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Estudantes da UFG são acusados de homofobia e assédio

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Garotas e rapazes gays estão se sentindo intimidados na universidade

Alunos do curso de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG) estão sendo acusados de homofobia e assédio após circulação de mensagens preconceituosas pelas redes sociais. Estudantes estão sendo orientados a realizar denúncias por meio da ouvidoria da instituição.

“Não suportamos mais e estamos colocando a boca no trombone”, conta Carolina (nome fictício). “Existe um grupo de no mínimo 15 rapazes que são assediadores”, aponta. A aluna afirma que muitos garotos tiram fotos sem consentimento, das estudantes com saias ou vestidos curtos para postar em grupos privados. “Queremos um basta a isso e abrimos um processo administrativo para que o caso seja apurado”, conta.

Outra jovem pontua que o convívio na Escola de Agronomia (EA/UFG) sempre foi dificultado pelo machismo. “Tudo começou quando um grupo de mulheres decidiu fazer uma festa no fim do ano e uns meninos fizeram uma publicação na internet dizendo que ninguém é vítima de estupro quando fica em casa lavando louça”, denuncia.

Publicação machista deu pontapé inicial à série de denúncias. Foto: reprodução/internet

Mensagens

Os posicionamentos aconteciam em redes como o WhatsApp, e o Instagram, onde um dos perfis que mais publicavam material de cunho machista era mantido pelo nome @erickhonesto. Em uma das mensagens é possível ler a combinação de memes com frases que fazem apologia à violência doméstica.

No mesmo perfil, imagens de print mostram uma publicação de cunho machista e LGBTfóbica (contra gays e travestis). Entre as frases estão incentivos à homofobia no Restaurante Universitário (RU) da UFG, violência contra calouras e o uso do termo ofensivo “traveco” para se referir às travestis.

Publicação ataca gays e mulheres. Foto: reprodução/internet

Em outra publicação, @erickhonesto associa a morte de LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis) à (sic) “moral e bons costumes do brasileiro de bem”.

Perfil no Instagram associa morte de LGBTs à “moral brasileira”. Foto: reprodução/internet

Silêncio

“Fizemos uma manifestação na segunda-feira (25), e no dia seguinte fomos procurar o diretor da Escola de Agronomia (Robson Geraldine), que não se manifestou sobre o caso porque imaginava que o protesto não teria repercussão”, lamenta uma representante do movimento das estudantes.

“É uma minoria que representa os responsáveis pelos episódios de assédio, mas estamos sendo coagidas e sofrendo represálias e intimidações aqui dentro”, pontua a jovem. O coletivo de alunas afirma que muitas garotas estão evitando andar sozinhas no local e alguns rapazes homossexuais também estão se sentido inseguros na universidade.

O diretor da EA/UFG, Robson Geraldine rebateu as informações e disse que a acusação sobre uma suposta tentativa de abafar o caso não procede. “Tanto que realizamos uma reunião com estudantes no auditório da escola para esclarecer os procedimentos cabíveis dentro da universidade quanto às denúncias”.

As estudantes foram até a reitoria da UFG, onde foram orientadas a abrir um processo administrativo contra os acusado e também a prestar queixa junto à Polícia Civil do Estado de Goiás. A universidade lançou uma nota sobre o assunto na última quarta-feira (29), e não se manifestou mais sobre o caso.

 

Nota da Universidade

 

A Universidade Federal de Goiás informa que a direção da Escola de Agronomia tomou conhecimento na noite de ontem, 28/11, da denúncia de homofobia envolvendo membros da comunidade acadêmica. Já a Ouvidoria da UFG recebeu ao todo 11 denúncias sobre a questão hoje pela manhã.

Ainda hoje será encaminhado para a Reitoria da UFG o pedido de abertura de Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para que seja efetuada dentro da universidade a averiguação dos fatos. O denunciante também foi orientado a prestar queixa do ocorrido junto a Polícia Civil do Estado de Goiás.

A UFG reforça que repudia ações de assédio, homofobia e discriminação de qualquer tipo. Rotineiramente são realizadas ações de combate a estas práticas. Inclusive, em novembro deste ano foi realizada a primeira reunião da Comissão permanente para acompanhamento de denúncias e processos administrativos relacionados a questões de assédio moral, sexual e preconceitos.

