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Noite Passada em Soho: um terror paranoico e deslumbrante

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Noite Passada em Soho, estrelado por Thomasin McKenzie

“Noite Passada em Soho” não é o filme mais convencional em cartaz nos cinemas, mas definitivamente vale a pena. Dirigido por Edgar Wright, responsável por longas como “Em Ritmo de Fuga” e “Scott Pilgrim Contra o Mundo”, a nova obra é um terror repleto de paranoia. Com uma ambientação deslumbrante e uma trilha sonora perfeitamente colocada, o título vale o ingresso.

Assim como muitos filmes recentes, “Noite Passada em Soho” também teve a sua produção afetada pela pandemia da Covid-19. A fotografia principal foi finalizada ainda em 2019, mas o lançamento acabou sendo adiado para dois anos depois. Nas cenas dos créditos, inclusive, são colocadas imagens de uma Londres vazia por conta da quarentena. Com um orçamento de 43 milhões de dólares, o filme marcou os últimos trabalhos das consagradas atrizes Diana Rigg, a Olenna Tyrell de “Game of Thrones”, e Margaret Nolan, a bond girl de “007 Contra Goldfinger”. Ambas morreram de câncer no ano passado.

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Noite Passada em Soho: sobre o que se trata?

A história de “Noite Passada em Soho” gira em torno de Ellie Turner (Thomasin McKenzie, de “Jojo Rabbit”), uma garota do interior da Inglaterra que se muda para Londres a fim de estudar Moda na faculdade. Com uma personalidade tímida e reservada, ela é imediatamente soterrada pela grandiosidade da capital. Mais do que nunca, a garota se volta ao passado, mais especificamente à década de 1960. Por influência familiar, grande parte das suas paixões artísticas remontam àquela época, e Ellie lamenta não ter feito parte. Tudo muda quando ela é transportada para 1965, acompanhando a jornada de Sandie (Anya Taylor-Joy, de “O Gambito da Rainha”), uma postulante à cantora. A jovem começa a ser agenciada por Jack (Matt Smith, de “Doctor Who”) e tudo transcorre bem, até que sua vida toma um rumo inesperado, desembocando nas próprias inseguranças de Ellie mais de 50 anos depois.

Noite Passada em Soho, com Anya Taylor-Joy e Matt Smith
Anya Taylor-Joy e Matt Smith / Foto: Divulgação

Por que assistir ao filme?

Primeiramente, a trama de “Noite Passada em Soho” é muito bem arquitetada. O longo primeiro ato do filme introduz uma personagem que, embora peque na falta de originalidade, consegue gerar empatia ao ser colocada em situações socialmente desconfortáveis. O desenvolvimento do enredo é gradativamente cativante, com as coisas ficando melhores a cada minuto que passa. A ambientação também é um grande destaque. A fotografia, a direção de arte e o figurino são caprichados na tentativa de emular a década de 1960. Tudo isso é coroado por um estilo típico de Edgar Wright: a musicalidade como regente da história.

Em sua filmografia, é possível estabelecer essa semelhança entre as obras. Em “Noite Passada em Soho”, a música serve não apenas como direcionadora, mas também como um elemento enriquecedor do roteiro. O terror do filme não é assustador no sentido mais convencional da palavra, mas sabe ser imersivo. Se fôssemos colocar o longa em um gênero, seria um suspense com características bem claras de terror psicológico. As interpretações são de tirar o fôlego, sobretudo das protagonistas. Thomasin McKenzie surge com um estilo mais contido, enquanto Anya Taylor-Joy ganha espaço suficiente para brilhar e roubar a cena.

Ressalvas e veredito

Como praticamente nenhum filme consegue ser perfeito, “Noite Passada em Soho” não é diferente. O excesso de alegorias visuais e narrativas pesa na reta final, e o terceiro ato é o mais fraco da obra. O posicionamento dos acontecimentos, culminando até o ápice, pode ser um tanto quanto anticlimático. A reviravolta é interessante em seu conceito, mas passa muito perto de estragar a experiência completa exibida até aquele momento. Sem soltar nenhum spoiler, a trama desvirtua todo o seu encaminhamento na tentativa de surpreender o espectador, mas falha em não perceber que não havia propriamente a necessidade de uma reviravolta.

Além disso, o primeiro ato pode ser um pouco lento para algumas pessoas, já que o filme passa bastante tempo desenvolvendo a vida de sua personagem principal. No entanto, não é algo que chega a incomodar. Pelo contrário, serve como um mecanismo de aproximação com a ficção. Com isso em mente, “Noite Passada em Soho” é uma experiência que vale a pena conferir, sobretudo para quem é fã de um gênero que foge um pouco do sistema blockbuster atual. É um terror psicológico com um ótimo cenário e uma proposta ousada, mas que pode decepcionar uma parte do público por conta de seu desfecho contraditoriamente básico.