O “comer amargura” de Trump
Ontem, Trump disse o mesmo que Xi Jiping, em junho de 2023, quando enfrentava as consequências negativas de sua política de transformar a economia chinesa em uma potência “hard tech” DE.
Enfrentando as consequências negativas de sua política de transformar a economia chinesa em uma potência “hard tech” – focada em tecnologias de ponta com duplo uso civil e militar – o que levou a um desmonte da bolha imobiliária e baixo crescimento, em junho de 2023, Xi Jiping disse que a juventude chinesa desempregada teria que a aprender a “eat bitterness” – ou aceitar a “amargura”, os custos da necessária transformação.
Ontem Trump disse a mesma coisa – para seu país e para o mundo – na sua obsessão tarifária.
Primeiro a “boa” notícia: a simples fórmula usada que pune superávits comerciais bilaterais poupou o Brasil – e puniu pesadamente economias abertas asiáticas, inclusive pobre economias como o Laos que exportam bens manufaturados de baixo valor agregado (pensem em sapatos).
Essa fórmula pega pesado também com a China – exportadora de quase tudo – e a Europa.
Até aceitando a premissa da necessidade de reindustrialização da economia americana (antes de atacar Trump neste ponto, nossos progressistas e heterodoxos estão alinhados com ele no seu apoio a nossa tupiniquim “neoindustrialização”) não faz nenhum sentido punir esse tipo de comércio.
Menciono Xi Jiping porque, logo depois do seu insensível conselho a juventude chinesa, e enfrentando uma economia cada vez mais estagnada, em 2024 ele “pivotou” e abandonou sua posição “hard core” de apoio ao “hard tech” e começou a estimular a economia e se preocupar com o desemprego.
Se Xi bateu no limite apesar do sistema político chinês, imagina nos EUA. Começando pelo fato que muito provavelmente esse choque tarifário deve, no mínimo, levar a uma recessão “técnica”, com queda do PIB de dois trimestres (este último trimestre, por vários nowcastings, deve ter sido levemente negativo, e o atual trimestre deve com certeza ser bem negativo).
Isso terá óbvias consequências políticas. Até ontem mesmo, antes do anúncio, vários Senadores republicanos se juntaram a seus colegas Democratas para aprovar uma resolução simbólica removendo as tarifas recentemente impostas ao Canadá.
Podemos ter uma profunda recessão? Isso é obviamente um risco, mas a economia americana hoje não ostenta grandes níveis de alavancagem (pense em 2007/2008) – para o choque de Trump causar uma crise bancária e financeira, condições necessárias para uma profunda recessão.
E podemos ver o Fed hesitando em um primeiro momento, mas como os mercados já estão precificando (veja a Treausry de dez anos perto de 4%), o Fed deve rapidamente cortar a taxa de juros quando o desemprego começar a subir.
Outro risco de aprofundar a crise seriam pesadas retaliações dos países afetados – especialmente a Europa.
Mas se houver um mínimo de competência política (talvez uma perigosa presunção nesses tempos de populismo) os países mais afetados devem entrar em negociações e “jogar com o tempo”, porque a recessão instalada deve amolecer a posição negocial americana.
Também devemos ver rápidas quedas nas tarifas impostas a importantes aliados como Índia e Taiwan quando fatores militares e geopolíticos entrarem em consideração.
Assim não devemos esperar que a estranha fórmula usada ontem seja a última palavra na questão tarifária. Essa longa e penosa jornada para a economia global somente começou.