 

Postagens de teor homofóbico também circulavam nas redes sociais. Foto: reprodução/internet

Professores

Carolina, citada no começo da matéria, denunciou ao Diário do Estado algumas frases de assédio moral que já foram ouvidas de professores na Escola de Agronomia. “Acontece humilhação mesmo… dizem que mulher só serve pra casar com fazendeiro rico”, pontua.

“Professores param a aula e ficam descaradamente observando quando uma aluna se levanta para sair de sala”, afirma. Segundo a estudante, um professor já teria sugerido receber sexo oral ao invés de aplicar uma prova de segunda chamada.

A jovem afirma que muitas meninas não denunciam porque acreditam que os docentes são protegidos por uma suposta omissão da reitoria. “Eu estou com muito medo do que pode acontecer… especialmente dos professores”, lamenta a estudante, que se sente intimidada.

Reitoria

 

O reitor Orlando Afonso Valle do Amaral rebateu as críticas. “Não temos nenhuma postura de acobertar ou proteger denunciados ou de não investigar os casos”, alega. O gestor da instituição afirma que muitas vezes os denunciantes esperam uma resolução rápida aos conflitos, o que não acontece devido à necessidade de se apurar informações e cumprir procedimentos.

O Conselho Universitário da instituição aprovou em maio a Resolução 12/2017, que caracteriza as definições de assédio moral e sexual. “Definimos encaminhamentos para eventuais ocorrências e os tipos de penalidades aplicáveis”, conta Orlando.

As penalidades são especificadas no documento como advertência, suspensão de até 90 dias, destituição da função (quando os acusados são professores ou funcionários técnico-administrativos), e como sanção máxima, a exclusão da comunidade acadêmica, em caso de estudantes.

Reitor Orlando Afonso Valle do Amaral. Foto: reprodução/internet

“Toda denúncia que chega à ouvidoria da instituição é processada”, afirma. O procedimento de abertura do processo consiste na criação de uma comissão, que tem um prazo de até um mês para reunir e analisar documentos e ouvir testemunhas. “Esse prazo ainda pode ser prorrogado”, alerta o reitor.

A comissão deve realizar um relatório sobre o caso, que é encaminhado à reitoria. “Além disso, orientamos as estudantes a levarem as denúncias à polícia”, conta.

Incitação ao crime

O presidente da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil Seção Goiás (OAB-GO), Rogério Gomes de Mesquita Almeida afirma que os acusados podem responder na justiça por infração que consta no artigo 286 do Código Penal. “As postagens em redes sociais podem ser consideradas incitação ao crime”, aponta.

A titular da 1ª Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher de Goiânia (Deam), Ana Elisa Gomes Martins afirma que o caso não pode ser investigado até que seja feita a denúncia. “Assédios, ameaças e injúrias muitas vezes envolvem aspectos da intimidade das vítimas, então por respeito, precisamos que as estudantes demonstrem interesse na denúncia, o que nos autoriza a começar a apuração das informações”, afirma.

Beijaço

Outra manifestação foi realizada durante a semana na entrada do prédio central da Escola de Agronomia. O evento contou com um beijaço entre pessoas do mesmo gênero, em oposição aos atos homofóbicos condenados.
A professora Magda Beatriz de Almeida afirma que pela primeira vez se deparou com uma situação de tamanha gravidade. “Estamos apoiando os estudantes”, conta. Outra aluna pontuou que a faculdade tem investigado as denúncias, mas nenhuma ação sobre o caso foi tomada até então.

“Sentimos falta de cartazes conscientizando sobre os assédios, de professores discutindo isso em sala de aula”, comenta a estudante. O reitor rebate as críticas e alega que a UFG tem promovido debates sobre respeito a minorias, contra o assédio, racismo e LGBTfobia. “Temos incluído disciplinas temáticas nos cursos para discutir o respeito às diversidades”, alega.

Estudantes e professores se mobilizam contra casos de assédio na universidade. Foto: Walter Peixoto

Gustavo Motta, com colaboração de Diego Feitosa

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