A missão Artemis II, realizada pela NASA em abril de 2026, apresentou ao mundo um avanço importante da ciência brasileira: um dispositivo para monitoramento do sono, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo, esteve presente no pulso da tripulação durante todo o percurso espacial. O equipamento, chamado actígrafo, garantiu a análise detalhada do comportamento dos astronautas durante o intenso desafio da viagem ao redor do lado oculto da Lua, um feito que destaca a relevância da pesquisa nacional em ambiente internacional.
Imagens oficiais da NASA, divulgadas nesta quarta-feira (13), mostram toda a equipe posando dentro da espaçonave Orion, no caminho de retorno à Terra após o sobrevoo do satélite natural. Entre os itens mais visíveis, o actígrafo brasileiro chamou atenção por ser utilizado de forma contínua, ampliando as possibilidades para o estudo dos ritmos biológicos mesmo em situações extremas fora do planeta.
Segundo o professor Mario Pedrazzoli, especialista em cronobiologia da EACH-USP e coordenador do projeto, o reconhecimento por parte dos Estados Unidos é uma conquista inédita, exemplificando como iniciativas desenvolvidas mesmo com recursos mais limitados, quando comparados aos países desenvolvidos, podem gerar soluções valiosas para missões espaciais de grande porte. “Na prática, significa que a NASA vai fazer medidas de sono no espaço com tecnologia brasileira e isso reforça a qualidade da nossa ciência”, destacou ele em entrevista exclusiva ao DE.
Dispositivo brasileiro monitora sono durante a missão lunar
O actígrafo desenvolvido na Paulista Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), funciona de forma semelhante a um relógio de pulso e é capaz de registrar, continuamente, dados relevantes como intensidade de movimento, níveis de atividade física e exposição à luz — inclusive a luz azul, elemento fundamental na regulação do ciclo biológico.
De acordo com informações fornecidas pela equipe da EACH, o equipamento consegue identificar períodos de sono a partir da ausência de movimento, além de medir o tipo de luz a que o astronauta está exposto. A tecnologia de ponta ainda consegue calcular a quantidade de luz melanópica, um tipo de luz que influencia diretamente o ajuste interno do corpo humano, especialmente em ambientes privados do ciclo natural de claridade, como as naves espaciais.
O monitoramento do sono dos astronautas sempre foi um ponto de atenção em missões espaciais, já que a ausência de ciclos claros e escuros impacta a qualidade do descanso e, por consequência, a performance durante operações de alto risco. “Como não há o ciclo claro/escuro natural da Terra, o sono tende a ficar desregulado e o astronauta fica privado de descanso, o que causa fadiga e perda cognitiva”, ressaltou Pedrazzoli.
O impacto do monitoramento do sono em missões espaciais
Estudos recentes apontam que mais de 60% dos astronautas relatam algum tipo de distúrbio relacionado ao sono durante viagens espaciais. Isso reforça a importância de tecnologias capazes de auxiliar no controle dos chamados ritmos circadianos, essenciais para adaptar o organismo humano a ambientes extremos.
Segundo declarações da NASA e da própria equipe no Brasil, o uso do actígrafo foi fundamental para documentar as mudanças fisiológicas ao longo dos 12 dias de missão. “Se pequenos ajustes podem prevenir erros em tarefas delicadas, imagine a diferença que isso faz para a saúde e a segurança desses profissionais”, explicou o coordenador do projeto.
O acompanhamento realizado com o equipamento paulista permitiu identificar padrões de fadiga e mudanças na resposta fisiológica, criando um banco de dados que poderá ser utilizado em futuras missões, inclusive em expedições mais longas, como a planejada viagem a Marte. As informações obtidas estão sendo armazenadas para posteriores estudos em colaboração entre a equipe de São Paulo e as agências espaciais envolvidas.
Da pesquisa à aplicação internacional na exploração espacial
A trajetória do actígrafo, desde seu desenvolvimento até a implementação pela NASA, evidencia o potencial de inovação tecnológica da Paulista Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. O projeto teve início há mais de uma década, com apoio do Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), mantido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Com resultados promissores já na fase inicial, a tecnologia avançou e, atualmente, é produzida comercialmente pela Condor Instruments, empresa com base no interior paulista. Isso possibilitou ao equipamento alcançar não só laboratórios dentro do país, mas também centros de pesquisa no exterior, consolidando a presença da inovação brasileira em agendas científicas internacionais.
