencial, mas também identifica riscos diretos à saúde da própria fauna local.
A Fonte da Contaminação
Nailson também alertou que, embora os animais tenham sido capturados na capital paraense, ainda não é possível determinar a origem exata da contaminação. Isso se deve ao fato de que os urubus costumam percorrer grandes distâncias em busca de alimento, podendo atravessar municípios diferentes e, assim, ser expostos a várias fontes potenciais de poluição.
A principal hipótese levantada pelos pesquisadores é que a contaminação esteja ligada a atividades humanas, em especial o garimpo ilegal, que frequentemente utiliza mercúrio na extração de ouro. Essa prática não apenas contamina os rios e ambientes aquáticos, mas também afeta diretamente a fauna e a saúde de comunidades que dependem da pesca para sua subsistência.
Consequências para a Saúde Humana
O risco de contaminação pelo mercúrio não se limita apenas às aves. Segundo os pesquisadores, as comunidades que dependem fortemente da pesca para alimentação podem apresentar níveis alarmantes de mercúrio em seus organismos, especialmente em áreas afetadas pela mineração. O consumo contínuo de peixes contaminados com metilmercúrio, a forma mais tóxica do mercúrio, é uma via principal de exposição para os seres humanos.
Um estudo realizado em 2022 pela Fiocruz, em parceria com outras instituições, evidenciou contaminações em peixes da Bacia do Rio Branco (RR) e apontou os riscos associados ao consumo do pescado, que é uma fonte importante de proteínas na dieta local. As conclusões reforçam a necessidade de uma investigação mais aprofundada sobre a saúde pública e os riscos associados à contaminação por mercúrio, especialmente em grupos vulneráveis como crianças e mulheres grávidas.
Importância do Monitoramento Contínuo
Os cientistas enfatizam a necessidade de um monitoramento contínuo da fauna e dos ambientes naturais na Amazônia, integrando práticas de saúde única (One Health), um conceito que conecta a saúde humana, animal e ambiental. Com base em suas descobertas iniciais, a equipe de pesquisa tem planos de expandir seus estudos para outros municípios da Amazônia, com o intuito de identificar padrões de contaminação e compreender melhor a distribuição do mercúrio na região Norte do Brasil.
A pesquisa, embora ainda em estágio inicial, visa contribuir significativamente para a base de conhecimentos científicos sobre a contaminação ambiental na Amazônia. A equipe pretende submeter um estudo mais detalhado para publicação científica neste ano, ressaltando a urgentíssima natureza do problema.
Portanto, a questão da contaminação por mercúrio na Amazônia, especialmente entre a fauna local como os urubus-de-cabeça-vermelha, representa um chamado à ação urgente. As autoridades governamentais, organizações não governamentais e a sociedade civil devem se mobilizar para garantir a saúde ambiental e humana em uma das regiões mais vulneráveis do planeta.



