Jornal Diário do Estado

Aos poucos, goianos se encantam com a doação de sangue

Ônibus de captação se junta à informação e às campanhas de incentivo, ajudando a tornar a iniciativa um hábito entre a populaçã

Quando foi a última vez em que doou sangue? A resposta dá uma dimensão do quanto a doação de sangue precisa ganhar espaço na rotina das pessoas. Apesar disso, a situação atual é melhor do que a de décadas anteriores, graças à informação e incentivos legais em diversos aspectos. Um ônibus de captação que percorre Goiânia e o interior também ajuda a manter os estoques em dia para salvar centenas de vidas em hospitais diariamente.

A empresária Carla Batista nunca imaginou que enfrentaria um câncer de mama. O diagnóstico ocorreu após uma consulta de rotina em dezembro do ano passado. A batalha foi árdua com muitas oscilações físicas e emocionais, mas finalmente ela completou os ciclos de quimioterapia e aguarda a realização de uma cirurgia para a retirada do tumor.

A vida passou a ter uma outra dimensão em poucos meses. A importância da doação de sangue foi uma delas. O corpo sentiu bastante os efeitos do tratamento, como feridas e uma anemia que a acompanhou nesse período e era resolvida apenas com transfusões de sangue. Família e amigos foram convocados para colaborar na reposição do estoque. Ela mesma, que não tinha o hábito de doar, prometeu a si mesma começar a fazer isso após autorização médica.

O serviço em Goiás é oferecido por meio de uma rede que tem o hemocentro da capital como articulador das ações no interior do estado. Apenas a doação espontânea nas unidades não consegue suprir a necessidade de vítimas de acidente e em tratamento de leucemia e anemias graves, por exemplo.

A busca ativa de possíveis doadores faz toda a diferença. Uma parceria com empresários, instituições religiosas e organizações da sociedade civil tem colaborado na estratégia de fazer adeptos desse hábito.

“A captação de sangue nos ônibus corresponde a 20% dos nossos estoques da rede. Funciona para encurtar  a distância entre nós e o doador, além de ocorrer em dia e horário flexíveis. Muita gente doa ali pela primeira vez e adere à ideia. Sangue não se fabrica”, afirma a diretora-geral da Hemorrede Pública de Goiás, Denyse Goulart.

Comodidade é justamente o que atrai Daniela Fernandes ao ônibus de captação. A servidora pública faz as doações com regularidade há quase dez anos e sempre pesquisa no site de Hemocentro onde a estrutura móvel estará para verificar a proximidade de casa ou do trabalho. A mulher se orgulha de poder colaborar e influenciar quem está à sua volta.

Ela chegou a mobilizaar a comunidade onde mora para conseguir incentivar parentes de uma associação de idosos do bairro a fazerem o mesmo. “Conseguimos 114 doadores, todos convencido pelos frequentadores do local. Foi uma ação linda demais que teve até cafezinho. Seja no prédio ou no ônibus, o atendimento da equipe do Hemocentro é sempre o mesmo, muito bom”, destaca.

Para Denyse, o engajamento voluntário de Daniela é um exemplo. “Infelizmente, muitas só notam a relevância quando um parente está internado e precisa de transfusão, principalmente se for de tipo sanguíneo raro. Orientamos as famílias a colaborarem até porque não podemos obrigá-las a repor as bolsas consumidas”, explica.

Popularização

Notícias sobre estoque baixo de sangue em todo o País se tornaram mais comuns durante a pandemia, o que não ocorreria caso todo cidadão em condições doasse ao menos uma vez ao ano. No País, apenas 2% da população doa regularmente enquanto o ideal, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), embora 4% fosse o ideal garantir a distribuição em nível adequado.  Parte do obstáculo para aumentar esse índice são os tabus. A lista é grande e totalmente sem embasamento lógico ou científico.

“Tem gente com receio de serviço de saúde e mostramos que o hemocentro não é lugar de doença, mas de tratamento. Tem o mito de que doação dói muito, que causa dependência do corpo para a regeneração da célula sanguínea, que engorda ou emagrece, que a mulher menstruada não pode doar, que precisa ficar em repouso, que existe substituto do sangue, que determinados públicos e pessoas com vitiligo ou tatuagem não podem doar, que precisa estar em jejum…enfim, há inúmeros mitos”, detalha Denyse.

Por outro lado, as legislações surgem como uma estratégia à parte para manter os estoques em dia. Muitos editais de concurso federais, estaduais e municipais preveem isenção de taxas e inscrição se o candidato comprovar ao menos três doações antes da publicação do documento, por exemplo. Para os trabalhadores, a folga aparece como um estímulo. Os funcionários do segmento privado têm liberação de um dia referente à data da doação e os servidores públicos geralmente de dois, contado com o da captação.

Como parte do reconhecimento pela atuação e também como forma de atrair a população, o Governo de Goiás investiu R$ 9,3 milhões na reforma e ampliação do prédio do Hemocentro Coordenador Estadual Nion Albernaz, localizado na Avenida Anhanguera, na capital.

Denyse ressalta que a unidade nunca tinha passado por uma ampla reforma expressiva em mais de trinta anos de existência. “O espaço foi modernizado e triplicado, o número de cadeiras para doação subiu de oito para 12 e agora temos até área de paisagismo e obras de artes. Isso tudo ajuda a mudar a imagem do hemocentro”, detalha.