Vovô Índio: a curiosa figura natalina que quase substituiu Papai Noel no Brasil

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A curiosa origem do Vovô Índio, personagem criado para substituir Papai Noel no Brasil

Nos anos 1930, houve grandes esforços em popularizar o personagem, com direito a concurso nacional para escolher imagem que melhor o representasse.

Nos anos 1930, uma figura chamava a atenção em jornais brasileiros no período natalino: o Vovô Índio. Era uma figura que foi alvo de grandes esforços para se popularizar e destronar o Papai Noel nos corações das crianças ávidas por brinquedos.

“Vovô Índio e as crianças” foi chamada de capa do jornal O Globo em 24 de dezembro de 1932, com o registro de que a figura havia sido a responsável pela entrega de presentes em uma escola municipal carioca. O mesmo jornal, em 28 de novembro, havia publicado um verdadeiro manifesto em defesa do Vovô Índio — sob o título “Vamos fazer um Natal brasileiro?” — e, em 20 de dezembro, uma declaração de guerra ao bom velhinho — “Pela deposição de Papai Noel” era o nome do texto.

Na capital paulista, os ânimos não eram diferentes. Em 1935, conforme noticiou O Estado de S. Paulo, foi o Vovô Índio quem levou presentes a órfãos paulistanos em ação promovida pela Força Pública — instituição antecessora da atual Polícia Militar.

Nos anos 1930 houve ainda um concurso nacional para escolher a imagem que melhor representasse o personagem. E, em 1939, uma peça infantil em cartaz no Rio promoveu o inusitado encontro do Papai Noel com o Vovó Índio.

Presidente do Brasil de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954, Getúlio Vargas (1882-1954) nutria simpatia pela figura, atestam pesquisadores. Há diversas histórias de que ele pessoalmente tenha se empenhado em transformar o Vovó Índio em símbolo do Natal brasileiro — mas, diante da falta de comprovação documental, se confundem os limites entre o que realmente era engajamento do político populista e o que se tornou causo folclórico.

Nos relatos, a plateia não aprovou a ideia de receber presentes de um homem vestido de tanga e com cocar na cabeça — a preferência recaía sobre o internacional Papai Noel. “A fábula do Vovô Índio dizia que ele era filho de um escravo africano com uma índia. Foi criado por uma família branca e, por influência de seus irmãos, deixou de ser escravo”, explica o jornalista Marcelo Duarte em seus livro O Guia dos Curiosos – Fora de Série.

Se as tentativas de fazer o Vovô Índio emplacar no imaginário nacional datam dos anos 1930, não se sabe exatamente a origem do mito. O que se sabe é que sua versão mais bem-acabada terminou divulgada por obra de simpatizantes do integralismo, movimento nacionalista que ficou conhecido como uma espécie de fascismo brasileiro.

Houve um grande esforço da intelectualidade nacionalista brasileira, principalmente uma intelectualidade de direita dos anos 1930, no sentido de criar essa fábula do Vovó Índio como contraponto ao Papai Noel, diz o historiador Leandro Pereira Gonçalves, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de, entre outros, O Fascismo em Camisas Verdes: do Integralismo ao Neointegralismo. Ele contextualiza, contudo, que se a simbologia nacional era muito importante ao movimento integralista, ele não foi criado pelos integralistas — foi, sim, utilizado por seus militantes.

Pesquisador vinculado à Universidade de Estrasburgo, na França, o historiador Philippe Arthur dos Reis lembra que o personagem já aparecia anteriormente no cenário musical e artístico brasileiro. “O JB de Carvalho, por exemplo, poeta de macumbas, já colocava em perspectiva a ideia do Vovô Índio como defensor da cultura. Ele fazia isso da perspectiva de um músico colocando em evidência a cultura negra e indígena”, afirma.

A fábula do Vovô Índio foi sacramentada pela lavra do jornalista Christovam de Camargo — que era amigo de Mário de Andrade e, ao que se sabe, não tinha nenhuma ligação com os integralistas. Ele publicou o conto em livro em 1932 e, depois, no jornal Correio da Manhã, no Natal de 1934. Na história de Camargo, Vovó Índio era um senhor amigo da natureza que trajava penas coloridas e saía distribuindo presentes para os brasileiros. Expulso de sua terra pelo homem branco, morreu — de “puro desgosto” — e foi parar nas portas de São Pedro. Não passou pelo crivo do paraíso, no entanto. Como não tinha sido batizado pela Igreja, o porteiro celestial precisou explicar que ele não pode ingressar no céu. Então apareceu Jesus tentando resolver a situação. Afirmou que em seu aniversário ele próprio tinha o hábito de ir ao Brasil levar mimos para as crianças bem-comportadas e que, se Vovô Índio se convertesse, pronto, ele bem que podia se tornar o emissário dos presentes. E assim, pela narrativa de Camargo, Vovô Índio se tornou o “bom velhinho” brasileiro.

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