MANAUS (AM) — A força-tarefa montada para conter o vazamento de monômero de estireno na fábrica da Innova, no Distrito Industrial, enfrenta dificuldades para estabilizar o tanque, enquanto moradores e trabalhadores da região continuam relatando sintomas de intoxicação. O produto químico, usado na fabricação de plásticos e isopor, vazou na quarta-feira (15) após uma elevação anormal de temperatura, e desde então equipes do Corpo de Bombeiros atuam no resfriamento contínuo da estrutura.
Moradores e trabalhadores relatam sintomas após exposição ao gás
Moradores e trabalhadores das proximidades da unidade da Innova contam que passaram mal com o cheiro forte da substância. A doméstica Rosivete Ferreira, 63 anos, disse que sentiu náuseas, dor de cabeça e ardência nos olhos a partir da manhã de quinta-feira (16). “Meu olho ficou parecendo que estava cheio de pimenta”, relatou. Ela afirmou que manteve a casa fechada por horas para evitar o odor e só se sentiu melhor depois de ligar os aparelhos de ar-condicionado.
O ajudante de caminhão Luiz Ferreira, que trabalha em empresa vizinha, também apresentou sintomas como diarreia e dor de cabeça. Ele afirmou que colegas passaram mal durante o expediente, mas a fábrica onde atua não interrompeu as atividades nem deu orientações. “Hoje trabalhei normal, mas estava o cheiro forte lá dentro”, disse. Ambos não procuraram atendimento médico. Os relatos são compatíveis com os efeitos do monômero de estireno descritos pela chefe do Departamento de Química da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Karime Bentes: irritação nos olhos, nariz e garganta, dores de cabeça, tontura e náuseas.
Bombeiros seguem resfriando tanque e investigam causa do vazamento
O vazamento foi registrado às 17h36 de quarta-feira (15) na Unidade IV da Innova. O forte odor levou à evacuação imediata de um shopping nas proximidades. Desde então, o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) trabalha no resfriamento do tanque para controlar a temperatura. A principal hipótese é de uma reação espontânea no interior da estrutura. Até a tarde de sexta-feira (17), a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) informou 211 atendimentos relacionados ao vazamento, com 209 altas, um paciente internado em UTI e um homem de 67 anos que morreu após procurar atendimento — sem relação direta comprovada com o incidente, segundo a pasta, já que ele tinha doença respiratória crônica.
A especialista Karime Bentes alertou que a substância, líquida em estado normal, evapora rapidamente e, como gás, pode se espalhar por grandes distâncias. Em condições de chuva, há risco de reação formando compostos nocivos e estireno líquido, aumentando a contaminação ambiental. A Innova afirmou, em nota, que a ocorrência foi controlada conforme protocolos de emergência, que não houve incêndio ou vazamento líquido para fora da área de contenção e que não há registro de vítimas. A empresa não comentou as multas aplicadas até a última atualização desta reportagem.
Multas ultrapassam R$ 22 milhões; orientações de saúde são reforçadas
A Prefeitura de Manaus e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) aplicaram multas que somam mais de R$ 22 milhões à Innova. Na sexta-feira (17), a empresa foi autuada em R$ 5,3 milhões por poluição do solo e de corpo hídrico, após drones com câmeras térmicas detectarem fissuras no tanque e continuidade do vazamento. O Ipaam aplicou outra multa de R$ 12,5 milhões por poluição atmosférica. Na quinta-feira (16), a prefeitura já havia multado a empresa em R$ 4,5 milhões por emissão de gases. Os recursos das multas municipais serão destinados ao Fundo Municipal para o Desenvolvimento e Meio Ambiente (FMDMA).
A SES-AM orienta que pessoas com sintomas como irritação nos olhos, dor de garganta, falta de ar, tontura, náusea, dor de cabeça, sonolência, confusão mental ou perda de consciência procurem uma unidade de saúde ou acionem o Samu pelo 192. A Defesa Civil recomenda permanecer em locais abertos e ventilados, manter portas e janelas abertas e desligar aparelhos que captem ar externo, como ar-condicionado. O caso segue sendo monitorado pelas autoridades no Manaus.





