Quem tem endometriose pode ter filhos?

Por Alexandre Silva e Silva
Ginecologista Doutor Alexandre Silva e Silva explica que a possibilidade de engravidar varia de acordo com as particularidades de cada caso 

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A endometriose é uma doença inflamatória provocada por células do endométrio (tecido que reveste o útero) que, em vez de serem expelidas durante a menstruação, se movimentam no sentido oposto e caem nos ovários ou na cavidade abdominal, onde voltam a multiplicar-se e a sangrar. Esse processo provoca dores severas na paciente, como dores abdominais e cólicas menstruais intensas, e pode até mesmo provocar infertilidade.

Todavia, muitos fatores podem influenciar na fertilidade da mulher que tem endometriose: “a doença é uma alteração particular de cada uma e quanto mais cedo for realizado o diagnóstico detalhado da doença, melhores serão planejados os seus tratamentos e mais eficazes serão seus resultados”, explica o médico ginecologista Doutor Alexandre Silva e Silva. “A mulher com endometriose pode sim engravidar e ter filhos, antes ou depois do tratamento a depender do tipo de doença e das particularidades de cada caso”, pontua.

O problema é que a endometriose não apresenta sintomas tão específicos, o que torna frequente casos de retardo no diagnóstico da doença. Segundo o ginecologista Doutor Alexandre Silva e Silva, mesmo em países desenvolvidos, é recorrente situações em que a doença leva de 7 e 10 anos para que se tenha o diagnóstico definitivo.

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Portanto, o acompanhamento com o médico ginecologista deve ser iniciado desde o início da vida fértil da mulher (primeira menstruação) a fim de garantir a sua saúde e o seu bem estar, possibilitando o diagnóstico precoce e maiores índices de êxito no tratamento. Vale ressaltar que a endometriose é uma doença ginecológica comum, que afeta cerca de 4 a 10% das mulheres em idade reprodutiva do mundo (176 milhões de mulheres).

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Quem tem endometriose pode ter filhos?

A possibilidade de engravidar depende das particularidades de cada caso

Antes de mais nada, vale ressaltar que quando falamos sobre infertilidade, nos referimos a dificuldade ou impossibilidade de engravidar de um casal e não somente da mulher. Existem fatores masculinos e femininos que contribuem igualmente em importância para a infertilidade do casal e dentre os fatores femininos, a endometriose tem um papel de destaque.

A endometriose é uma doença ginecológica comum, estrogênio dependente e inflamatória que afeta cerca de 4 a 10% das mulheres em idade reprodutiva do mundo (176 milhões de mulheres). Ela é classicamente definida pela presença de tecido endometrial fora da cavidade uterina e pode ser encontrada em basicamente 3 formas: implantes superficiais, cistos ovarianos (endometriomas) e profunda infiltrativa.

Devido a doença não apresentar sintomas tão específicos e do diagnóstico só ser realmente confirmado após a visibilização das lesões durante procedimento cirúrgico vídeolaparoscópico e da análise dessas lesões removidas por uma médico patologista, o retardo no diagnóstico da doença é muito frequente, levando entre 7 e 10 anos para que se tenha o diagnóstico definitivo, em vários países desenvolvidos do mundo. Não existem métodos diagnósticos laboratoriais não invasivos capazes de diagnosticar a doença.

O estilo de vida e o meio ambiente podem influenciar alterações de fatores imunológicos e inflamatórios em algumas mulheres, que parecem estar associados à presença e desenvolvimento da endometriose. Alterações da resposta celular aos hormônios esteroides levam a uma desregulação da resposta inflamatória promovendo a progressão da doença através da prevenção da morte celular do tecido endometrial fora do útero e formação de aderências, invasão de tecidos e proliferação celular.

Em pesquisas realizadas no endométrio de pacientes inférteis portadoras de endometriose, foram encontradas alterações das populações de células do sistema imune que poderão compor um novo rumo para o diagnóstico da doença, nesse grupo de pacientes em algum momento futuro.As pacientes portadoras de cistos ovarianos (endometriomas) podem apresentar, mesmo antes do tratamento cirúrgico, diminuição da reserva ovariana apresentando diminuição do número de folículos ovulatórios e consequentemente o número de óvulos viáveis, levando à infertilidade.

O tratamento cirúrgico desses cistos pode contribuir para a diminuição da reserva ovariana de acordo com as técnicas aplicadas para remoção deles e de suas cápsulas. A remoção mecânica da cápsula dos endometriomas pode por si só causar danos ao tecido ovariano diminuindo o número de folículos, causando sangramento e formação de aderências, levando a necessidade de aplicação de energia no tecido ovariano para conter sangramento que gera um dano térmico do mesmo.

 

Além disso, devido a proximidade e íntima relação entre as tubas uterinas e os ovários, no momento da remoção dos cistos e suas cápsulas, as tubas uterinas podem ser afetadas por dano térmico ou mecânico, apresentarem sangramento, envolverem-se em processos aderenciais futuros (pós-operatórios) que podem dificultar a sua livre mobilização e captação de óvulos no momento da ovulação. As tubas uterinas também podem apresentar lesões de endometriose na região das fímbrias, que são estruturas responsáveis pela captação dos óvulos, dificultando e até mesmo impossibilitando esse processo.

A endometriose profunda infiltrativa também pode levar a infertilidade e as pacientes portadoras dessa forma de doença, apresentam taxas de gravidez espontânea baixas que variam entre 8,7 e 13%. Essa variação da doença é frequentemente encontrada no intestino, bexiga urinária, ureteres, infiltrando diafragma (músculo da respiração), parede abdominal, músculos pélvicos e nervos.

Pacientes submetidas a tratamento cirúrgico da endometriose intestinal com técnicas variada, como o shaving (remoção das lesões de endometriose da superfície da parede do intestino) ou ressecção de um fragmento da alça intestinal (discóide ou segmentar), resultam em uma mesma incidência de gestação pós tratamento, cerca de 52,1%. Porém, a obtenção de gestação espontânea, sem a necessidade de procedimentos de fertilização, é maior no grupo que realizou ressecção segmentar ou discóide, atingindo cerca de 73,7%.

Pacientes que apresentam adenomiose e endometriose associadas no exame de  ressonância nuclear magnética de pelve, apresentam piores resultados na obtenção de gravidez do que as pacientes que apresentam diagnóstico de ressonância nuclear magnética de pelve, de adenomiose e endometriose separadamente. Estudos moleculares demonstram que as pacientes que apresentam alta expressão de determinadas moléculas nas células do endométrio, engravidam mais do que as que apresentam baixa expressão das mesmas.

São muitos os fatores que podem influenciar na fertilidade da mulher que tem endometriose, pois a doença é uma alteração particular de cada uma e quanto mais cedo for realizado o diagnóstico detalhado da doença, melhores serão planejados os seus tratamentos e mais eficazes serão seus resultados. A mulher com endometriose pode sim engravidar e ter filhos, antes ou depois do tratamento a depender do tipo de doença e das particularidades de cada caso.