Diferente dos populares relógios inteligentes vendidos ao público geral, o actígrafo foi desenhado com fins científicos no escopo das neurociências, saúde pública e pesquisas sobre distúrbios do sono. Sua precisão e confiabilidade têm atraído colaborações no mundo todo — um reconhecimento que ultrapassa fronteiras e serve de incentivo a novos talentos no campo da ciência e tecnologia.
Em paralelo à exploração espacial, o monitoramento do sono com o actígrafo já alimenta pesquisas sobre saúde pública, sobretudo em grandes cidades brasileiras, onde a exposição à poluição luminosa e ao estresse impactam diretamente nos hábitos noturnos da população.
Além do impacto na saúde física e mental dos astronautas, o projeto abre novas perspectivas de inovação no Brasil em áreas estratégicas, estimulando jovens pesquisadores a seguir carreira acadêmica e científica. “Já existem parcerias com universidades, hospitais e clínicas para expandir o uso do actígrafo, melhorando políticas públicas para o sono e a qualidade de vida”, explicou Mario Pedrazzoli.
A possibilidade de transferência dessa tecnologia para outras áreas levanta a pergunta: o que esperar para os próximos dias? O uso de dispositivos semelhantes pode auxiliar trabalhadores submetidos a jornadas de turnos, pessoas com distúrbios do sono e pacientes que necessitam de monitoramento intenso, transformando a coleta de dados em ferramenta crucial para decisões de saúde coletiva.
Reconhecimento internacional e futuro da ciência brasileira
O protagonismo de um equipamento desenvolvido no estado de São Paulo em uma missão histórica como a Artemis II representa um marco para a ciência nacional: a conquista demonstra que, mesmo diante de desafios econômicos — como investimentos muitas vezes inferiores aos de potências globais — o Brasil é capaz de oferecer soluções inovadoras a desafios complexos.
De acordo com levantamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a participação de pesquisadores brasileiros em iniciativas internacionais relacionadas ao sono aumentou em 30% entre 2015 e 2025. Essa tendência deve se intensificar com o sucesso da Artemis II, criando oportunidades para mais projetos conjuntos em campos variados da biotecnologia e da saúde espacial.
Experiências anteriores em outras missões — como a chinesa Shenzhou e as pesquisas na Estação Espacial Internacional — já haviam utilizado versões simplificadas de actígrafos. No entanto, nenhuma outra tecnologia incorporou o monitoramento de luz melanópica com tamanha precisão, o que coloca a USP e o Brasil na vanguarda da cronobiologia espacial. O futuro pode reservar parcerias entre centros de referência internacional e startups brasileiras, beneficiando tanto o setor de pesquisa quanto impulsionando a economia nacional.
Para a equipe da EACH-USP, resta o orgulho e o entusiasmo quanto aos próximos passos. A experiência acumulada na Artemis II servirá como base para novos projetos multidisciplinares. O objetivo agora é aumentar o acesso à tecnologia, expandindo sua aplicação em missões terrestres e promovendo testes clínicos em diferentes perfis populacionais e ambientes desafiadores.
Com apoio institucional e reconhecimento mundial, o Brasil se consolida, cada vez mais, como referência em soluções tecnológicas para ambientes adversos. O actígrafo — de laboratório brasileiro ao pulso dos astronautas — sintetiza o potencial do país para exercer papel relevante nas próximas décadas da exploração espacial e em políticas públicas inovadoras no campo da saúde coletiva.
A expectativa é que, até o fim da década, outros projetos saídos das universidades brasileiras também ganhem visibilidade em colaborações internacionais, incentivando a formação de novos talentos e fortalecendo a presença nacional no competitivo cenário da ciência global. E, como destacou Pedrazzoli, “os desafios do espaço podem ser grandes, mas a criatividade e competência brasileiras são ainda maiores”.



